Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Livros
Todos os fantasmas
do século XIX

Coletânea organizada por Italo Calvino
reúne obras-primas do conto fantástico


Marilia Pacheco Fiorillo

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Trecho do livro

A coletânea Contos Fantásticos do Século XIX (vários tradutores; Companhia das Letras; 517 páginas; 36,50 reais) tem tudo para agradar. Idealizado pelo escritor italiano Italo Calvino (1923-1985), em 1981, e agora apresentado ao leitor brasileiro com ótimas traduções, o livro não deixa de fora nenhum dos temas fantásticos mais típicos: criaturas vampirescas, autômatos, mortos-vivos, a sombra que se apossa do dono, elixires, partes do corpo que se rebelam e adquirem vida própria – seja uma mão encantada ou um nariz perdido –, orgias, sarabandas, atmosferas asfixiantes, obsessão pelo passado, máscaras, e, naturalmente, fantasmas, muitos fantasmas. Herdeiro indireto do romance gótico do século XVIII, o conto fantástico encontrou seu solo mais fértil com a eclosão do romantismo. Esses 26 contos do século XIX estão, portanto, entre o que de melhor se produziu no gênero, em todos os tempos.

O fantástico, como explica Calvino em sua introdução, não é o mesmo que o "maravilhoso" que caracteriza, por exemplo, as fábulas ou obras como As Mil e Uma Noites. Na fábula, o sobrenatural é perfeitamente verossímil, pois antes de iniciar a leitura já aceitamos a convenção narrativa que torna tranqüila a existência de gênios que saem de garrafas ou bichos que falam. O fantástico distingue-se exatamente pelo oposto: a capacidade do autor de deixar o leitor em suspensão e dúvida. Trata-se de um fantasma ou de delírio do protagonista? A estátua está viva ou é fruto de um pesadelo? Quanto maior for a ambigüidade, a zona de indefinição entre o natural e o extraordinário, mais feliz é o conto fantástico. É por isso que O Homem de Areia, do alemão E.T.A. Hoffmann, é a quintessência do gênero. Sigmund Freud examinou esse texto em um célebre ensaio sobre o sentimento do "sinistro". De fato, a incômoda convivência do grotesco e do familiar nos acompanha da primeira à última linha da história do enlouquecido (será?) Natanael.

O difícil numa antologia como esta não é decidir o que entra, mas o que fica de fora. Para ficar só no exemplo do americano Edgar Allan Poe, selecionar O Coração Denunciador significou abrir mão de Ligéia ou A Queda da Casa de Usher. Calvino estabeleceu alguns critérios, como recorrer a textos curtos, emblemáticos e completos (exceção feita ao polonês Jan Potocki, do qual se dá um capítulo do Manuscrito Achado em Saragoça). Dividiu sua coletânea em dois segmentos: no do "fantástico visionário", predominante nas primeiras décadas do século XIX, as figuras sobrenaturais (como a boneca de O Homem de Areia) se materializam, enquanto no do "fantástico cotidiano", tônica dos textos mais tardios, no limiar do século XX, o sobrenatural é menos palpável, fundando-se na sugestão psicológica.

O diabólico e o sublime são o sal do gênero fantástico. A mais espetacular aparição do primeiro está em O Coração Denunciador, de Poe, e do segundo em A Vênus de Ille, do francês Prosper Mérimée. Generoso, Calvino acolhe o máximo de diversidade. Seleciona O Olho sem Pálpebra, por exemplo, porque seu autor, Philarète Chasles, nunca foi célebre. O fantasmagórico surge tanto em sua vertente humorística – caso dos dois Nikolais russos, Gogol e Leskov – quanto em seus refinamentos psicológicos, como não poderia deixar de ser com Henry James. A surpresa maior desta coletânea, porém, fica por conta de dois autores que não são particularmente notórios por suas fantasias: o realista Honoré de Balzac, da Comédia Humana, e o americano Nathaniel Hawthorne, autor do romance histórico A Letra Escarlate. O Elixir da Longa Vida, de Balzac, sobre o lúgubre destino de Don Juan, é a conjugação perfeita de sarcasmo e macabro. E O Jovem Goodman Brown, de Hawthorne, é um suspense de tirar o fôlego. Mas atenção: o leitor deve pular as notas de abertura dos contos, e só lê-las ao final. Em muitos casos elas são verdadeiros desmancha-prazeres, antecipando segredos e desfechos e destruindo o melhor das histórias: o espanto que provocam.

 
 
 
 
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