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PIB
O
Brasil sai do sufoco
O
país cresce pelo terceiro trimestre
consecutivo e mostra que a economia
ganhou fôlego. O desafio é não sair da rota

Lucila
Soares e Marcelo Carneiro
Ricardo Benichio
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| Indústria
eletroeletrônica em Campinas: a produção
industrial cresceu 2,9% |
Já
se foi o tempo felizmente em que se comparava a economia
brasileira a um paciente internado numa UTI cujo futuro se resumia
à perspectiva longínqua de um dia poder ir para o
quarto. Nos últimos dias, entretanto, as notícias
sobre a saúde econômica do país andaram aparentemente
tão desencontradas que, dependendo do sintoma observado,
se podia chegar à conclusão de que o paciente está
prestes a correr uma maratona ou na iminência de voltar aos
cuidados intensivos. Exemplo típico do primeiro caso: os
dados sobre o crescimento de 2,7% do produto interno bruto (PIB)
no primeiro trimestre, resultado acima da expectativa da maioria
dos analistas. Como o PIB mede o desempenho de toda a economia (veja
como é feito esse cálculo), um resultado
positivo é sempre boa notícia. Exemplo típico
do segundo caso: a taxa recorde de desemprego, acompanhada da primeira
queda na renda desde janeiro. Como é possível que
um país cresça ao mesmo tempo que o desemprego sobe
e a renda cai? Para complicar ainda mais, a mesma variável
pode ser lida de várias maneiras, provocando avaliações
totalmente diferentes.
Rogerio Monteiro
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| Mailson
da Nóbrega: preocupação no front interno
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Para
entender o significado de um dado econômico, é preciso
analisá-lo sob vários ângulos. O caso do PIB
e o da produção industrial são bem ilustrativos.
O valor de cada um vai depender da base e do período de comparação
escolhidos. Os 2,7% de crescimento do PIB anunciados pelo governo
se referem ao resultado obtido quando se compara o desempenho da
economia no primeiro trimestre de 2004 com o mesmo período
de 2003. Quando se compara a evolução do PIB do primeiro
trimestre de 2004 com o último de 2003, o valor cai para
1,6% de crescimento e vai a zero quando se toma uma série
maior por exemplo, os quatro últimos trimestres em
comparação com os quatro imediatamente precedentes.
No caso do recorde do desemprego, a análise é um pouco
mais complexa. É preciso recorrer a mais de um indicador.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
aferiu, nas seis principais regiões metropolitanas do país,
uma taxa de desemprego de 13,1%, a maior desde outubro de 2001.
Ao mesmo tempo, o Ministério do Trabalho registrou a criação
de 185 000 empregos formais em todo o país. Foi o melhor
número para um mês de abril desde 1992. É muito
pouco para aliviar o drama de um país em que só nas
regiões metropolitanas existem 2,8 milhões de desempregados.
As duas informações parecem contraditórias,
mas não são. É comum o desemprego crescer no
início de um movimento de recuperação econômica.
Isso ocorre por dois motivos. O primeiro: a princípio, as
empresas aumentam a produção ocupando a capacidade
ociosa das fábricas. Só depois pensam em contratar.
O segundo: a perspectiva de abertura de novas vagas faz com que
pessoas que já tinham desistido de procurar emprego voltem
a fazê-lo.
"Como
se sabe, basta torturar os números para que eles contem a
história que se deseja ler", diz o matemático americano
John Allen Paulos, autor de um best-seller sobre a tensa relação
da imprensa americana com as estatísticas (veja
quadro). Com ajuda de especialistas, repórteres
de VEJA cotejaram os dados econômicos aparentemente desconexos
das últimas semanas e extraíram o que eles têm
de realidade. As principais conclusões:
O crescimento do PIB brasileiro no primeiro trimestre foi bom, mas
menor que o de outros países emergentes. No mesmo período,
o México cresceu 4,6%, o Chile, 4,5% e a Argentina, 10%.
O crescimento da economia brasileira impressiona principalmente
porque ele foi medido em relação a uma base de comparação
muito fraca, o primeiro trimestre do ano passado. Naqueles três
meses, a economia brasileira encolheu, fato que se repetiu no segundo
trimestre e caracterizou a entrada do país em recessão.
A notícia realmente auspiciosa embutida na divulgação
do resultado do PIB é que o Brasil reverteu a tendência
à estagnação econômica e, apesar de um
aperto fiscal sem precedentes na história recente do país,
conseguiu crescer sem despertar a inflação. O superávit
primário anunciado na sexta-feira chegou a 11,9 bilhões
de reais em abril e bateu todos os recordes desde que esse indicador
de austeridade dos governos começou a ser medido no Brasil,
em 1991.
Quando se olha para o comportamento dos componentes do PIB, os sinais
do que está dando certo no Brasil ficam mais claros ainda.
A agricultura (com aumento de 3,3% sobre o trimestre anterior) e
as exportações (com 5,6%) continuam sendo responsáveis
pelos melhores desempenhos.
Economistas adoram exercitar sua vocação para cálculos
e estimativas futuras. Entre suas práticas favoritas está
a anualização de índices, que nada mais é
do que extrapolar para o ano o resultado obtido num determinado
período. Pois bem, anualizado, o crescimento de 1,6% do PIB
equivaleria a 6,8% em dezembro de 2004. Muitos economistas abraçaram
alegremente e sem crítica essa realidade virtual, esquecendo-se
de que no começo do ano passado, com base em um suspiro de
crescimento apurado em dezembro de 2002, as taxas anualizadas para
2003 apontavam para 4% de crescimento. Deu zero.
O
desafio de continuar a crescer continua tão grande e complexo
quanto antes da divulgação dos números do PIB
na semana passada. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que falou
a VEJA na noite de quinta-feira (manhã de sexta-feira no
Japão, onde estava para uma reunião com empresários),
conhece os obstáculos. Disse Palocci: "Para garantir a retomada
definitiva, temos de cuidar de medidas complementares, coisas como
o pacote da construção civil, a lei de falências,
a política industrial e os modelos regulatórios".
Com ele concorda a maioria dos analistas econômicos, até
porque é difícil discordar de avaliação
tão sensata. A questão é que existe uma profusão
de incógnitas no horizonte. Externamente, a escalada dos
preços do petróleo e, principalmente, a elevação
dos juros dos Estados Unidos podem tumultuar o segundo semestre.
Ainda que seja fonte de preocupação, o ambiente externo
não tem nuvens excessivamente carregadas. É para o
front interno que estão voltadas as atenções
dos analistas. "O fator político pode confirmar os motivos
de otimismo ou fazer tudo desandar", alerta o ex-ministro da Fazenda
Mailson da Nóbrega, sócio da consultoria Tendências.
Paira alguma incerteza sobre a capacidade do governo Lula em articular
o andamento das medidas às quais se referiu o ministro Palocci.
Existem problemas mais imediatos e preocupantes. A campanha de parte
do PT para levar o mínimo a um valor acima dos 260 reais
propostos pelo governo é um dos principais, porque se surtir
efeito terá conseqüências desastrosas sobre as
contas públicas.
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