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Livros
Todos
os fantasmas
do século XIX
Coletânea
organizada por Italo Calvino
reúne obras-primas do conto fantástico

Marilia
Pacheco Fiorillo
A coletânea
Contos Fantásticos do Século XIX (vários
tradutores; Companhia das Letras; 517 páginas; 36,50 reais)
tem tudo para agradar. Idealizado pelo escritor italiano Italo Calvino
(1923-1985), em 1981, e agora apresentado ao leitor brasileiro com
ótimas traduções, o livro não deixa
de fora nenhum dos temas fantásticos mais típicos:
criaturas vampirescas, autômatos, mortos-vivos, a sombra que
se apossa do dono, elixires, partes do corpo que se rebelam e adquirem
vida própria seja uma mão encantada ou um nariz
perdido , orgias, sarabandas, atmosferas asfixiantes, obsessão
pelo passado, máscaras, e, naturalmente, fantasmas, muitos
fantasmas. Herdeiro indireto do romance gótico do século
XVIII, o conto fantástico encontrou seu solo mais fértil
com a eclosão do romantismo. Esses 26 contos do século
XIX estão, portanto, entre o que de melhor se produziu no
gênero, em todos os tempos.
O
fantástico, como explica Calvino em sua introdução,
não é o mesmo que o "maravilhoso" que caracteriza,
por exemplo, as fábulas ou obras como As Mil e Uma Noites.
Na fábula, o sobrenatural é perfeitamente verossímil,
pois antes de iniciar a leitura já aceitamos a convenção
narrativa que torna tranqüila a existência de gênios
que saem de garrafas ou bichos que falam. O fantástico distingue-se
exatamente pelo oposto: a capacidade do autor de deixar o leitor
em suspensão e dúvida. Trata-se de um fantasma ou
de delírio do protagonista? A estátua está
viva ou é fruto de um pesadelo? Quanto maior for a ambigüidade,
a zona de indefinição entre o natural e o extraordinário,
mais feliz é o conto fantástico. É por isso
que O Homem de Areia, do alemão E.T.A. Hoffmann, é
a quintessência do gênero. Sigmund Freud examinou esse
texto em um célebre ensaio sobre o sentimento do "sinistro".
De fato, a incômoda convivência do grotesco e do familiar
nos acompanha da primeira à última linha da história
do enlouquecido (será?) Natanael.
O
difícil numa antologia como esta não é decidir
o que entra, mas o que fica de fora. Para ficar só no exemplo
do americano Edgar Allan Poe, selecionar O Coração
Denunciador significou abrir mão de Ligéia
ou A Queda da Casa de Usher. Calvino estabeleceu alguns critérios,
como recorrer a textos curtos, emblemáticos e completos (exceção
feita ao polonês Jan Potocki, do qual se dá um capítulo
do Manuscrito Achado em Saragoça). Dividiu sua coletânea
em dois segmentos: no do "fantástico visionário",
predominante nas primeiras décadas do século XIX,
as figuras sobrenaturais (como a boneca de O Homem de Areia)
se materializam, enquanto no do "fantástico cotidiano", tônica
dos textos mais tardios, no limiar do século XX, o sobrenatural
é menos palpável, fundando-se na sugestão psicológica.
O
diabólico e o sublime são o sal do gênero fantástico.
A mais espetacular aparição do primeiro está
em O Coração Denunciador, de Poe, e do segundo
em A Vênus de Ille, do francês Prosper Mérimée.
Generoso, Calvino acolhe o máximo de diversidade. Seleciona
O Olho sem Pálpebra, por exemplo, porque seu autor,
Philarète Chasles, nunca foi célebre. O fantasmagórico
surge tanto em sua vertente humorística caso dos dois
Nikolais russos, Gogol e Leskov quanto em seus refinamentos
psicológicos, como não poderia deixar de ser com Henry
James. A surpresa maior desta coletânea, porém, fica
por conta de dois autores que não são particularmente
notórios por suas fantasias: o realista Honoré de
Balzac, da Comédia Humana, e o americano Nathaniel
Hawthorne, autor do romance histórico A Letra Escarlate.
O Elixir da Longa Vida, de Balzac, sobre o lúgubre
destino de Don Juan, é a conjugação perfeita
de sarcasmo e macabro. E O Jovem Goodman Brown, de Hawthorne,
é um suspense de tirar o fôlego. Mas atenção:
o leitor deve pular as notas de abertura dos contos, e só
lê-las ao final. Em muitos casos elas são verdadeiros
desmancha-prazeres, antecipando segredos e desfechos e destruindo
o melhor das histórias: o espanto que provocam.
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