Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Uma voz sensata

Em Contra o Fanatismo, Amós Oz busca as
raízes dos conflitos que abalam o Oriente Médio


Moacyr Scliar


AFP
Amós Oz: "Faça a paz, não o amor"


Amós Oz é daqueles escritores que são portadores de uma mensagem – e ela começa no próprio nome do autor israelense. Oz, em hebraico, significa força, e Amós é o nome do irado profeta bíblico que advertia aos ricos: "Ai de vós que dormis em camas de marfim". Nas palavras da nobelizada escritora sul-africana Nadine Gordimer, autora do prefácio de Contra o Fanatismo (tradução de Denise Cabral de Oliveira; Ediouro; 105 páginas; 24,90 reais), a obra de Oz brada contra a confusão e a mentira. Em romances como Fima, o autor captou a conturbada realidade de seu país natal. Resultado de conferências na Universidade de Tübingen, na Alemanha, o novo livro reúne três ensaios que buscam as raízes dos conflitos que abalam o Oriente Médio. A luta, na visão de Oz, não é entre árabes e judeus: é entre o fanatismo e a tolerância.

No primeiro ensaio, o ponto de partida para as reflexões é o atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Em oposição à visão tradicional da esquerda, Oz não acredita que a pobreza alimente o terrorismo. Se assim fosse, argumenta, o ataque às torres gêmeas teria vindo da África, onde estão as populações mais pobres do planeta. A crise também não diz respeito aos valores do Islã. A raiz do problema está no fanatismo, que não é apanágio exclusivo dos muçulmanos – fundamentalistas cristãos que incendeiam clínicas de aborto também são fanáticos. Nascido em Jerusalém, em 1939, o escritor identifica episódios de fanatismo até em sua biografia. Quando era criança, as primeiras palavras em inglês que aprendeu foram "British, go home" ("Fora, britânicos"), arremessadas, junto com algumas pedras, contra os ingleses que então ocupavam a Palestina. O fanatismo brota de atitudes morais como essa, que recusam a conciliação.

Oz foi soldado nas guerras que Israel travou contra os árabes em 1967 e 1973 e não deseja repetir a experiência. Mas tampouco guarda ilusões pacifistas. No segundo ensaio, que trata do conflito entre seu povo e os palestinos, o autor apresenta seu slogan: "Faça a paz, não o amor". O texto preconiza a criação de dois Estados que convivam "como vizinhos decentes" – mesmo que palestinos e israelenses não se gostem. Como escritor, Oz não deixa de observar o aspecto semântico do conflito. Israel, para alguns palestinos, é "o Estado artificial". E os israelenses por muito tempo evitaram a expressão "povo palestino", preferindo falar em "árabes da terra". As palavras, porém, não servem apenas para disfarçar realidades políticas indesejáveis. No terceiro ensaio, que trata de literatura, Amós Oz diz que escrever ficção é "colocar-se na pele de outra pessoa". O que é, afinal, o grande antídoto contra o fanatismo.

 
 
 
 
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