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Cinema
Vejo,
logo desejo
Moça
com Brinco de Pérola
relembra
que
não há nada mais erótico
do que
olhar e
ser olhado

Isabela Boscov
A atriz
Scarlett Johansson tem uma beleza fresca e limpa, sem artifício
e que ainda não aprendeu a se alardear o tipo de beleza
que tira a razão dos homens, em especial daqueles que já
viveram o suficiente para saber quanto esse frescor é raro
e transitório. E é também o tipo de beleza
perfeito para a protagonista de Moça com Brinco de
Pérola (Girl with a Pearl Earring, Inglaterra,
2003), em que a capacidade não só de olhar, mas de
ver, é o tema central. No filme que estréia nesta
sexta-feira, Scarlett vive uma personagem criada pela escritora
Tracy Chevalier, em cujo livro esta adaptação se baseia:
a empregada Griet, que teria servido de modelo ao quadro homônimo
de Johannes Vermeer, um dos grandes mestres da pintura. Vermeer
viveu na cidade holandesa de Delft no século XVII, deixou
cerca de trinta obras, usufruiu o ocasional patronato de um homem
rico e teve quinze filhos com sua mulher. Muito mais não
se sabe sobre ele, e essa falta de informação é
ainda mais torturante em vista do tema de sua pintura. Vermeer pintou
quase só flagrantes domésticos mulheres despejando
leite, olhando pela janela, ou desconcertadas pela atenção
de um cavalheiro insistente. São cenas extremamente íntimas,
e transmitem a impressão de ter sido feitas sem o conhecimento
de suas personagens cuja identidade é também
uma incógnita, algo incomum numa época em que retratar
os ricos era a principal fonte de renda dos pintores.
Imaginar
uma resposta a essa indagação quem Vermeer
pintou, e por quê é o intuito de Moça
com Brinco de Pérola. A jovem Griet chega à casa
de Vermeer para fazer trabalhos pesados, mas logo chama a atenção
do pintor (Colin Firth) por sua beleza e por algo mais inefável:
ela tem o dom inato de apreciar sua pintura e de intuir que ela
representa não um registro documental, mas um estudo sobre
o poder que o olhar tem de modificar o que se vê. E, como
o filme se quer um romance, o olhar de Vermeer sobre Griet vai despertá-la
e modificá-la profundamente para ira da mulher do
pintor, cujo único talento é produzir filhos. Como
intriga, o filme do diretor estreante Peter Webber não tem
nada de muito original. Mas, no seu jogo de luzes e perspectivas
que reproduzem a obra de Vermeer e graças à atuação
de Scarlett, ele chega a um lugar bem mais interessante: aquele
em que o ponto de vista do pintor e o de sua personagem se cruzam
e, mesmo sem nenhum contato físico, resultam numa intimidade
muito mais completa do que a proporcionada pelo sexo ou pela convivência.
Algo que, antes de cair em desuso no cinema, tinha o nome de erotismo.
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