Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Cinema
Harry cresceu e apareceu

No terceiro filme, a saga do bruxinho
finalmente ganha um bom tradutor


Isabela Boscov


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O professor Snape (Alan Rickman) protege Harry e seus amigos: ênfase nos atores mais competentes

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Trailer

A cada livro da série Harry Potter, o protagonista se distancia um passo da sua infância e se torna mais introspectivo e atormentado pelas lembranças do passado – o assassinato de seus pais – e pelas preocupações do futuro, que vêm sempre na forma dos estratagemas do tenebroso Lorde Voldemort para matá-lo e assim recuperar o domínio sobre o mundo dos bruxos. Trata-se de uma evolução que o diretor Chris Columbus, cujo talento maior é para a pasteurização, não conseguiu expressar nos dois primeiros filmes da série. Em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, Estados Unidos, 2004), porém, o universo criado pela escritora escocesa J.K. Rowling finalmente encontrou quem o traduzisse com o vocabulário adequado. No terceiro capítulo da saga, que estréia nesta sexta-feira no país, o diretor mexicano Alfonso Cuarón demonstra olho clínico para o que não funcionou nos dois outros filmes e uma percepção precisa do que faltava a eles. O resultado é uma reforma tanto no atacado como no varejo e um certo desapontamento – pelo que os episódios anteriores poderiam ter sido, e não foram.


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A tia "trouxa" que virou um balão sobrevoa o jardim dos Dursley: um quê de pesadelo

Em O Prisioneiro de Azkaban, os alunos da escola de bruxaria Hogwarts retornam para o período letivo sob uma ameaça – a fuga do bruxo Sirius Black da prisão do título. Sirius, ao que se sabe, nunca deixou de ser fiel a Voldemort, e por isso imagina-se que ele esteja em Hogwarts, a fim de exterminar Harry. A escola está, portanto, em estado de sítio, sob a vigilância constante dos terríveis espectros chamados Dementadores. O clima é de mal-estar, e Cuarón não se faz de rogado quanto a colocá-lo na tela – o que, uma vez que o público de Harry está crescendo junto com ele, não deve constituir um problema. O diretor, além disso, chegou a uma constatação óbvia, mas que ainda assim havia escapado ao seu antecessor: um mundo habitado por bruxos, bruxas e fantasmas, onde as pinturas são vivas e não param de se mover e mesmo as escadarias mudam de lugar conforme a própria vontade, pode ter muito encantamento, mas há de ter um quê de pesadelo também. Vista agora por Cuarón, Hogwarts parece muito mais vasta, medieval e cheia de cantos escuros – além de dilapidada – do que antes, e os seus moradores, muito mais estranhos. Operaram-se mudanças também nos Dursley, os detestáveis tios "trouxas" (ou seja, não mágicos) de Harry, que foram promovidos do simples ridículo para o grotesco. A cena em que, por obra de Harry, uma parente grosseira vira um balão, é um exemplo do acertado flerte de Cuarón com o surreal. A Londres que a matrona sobrevoa não é mais um território de fantasia, mas a Londres úmida e inóspita dos anos 50, povoada por gente de dentes sensivelmente mais amarelados do que é comum encontrar em produções financiadas por Hollywood.

Outra providência salutar do diretor foi se amparar nos atores mais capazes – Gary Oldman como Sirius, David Thewlis como o professor Lupin, Michael Gambon no papel do mestre-escola Dumbledore e mesmo Daniel Radcliffe, bem mais maduro, como Harry – e reduzir ao mínimo as intervenções dos elos fracos de seu elenco, entre os quais Rupert Grint, o ruivinho Ronnie, sempre foi o mais evidente. No geral, Cuarón deixou mais instigante (e um bocado mais árdua) a tarefa do inglês Mike Newell, de Quatro Casamentos e Um Funeral, que vai suceder a ele na direção de Harry Potter e o Cálice de Fogo. Se, com todas essas qualidades, a história de O Prisioneiro de Azkaban às vezes segue meio a esmo, a culpa é menos do mexicano do que da própria autora. J.K. Rowling é boa argumentista e ótima na fantasia, mas sua prosa tem algo de prolixo e desleixado, falhas que só vêm se acentuando à medida que seus enredos e alusões se tornam mais complexos. Suprimir trechos ou inventar outros para amarrar melhor o roteiro, porém, seria impensável. Para os fãs da série, mexer com Harry é crime de lesa-majestade.

 
 
 
 
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