Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Cinema
Vejo, logo desejo

Moça com Brinco de Pérola relembra
que não há nada mais erótico do que
olhar
e ser olhado


Isabela Boscov

A atriz Scarlett Johansson tem uma beleza fresca e limpa, sem artifício e que ainda não aprendeu a se alardear – o tipo de beleza que tira a razão dos homens, em especial daqueles que já viveram o suficiente para saber quanto esse frescor é raro e transitório. E é também o tipo de beleza perfeito para a protagonista de Moça com Brinco de Pérola (Girl with a Pearl Earring, Inglaterra, 2003), em que a capacidade não só de olhar, mas de ver, é o tema central. No filme que estréia nesta sexta-feira, Scarlett vive uma personagem criada pela escritora Tracy Chevalier, em cujo livro esta adaptação se baseia: a empregada Griet, que teria servido de modelo ao quadro homônimo de Johannes Vermeer, um dos grandes mestres da pintura. Vermeer viveu na cidade holandesa de Delft no século XVII, deixou cerca de trinta obras, usufruiu o ocasional patronato de um homem rico e teve quinze filhos com sua mulher. Muito mais não se sabe sobre ele, e essa falta de informação é ainda mais torturante em vista do tema de sua pintura. Vermeer pintou quase só flagrantes domésticos – mulheres despejando leite, olhando pela janela, ou desconcertadas pela atenção de um cavalheiro insistente. São cenas extremamente íntimas, e transmitem a impressão de ter sido feitas sem o conhecimento de suas personagens – cuja identidade é também uma incógnita, algo incomum numa época em que retratar os ricos era a principal fonte de renda dos pintores.

Imaginar uma resposta a essa indagação – quem Vermeer pintou, e por quê – é o intuito de Moça com Brinco de Pérola. A jovem Griet chega à casa de Vermeer para fazer trabalhos pesados, mas logo chama a atenção do pintor (Colin Firth) por sua beleza e por algo mais inefável: ela tem o dom inato de apreciar sua pintura e de intuir que ela representa não um registro documental, mas um estudo sobre o poder que o olhar tem de modificar o que se vê. E, como o filme se quer um romance, o olhar de Vermeer sobre Griet vai despertá-la e modificá-la profundamente – para ira da mulher do pintor, cujo único talento é produzir filhos. Como intriga, o filme do diretor estreante Peter Webber não tem nada de muito original. Mas, no seu jogo de luzes e perspectivas que reproduzem a obra de Vermeer e graças à atuação de Scarlett, ele chega a um lugar bem mais interessante: aquele em que o ponto de vista do pintor e o de sua personagem se cruzam e, mesmo sem nenhum contato físico, resultam numa intimidade muito mais completa do que a proporcionada pelo sexo ou pela convivência. Algo que, antes de cair em desuso no cinema, tinha o nome de erotismo.

 
 
 
 
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