|
|
Ciência
Sem
eles, nem pensar
Alívio
geral: ao contrário do que se disse,
os homens são indispensáveis. Ao menos
na hora de ter filhos

Thereza
Venturoli
AP
 |
| Kaguya,
o pivô da confusão: uma das mães "fingiu"
ser pai |
Há algumas semanas, os homens levaram um susto. Cientistas
japoneses e coreanos apresentaram ao mundo a fêmea de camundongo
Kaguya, o primeiro mamífero nascido apenas de óvulos
ou seja, sem nenhuma participação do espermatozóide.
O feito da equipe asiática parecia colocar os mamíferos
machos a um passo de se tornarem absolutamente dispensáveis.
A conclusão imediata foi tão óbvia quanto dramática:
se é possível combinar o material genético
de duas roedoras para gerar um filhote, o que falta então
para as fêmeas da espécie humana descartarem namorados,
maridos e parceiros? Piadas e bravatas feministas à parte,
a coisa não é bem assim, nem tão simples. O
que a experiência asiática comprovou, na verdade, é
o contrário: o macho é peça fundamental na
reprodução e sobrevivência dos mamíferos.
Ela reforçou, ainda, a idéia de que o ato sexual entre
indivíduos de sexos opostos graças aos céus
não está fadado a se tornar obsoleto de uma
hora para outra.
Toda
a confusão tem origem num termo usado no artigo científico
publicado na revista Nature: partenogênese. Tradicionalmente,
esse é o nome que se dá a um tipo de reprodução
assexuada, no qual uma fêmea gera filhotes a partir de seus
próprios óvulos, sem a contribuição
de um macho. Nesse caso, a prole carrega apenas os genes maternos.
É assim que abelhas, vespas e formigas, por exemplo, mantêm
a população da colônia quando faltam parceiros
do sexo oposto no pedaço. Esse processo reprodutivo
que alguns peixes, répteis e aves também realizam
é bem conhecido dos biólogos. E idéias
de geração da vida a partir de um único ser
fazem parte da história do pensamento desde os tempos mais
remotos. Jesus Cristo, pela tradição cristã,
foi gerado por uma virgem ou seja, seria fruto de uma reprodução
assexuada. O naturalista suíço Charles Bonnet chegou
a afirmar, no século XVIII, que Eva, a personagem bíblica,
carregaria toda a humanidade dentro de seu corpo uma série
de seres humanos prontinhos, encaixados um dentro do outro, como
matrioschkas, aquelas bonecas típicas russas. No entanto,
jamais se verificou entre mamíferos uma emancipação
feminina levada a tais extremos (milagres como o da Virgem Maria
não contam para a ciência contemporânea). Daí
a comoção um tanto apressada causada
pela experiência de coreanos e japoneses.
O
fato é que a partenogênese conseguida em laboratório
por esses cientistas não é igual à que se conhece
na natureza. Kaguya não nasceu de um, mas de dois óvulos,
e é fruto da combinação dos genes de dois indivíduos.
Isso significa que se quebrou a regra do cruzamento entre sexos
opostos, mas a receita genética do camundongo recém-nascido
ainda é fornecida pela combinação de genes.
Ou seja, no fundo, trata-se de uma reprodução sexuada.
Mas será que se pode concluir, com base em tal experiência,
que o macho pode ser substituído por uma fêmea? De
jeito nenhum. Abrir mão do camundongo pai só foi possível
porque a equipe asiática ludibriou a natureza: os geneticistas
"masculinizaram" parte dos cromossomos recebidos de uma das mães.
Para que um ovo (a união de um óvulo com um espermatozóide)
se desenvolva direito, determinados genes paternos têm de
ser desligados na fecundação, deixando que outros,
maternos, atuem livremente. E vice-versa. Foi isso que os geneticistas
fizeram: adormeceram alguns genes de um dos óvulos, dando-lhe
uma personalidade masculina. Assim, só foi possível
criar um novo ser com genes femininos porque uma das mães
fez o papel de pai biológico. E era isso que se pretendia
estudar. "Na verdade, a pesquisa esclarece definitivamente por que
a contribuição masculina é fundamental para
o desenvolvimento normal de um embrião", disse a VEJA o pesquisador
David Loebel, da Universidade de Sydney, na Austrália, que
analisou o trabalho dos coreanos e japoneses e escreveu os comentários
publicados na Nature.
De
acordo com as teorias de evolução mais aceitas hoje,
a lei natural que favorece a reprodução por meio do
sexo não deve ser revogada antes de alguns milhões
de anos. E, como na espécie humana essa mistura só
pode se dar entre machos e fêmeas, a atividade sexual entre
homem e mulher com fins reprodutivos continua dentro do prazo de
validade. Nem sempre, contudo, o sexo foi necessário. Os
primeiros seres vivos do planeta devem ter se multiplicado sem a
mistura de genes. Aos poucos, conforme os organismos foram se tornando
mais complexos, a monótona reprodução solitária
foi sendo substituída pela emocionante aventura do sexo.
Ninguém sabe dizer o que determinou essa mudança de
rota nem quando, exatamente, ela ocorreu. De fato, a reprodução
sexuada é um processo pouco eficiente de gerar crias. Corre-se
sempre o risco de a fêmea não topar com nenhum macho
fértil. Entre os humanos, a situação é
ainda pior. Durante os nove meses de gestação da mulher,
são grandes as probabilidades de o embrião se perder.
O processo assexuado é muito mais direto. O gameta feminino
(óvulo) simplesmente começa a se dividir em duas,
quatro, oito células e assim por diante, até formar
um ser completo, com todas as partes do corpo: olho, pele, pulmão
ou estômago.
Apesar
da energia que ela consome e de todos os riscos que implica, a reprodução
sexuada tem vantagens em relação à assexuada:
as espécies que investem na, digamos, troca genética
têm chances muito maiores de sobrevivência. Desde que
o inglês Charles Darwin apresentou sua teoria da evolução
pela seleção natural, em meados do século XIX,
ficou claro que a reprodução assexuada está
longe de ser uma boa estratégia nesse sentido. Filhos gerados
de óvulos não fecundados nascem parecidos demais com
a mãe, em seus pontos fortes e fracos. E é nessas
fraquezas que mora o perigo. Deixar de combinar o material genético
de dois parceiros significa repetir o manual de instruções
de um organismo geração a geração, quase
literalmente, numa herança maldita.
Uma
população na qual todos os indivíduos respondam
da mesma maneira a doenças, por exemplo, está a um
passo da extinção. Se a humanidade inteira reagisse
da mesma forma ao ataque da bactéria Yersinia pestis,
a peste negra que assolou a Europa no século XIV não
teria dizimado apenas 25% da população do continente,
mas talvez toda ela. Mesmo que tivéssemos sobrevivido a essa
pandemia, dificilmente escaparíamos do extermínio
num dos surtos de gripe que percorrem o planeta a cada ano. Essa
resistência da espécie é possível porque
algum ancestral dos mamíferos teve um dia a boa iniciativa
de fazer sexo.
Tanto
a reprodução sexuada é fundamental que, mesmo
entre os animais que fazem uso da partenogênese, essa não
costuma ser a única estratégia de reprodução.
De tempos em tempos, as emancipadas fêmeas dessas espécies
submetem-se ao acasalamento para combinar seus genes aos de um macho.
Por essas e outras é que os evolucionistas modernos acreditam
que o sexo é a arma mais eficiente para garantir a sobrevivência
das espécies. E, convenhamos, também a mais divertida.
|