Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Ciência
Sem eles, nem pensar

Alívio geral: ao contrário do que se disse,
os homens são indispensáveis. Ao menos
na hora de ter filhos


Thereza Venturoli


AP
Kaguya, o pivô da confusão: uma das mães "fingiu" ser pai


Há algumas semanas, os homens levaram um susto. Cientistas japoneses e coreanos apresentaram ao mundo a fêmea de camundongo Kaguya, o primeiro mamífero nascido apenas de óvulos – ou seja, sem nenhuma participação do espermatozóide. O feito da equipe asiática parecia colocar os mamíferos machos a um passo de se tornarem absolutamente dispensáveis. A conclusão imediata foi tão óbvia quanto dramática: se é possível combinar o material genético de duas roedoras para gerar um filhote, o que falta então para as fêmeas da espécie humana descartarem namorados, maridos e parceiros? Piadas e bravatas feministas à parte, a coisa não é bem assim, nem tão simples. O que a experiência asiática comprovou, na verdade, é o contrário: o macho é peça fundamental na reprodução e sobrevivência dos mamíferos. Ela reforçou, ainda, a idéia de que o ato sexual entre indivíduos de sexos opostos – graças aos céus – não está fadado a se tornar obsoleto de uma hora para outra.

Toda a confusão tem origem num termo usado no artigo científico publicado na revista Nature: partenogênese. Tradicionalmente, esse é o nome que se dá a um tipo de reprodução assexuada, no qual uma fêmea gera filhotes a partir de seus próprios óvulos, sem a contribuição de um macho. Nesse caso, a prole carrega apenas os genes maternos. É assim que abelhas, vespas e formigas, por exemplo, mantêm a população da colônia quando faltam parceiros do sexo oposto no pedaço. Esse processo reprodutivo – que alguns peixes, répteis e aves também realizam – é bem conhecido dos biólogos. E idéias de geração da vida a partir de um único ser fazem parte da história do pensamento desde os tempos mais remotos. Jesus Cristo, pela tradição cristã, foi gerado por uma virgem – ou seja, seria fruto de uma reprodução assexuada. O naturalista suíço Charles Bonnet chegou a afirmar, no século XVIII, que Eva, a personagem bíblica, carregaria toda a humanidade dentro de seu corpo – uma série de seres humanos prontinhos, encaixados um dentro do outro, como matrioschkas, aquelas bonecas típicas russas. No entanto, jamais se verificou entre mamíferos uma emancipação feminina levada a tais extremos (milagres como o da Virgem Maria não contam para a ciência contemporânea). Daí a comoção – um tanto apressada – causada pela experiência de coreanos e japoneses.

O fato é que a partenogênese conseguida em laboratório por esses cientistas não é igual à que se conhece na natureza. Kaguya não nasceu de um, mas de dois óvulos, e é fruto da combinação dos genes de dois indivíduos. Isso significa que se quebrou a regra do cruzamento entre sexos opostos, mas a receita genética do camundongo recém-nascido ainda é fornecida pela combinação de genes. Ou seja, no fundo, trata-se de uma reprodução sexuada. Mas será que se pode concluir, com base em tal experiência, que o macho pode ser substituído por uma fêmea? De jeito nenhum. Abrir mão do camundongo pai só foi possível porque a equipe asiática ludibriou a natureza: os geneticistas "masculinizaram" parte dos cromossomos recebidos de uma das mães. Para que um ovo (a união de um óvulo com um espermatozóide) se desenvolva direito, determinados genes paternos têm de ser desligados na fecundação, deixando que outros, maternos, atuem livremente. E vice-versa. Foi isso que os geneticistas fizeram: adormeceram alguns genes de um dos óvulos, dando-lhe uma personalidade masculina. Assim, só foi possível criar um novo ser com genes femininos porque uma das mães fez o papel de pai biológico. E era isso que se pretendia estudar. "Na verdade, a pesquisa esclarece definitivamente por que a contribuição masculina é fundamental para o desenvolvimento normal de um embrião", disse a VEJA o pesquisador David Loebel, da Universidade de Sydney, na Austrália, que analisou o trabalho dos coreanos e japoneses e escreveu os comentários publicados na Nature.

De acordo com as teorias de evolução mais aceitas hoje, a lei natural que favorece a reprodução por meio do sexo não deve ser revogada antes de alguns milhões de anos. E, como na espécie humana essa mistura só pode se dar entre machos e fêmeas, a atividade sexual entre homem e mulher com fins reprodutivos continua dentro do prazo de validade. Nem sempre, contudo, o sexo foi necessário. Os primeiros seres vivos do planeta devem ter se multiplicado sem a mistura de genes. Aos poucos, conforme os organismos foram se tornando mais complexos, a monótona reprodução solitária foi sendo substituída pela emocionante aventura do sexo. Ninguém sabe dizer o que determinou essa mudança de rota nem quando, exatamente, ela ocorreu. De fato, a reprodução sexuada é um processo pouco eficiente de gerar crias. Corre-se sempre o risco de a fêmea não topar com nenhum macho fértil. Entre os humanos, a situação é ainda pior. Durante os nove meses de gestação da mulher, são grandes as probabilidades de o embrião se perder. O processo assexuado é muito mais direto. O gameta feminino (óvulo) simplesmente começa a se dividir em duas, quatro, oito células e assim por diante, até formar um ser completo, com todas as partes do corpo: olho, pele, pulmão ou estômago.

Apesar da energia que ela consome e de todos os riscos que implica, a reprodução sexuada tem vantagens em relação à assexuada: as espécies que investem na, digamos, troca genética têm chances muito maiores de sobrevivência. Desde que o inglês Charles Darwin apresentou sua teoria da evolução pela seleção natural, em meados do século XIX, ficou claro que a reprodução assexuada está longe de ser uma boa estratégia nesse sentido. Filhos gerados de óvulos não fecundados nascem parecidos demais com a mãe, em seus pontos fortes e fracos. E é nessas fraquezas que mora o perigo. Deixar de combinar o material genético de dois parceiros significa repetir o manual de instruções de um organismo geração a geração, quase literalmente, numa herança maldita.

Uma população na qual todos os indivíduos respondam da mesma maneira a doenças, por exemplo, está a um passo da extinção. Se a humanidade inteira reagisse da mesma forma ao ataque da bactéria Yersinia pestis, a peste negra que assolou a Europa no século XIV não teria dizimado apenas 25% da população do continente, mas talvez toda ela. Mesmo que tivéssemos sobrevivido a essa pandemia, dificilmente escaparíamos do extermínio num dos surtos de gripe que percorrem o planeta a cada ano. Essa resistência da espécie é possível porque algum ancestral dos mamíferos teve um dia a boa iniciativa de fazer sexo.

Tanto a reprodução sexuada é fundamental que, mesmo entre os animais que fazem uso da partenogênese, essa não costuma ser a única estratégia de reprodução. De tempos em tempos, as emancipadas fêmeas dessas espécies submetem-se ao acasalamento para combinar seus genes aos de um macho. Por essas e outras é que os evolucionistas modernos acreditam que o sexo é a arma mais eficiente para garantir a sobrevivência das espécies. E, convenhamos, também a mais divertida.

 
 
 
 
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