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Cinema
Harry
cresceu e apareceu
No
terceiro filme, a saga do bruxinho
finalmente ganha um bom tradutor

Isabela
Boscov
Divulgação
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professor Snape (Alan Rickman) protege Harry e seus amigos:
ênfase nos atores mais competentes |
A cada
livro da série Harry Potter, o protagonista se distancia
um passo da sua infância e se torna mais introspectivo e atormentado
pelas lembranças do passado o assassinato de seus
pais e pelas preocupações do futuro, que vêm
sempre na forma dos estratagemas do tenebroso Lorde Voldemort para
matá-lo e assim recuperar o domínio sobre o mundo
dos bruxos. Trata-se de uma evolução que o diretor
Chris Columbus, cujo talento maior é para a pasteurização,
não conseguiu expressar nos dois primeiros filmes da série.
Em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter
and the Prisoner of Azkaban, Estados Unidos, 2004), porém,
o universo criado pela escritora escocesa J.K. Rowling finalmente
encontrou quem o traduzisse com o vocabulário adequado. No
terceiro capítulo da saga, que estréia nesta sexta-feira
no país, o diretor mexicano Alfonso Cuarón demonstra
olho clínico para o que não funcionou nos dois outros
filmes e uma percepção precisa do que faltava a eles.
O resultado é uma reforma tanto no atacado como no varejo
e um certo desapontamento pelo que os episódios anteriores
poderiam ter sido, e não foram.
Divulgação
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tia "trouxa" que virou um balão sobrevoa o
jardim dos Dursley: um quê de pesadelo |
Em
O Prisioneiro de Azkaban, os alunos da escola de bruxaria
Hogwarts retornam para o período letivo sob uma ameaça
a fuga do bruxo Sirius Black da prisão do título.
Sirius, ao que se sabe, nunca deixou de ser fiel a Voldemort, e
por isso imagina-se que ele esteja em Hogwarts, a fim de exterminar
Harry. A escola está, portanto, em estado de sítio,
sob a vigilância constante dos terríveis espectros
chamados Dementadores. O clima é de mal-estar, e Cuarón
não se faz de rogado quanto a colocá-lo na tela
o que, uma vez que o público de Harry está crescendo
junto com ele, não deve constituir um problema. O diretor,
além disso, chegou a uma constatação óbvia,
mas que ainda assim havia escapado ao seu antecessor: um mundo habitado
por bruxos, bruxas e fantasmas, onde as pinturas são vivas
e não param de se mover e mesmo as escadarias mudam de lugar
conforme a própria vontade, pode ter muito encantamento,
mas há de ter um quê de pesadelo também. Vista
agora por Cuarón, Hogwarts parece muito mais vasta, medieval
e cheia de cantos escuros além de dilapidada
do que antes, e os seus moradores, muito mais estranhos. Operaram-se
mudanças também nos Dursley, os detestáveis
tios "trouxas" (ou seja, não mágicos) de Harry, que
foram promovidos do simples ridículo para o grotesco. A cena
em que, por obra de Harry, uma parente grosseira vira um balão,
é um exemplo do acertado flerte de Cuarón com o surreal.
A Londres que a matrona sobrevoa não é mais um território
de fantasia, mas a Londres úmida e inóspita dos anos
50, povoada por gente de dentes sensivelmente mais amarelados do
que é comum encontrar em produções financiadas
por Hollywood.
Outra
providência salutar do diretor foi se amparar nos atores mais
capazes Gary Oldman como Sirius, David Thewlis como o professor
Lupin, Michael Gambon no papel do mestre-escola Dumbledore e mesmo
Daniel Radcliffe, bem mais maduro, como Harry e reduzir ao
mínimo as intervenções dos elos fracos de seu
elenco, entre os quais Rupert Grint, o ruivinho Ronnie, sempre foi
o mais evidente. No geral, Cuarón deixou mais instigante
(e um bocado mais árdua) a tarefa do inglês Mike Newell,
de Quatro Casamentos e Um Funeral, que vai suceder a ele
na direção de Harry Potter e o Cálice de
Fogo. Se, com todas essas qualidades, a história de O
Prisioneiro de Azkaban às vezes segue meio a esmo, a
culpa é menos do mexicano do que da própria autora.
J.K. Rowling é boa argumentista e ótima na fantasia,
mas sua prosa tem algo de prolixo e desleixado, falhas que só
vêm se acentuando à medida que seus enredos e alusões
se tornam mais complexos. Suprimir trechos ou inventar outros para
amarrar melhor o roteiro, porém, seria impensável.
Para os fãs da série, mexer com Harry é crime
de lesa-majestade.
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