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Livros
Jovem
promessa
O
romance que Fernando Sabino escreveu
quando penava em Nova York, aos 22 anos

Jerônimo
Teixeira
Marco Antonio Teixeira/Ag. O Globo
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| Sabino:
adultério, pedofilia e incesto |
No
prefácio de Os Movimentos Simulados (Record;
272 páginas; 32 reais), Fernando Sabino informa que o livro
faz parte de sua "obra póstuma antecipada". Seria o típico
livro que os herdeiros de um escritor publicam com grande barulho,
como "inédito recém-descoberto". Sabino antecipou-se:
fuçando papéis velhos, descobriu um original datilografado,
com 232 páginas amareladas, sobre as quais se lia uma advertência
escrita a mão: "cuidado". Era um romance que ele escrevera
aos 22 anos. O escritor de 80 anos decidiu publicá-lo sem
revisão. Conservou até a linguagem que considera "rebarbativa".
O jovem Sabino provavelmente apreciaria essa fidelidade ao original.
Devia ser um rapaz muito sério: seu livro, um carregado drama
familiar situado na provinciana Belo Horizonte dos anos 40, não
tem um pingo do humor que mais tarde caracterizaria romances como
O Grande Mentecapto e que fez do autor um nome de primeiro
time da crônica brasileira.
A
obra foi escrita em 1946, no início de uma temporada de dois
anos que o autor passou em Nova York. Foram tempos duros. Casado,
com a mulher grávida e uma filha pequena para sustentar,
Sabino trabalhava no Escritório Comercial do Brasil. Mais
de metade do seu salário morria só no aluguel. Para
complementar o orçamento, escrevia crônicas para vários
jornais e revistas do Brasil, como Manchete, Senhor e Diário
Carioca. É de perguntar se o aperto financeiro não
influiu no clima depressivo do romance: na abertura da narrativa,
vemos Ernesto comunicando a Leonarda, sua esposa, que perdeu o emprego
no banco. A demissão de Ernesto leva-o à loucura (literalmente)
e precipita a desagregação de sua família de
quatro filhos. Ao redor desse núcleo familiar, gravitam vários
outros personagens, enredados em uma trama de adultério,
pedofilia e desejos incestuosos. Sabino, em depoimento divulgado
pela editora o autor afastou-se da imprensa há vários
anos, desde que a crítica o desancou por ter escrito de empreitada
as memórias sentimentais da ex-ministra Zélia Cardoso
de Melo, Zélia, uma Paixão , chamou as
escabrosas histórias do livro de "narrativas inenarráveis".
Pelo
resumo apressado do parágrafo acima, o leitor pode ter imaginado
que o jovem romancista criou uma tragédia suburbana digna
de Nelson Rodrigues. Mas a vida miúda desses personagens
não comporta tragédia. E Os Movimentos Simulados
faz ainda outras promessas que não cumpre. No primeiro
capítulo, o filho mais velho de Ernesto, Afrânio, vê
um homem morrer com monstruosa impassibilidade. O leitor espera
que o personagem se revele um criminoso de romance russo, mas ele
sai de cena com a discrição de um malandro de samba
carioca. Os Movimentos Simulados tem bons momentos, como
o desiludido retorno a Barbacena da moça que tentou a sorte
na capital. Mas o autor é apenas uma jovem promessa.
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Despedida no trem |
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"No
trem, acomodou as malas, sentou-se e esperou, sem reparar
nos outros passageiros que entravam. Logo o trem se
pôs em movimento, viu pela janela a plataforma
se afastando, o Viaduto que cruzou poucos momentos antes
ficando para trás. O rio Arrudas corria paralelo,
no bairro da Lagoinha uma carroça esperava o
trem passar. Depois eram duas mulheres carregando lenha,
uma casa cinza com o letreiro: 'Vila Conceição',
um jardinzinho. Não pensar em nada, não
pensar em nada. Agora o trem corria, compassado, as
rodas falavam e respondiam, tudo se acabara. Cavalos
num pasto, o campo imenso, cercas de arame farpado.
Na janela do barracão de madeira um moleque escurinho
dava adeus. Tudo, tudo acabado."
Trecho
de
Os Movimentos Simulados
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