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Livros
Uma
voz sensata
Em
Contra o Fanatismo, Amós Oz busca as
raízes dos conflitos que abalam o Oriente Médio

Moacyr Scliar
AFP
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| Amós
Oz: "Faça a paz, não o amor" |
Amós Oz é daqueles escritores que são portadores
de uma mensagem e ela começa no próprio nome
do autor israelense. Oz, em hebraico, significa força, e
Amós é o nome do irado profeta bíblico que
advertia aos ricos: "Ai de vós que dormis em camas de marfim".
Nas palavras da nobelizada escritora sul-africana Nadine Gordimer,
autora do prefácio de Contra o Fanatismo (tradução
de Denise Cabral de Oliveira; Ediouro; 105 páginas; 24,90
reais), a obra de Oz brada contra a confusão e a mentira.
Em romances como Fima, o autor captou a conturbada realidade
de seu país natal. Resultado de conferências na Universidade
de Tübingen, na Alemanha, o novo livro reúne três
ensaios que buscam as raízes dos conflitos que abalam o Oriente
Médio. A luta, na visão de Oz, não é
entre árabes e judeus: é entre o fanatismo e a tolerância.
No
primeiro ensaio, o ponto de partida para as reflexões é
o atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Em oposição
à visão tradicional da esquerda, Oz não acredita
que a pobreza alimente o terrorismo. Se assim fosse, argumenta,
o ataque às torres gêmeas teria vindo da África,
onde estão as populações mais pobres do planeta.
A crise também não diz respeito aos valores do Islã.
A raiz do problema está no fanatismo, que não é
apanágio exclusivo dos muçulmanos fundamentalistas
cristãos que incendeiam clínicas de aborto também
são fanáticos. Nascido em Jerusalém, em 1939,
o escritor identifica episódios de fanatismo até em
sua biografia. Quando era criança, as primeiras palavras
em inglês que aprendeu foram "British, go home" ("Fora, britânicos"),
arremessadas, junto com algumas pedras, contra os ingleses que então
ocupavam a Palestina. O fanatismo brota de atitudes morais como
essa, que recusam a conciliação.
Oz
foi soldado nas guerras que Israel travou contra os árabes
em 1967 e 1973 e não deseja repetir a experiência.
Mas tampouco guarda ilusões pacifistas. No segundo ensaio,
que trata do conflito entre seu povo e os palestinos, o autor apresenta
seu slogan: "Faça a paz, não o amor". O texto preconiza
a criação de dois Estados que convivam "como vizinhos
decentes" mesmo que palestinos e israelenses não se
gostem. Como escritor, Oz não deixa de observar o aspecto
semântico do conflito. Israel, para alguns palestinos, é
"o Estado artificial". E os israelenses por muito tempo evitaram
a expressão "povo palestino", preferindo falar em "árabes
da terra". As palavras, porém, não servem apenas para
disfarçar realidades políticas indesejáveis.
No terceiro ensaio, que trata de literatura, Amós Oz diz
que escrever ficção é "colocar-se na pele de
outra pessoa". O que é, afinal, o grande antídoto
contra o fanatismo.
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