Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Tecnologia
Quando as coisas dão errado

Desabamento em aeroporto francês
surpreende o mundo. E lembra que
as falhas são parte do progresso


Fotos AP
AP
CHALLENGER
O ônibus espacial explode após o lançamento, em 1986: o homem já chegou à Lua, mas não pôde evitar essa tragédia
KURSK
O submarino nuclear afundou em 2000: o que seria uma jóia da engenharia naval falhou e matou 118 tripulantes

As grandes realizações da engenharia costumam chamar atenção quando são inovadoras na função e arrojadas na forma. Com freqüência, elas também viram notícia por servir de cenário a tragédias inesperadas. O novo terminal 2E do Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, cuja cúpula desabou na semana passada matando quatro pessoas, se encaixa nos dois casos. O 2E era um túnel curvo, com 650 metros de extensão, coberto por enormes placas de vidro e livre de colunas internas. Essa estrutura ousada era admirada pelos passageiros por sua beleza desde que foi inaugurada, há onze meses. Agora, é a razão do desgosto dos parisienses. Como é possível uma obra de 750 milhões de euros, destinada a transformar Paris no centro da aviação comercial da Europa, projetada por um arquiteto que já fez mais de quarenta aeroportos – o francês Paul Andreu –, desmanchar-se como um castelo de cartas? Responsáveis pela operação do aeroporto, peritos da Justiça parisiense e técnicos independentes apontaram as mais diversas possibilidades de falha: rachaduras no concreto, materiais frágeis e até a ruptura de um cano de água. Os franceses ficaram estarrecidos: como puderam protagonizar um desastre tão grande de engenharia?

Assim que o orgulho ferido dos franceses cicatrizar, o desastre do terminal 2E será colocado em sua verdadeira dimensão. Como em todas as fatalidades envolvendo obras ou máquinas em que o homem dá um passo em direção ao futuro, o erro servirá de lição, desafiará os engenheiros a corrigi-lo e, dessa forma, se transformará em combustível para o avanço das tecnologias. Desde que construiu sua primeira ponte, provavelmente um tronco de árvore atravessado sobre o leito de um rio, o homem utilizou as falhas como motor do progresso. O tronco certamente apodreceu ou foi arrastado pelas enchentes, incentivando nossos antepassados a procurar um material mais resistente para construí-la – no caso a pedra e, muito mais tarde, o ferro. Os exemplos no mundo moderno são abundantes. Em 1952, uma empresa inglesa lançou o Comet, o primeiro avião comercial a jato. Nos anos seguintes, dezenas de pessoas morreram em acidentes envolvendo o Comet. Descobriu-se que o problema era um erro no projeto da fuselagem. A partir daí, complexos testes de qualidade, capazes de detectar problemas desse tipo, tornaram-se padrão na indústria aeronáutica.

Na década de 70, a Nasa, a agência espacial americana, começou a projetar os ônibus espaciais como uma alternativa barata e segura para colocar satélites em órbita. Seus técnicos já haviam levado o homem à Lua, mas não foram capazes de prever, em 1986, um vazamento de gás de altíssima temperatura que provocou a explosão do tanque de combustível da nave Challenger, com sete tripulantes a bordo. O americano Henry Petroski, professor de engenharia e história da Universidade Duke, nos Estados Unidos, acredita que, enquanto existir progresso tecnológico, erros e acidentes continuarão acontecendo. É inevitável, mesmo com o conhecimento acumulado por milênios de fracassos. "Os aspectos mais importantes da engenharia são os mais simples e é quando nos esquecemos deles que as coisas dão errado", escreveu Petroski em seu livro To Engineer Is Human: the Role of Failure in Successful Design (Projetar É Humano: o Papel dos Erros nos Designs de Sucesso). Quando acham que dominam com perfeição uma técnica, os engenheiros às vezes se concentram demais nos aspectos inovadores do que estão fazendo e descuidam dos detalhes mais comuns.

Um exemplo na engenharia recente é o da Ponte do Milênio, construída em Londres para comemorar o ano 2000. Logo após sua inauguração, a massa humana caminhando sobre a estrutura a fez balançar tanto que foi preciso interditá-la. Estreita, comprida e com cabos de sustentação muito esticados, a construção tem um design ousado. Toda ponte pênsil vibra um pouco, mas o erro dos engenheiros foi não levar em conta o comportamento da multidão, que, para se adaptar à trepidação da estrutura, começou a caminhar no mesmo ritmo. Isso fazia a vibração aumentar ainda mais, provocando um efeito dominó. O problema foi corrigido com a instalação de estruturas que absorvem a oscilação da ponte. Assim, a engenharia do século XXI aprendeu mais um pouco sobre pontes.

 
 
 
 
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