|
|
Medicina
Não
é para todos
Para
pacientes de risco cardíaco baixo,
o teste de esforço é inútil e pode dar
resultados equivocados

Paula
Neiva
Da
batelada de exames incluídos num check-up, o teste de esforço
está entre os mais recomendados pelos médicos. Na
tentativa de prever ou identificar problemas coronarianos, quase
ninguém escapa do procedimento durante a avaliação
anual da saúde. Mas boa parte das pessoas que fazem o exame
não precisaria fazê-lo. Isso porque há um consenso
entre os principais centros de saúde de que o eletrocardiograma
de esforço é inútil para quem não apresenta
sintomas nem fatores de risco alto para as doenças cardíacas.
Só num grande laboratório de São Paulo, metade
dos pacientes que levam o coração ao limite da exaustão,
correndo sobre uma esteira ou pedalando uma bicicleta, não
teria indicação para fazer o exame. No Brasil, a prescrição
indiscriminada do teste em clínicas de check-up e laboratórios
tem chamado a atenção dos especialistas e causado
discussões no meio médico. "Para a grande maioria
das pessoas, o teste de esforço pode até ser útil
para avaliar o condicionamento físico, por exemplo. Mas só
serve para fazer diagnóstico em algumas delas", afirma o
médico Otávio Rizzi Coelho, presidente da Sociedade
de Cardiologia de São Paulo e professor da Universidade Estadual
de Campinas.
A
contra-indicação do teste de esforço consta
das últimas diretrizes da U.S. Preventive Services Task Force,
uma força-tarefa composta de especialistas de algumas das
mais respeitadas instituições de saúde dos
Estados Unidos, como a Universidade Columbia e o departamento de
saúde pública do Estado do Colorado. Eles reúnem-se
periodicamente para avaliar a conduta adotada no país quanto
à prevenção de determinadas doenças.
Para esses especialistas, o eletrocardiograma de esforço
em pacientes de risco cardíaco baixo, aqueles com probabilidade
menor do que 10% de ter um infarto nos próximos dez anos,
é totalmente desaconselhável. Não há
nenhuma comprovação científica que justifique
o teste nesses casos. Além disso, os possíveis inconvenientes
decorrentes do exame superam os benefícios. Um deles é
a grande quantidade de resultados falsos positivos. Com base na
revisão de diversos estudos clínicos sobre o tema,
a força-tarefa calcula que 52% das pessoas de baixo risco
cardíaco, que recebem o resultado positivo em testes de esforço,
não têm nenhum problema. Até que se confirme
o resultado, no entanto, o paciente enfrenta o stress da suspeita.
Outro
problema dos laudos equivocados é que, com freqüência,
o paciente é encaminhado para exames mais complexos para
confirmar o diagnóstico, como a cintilografia uma
injeção de líquido radioativo que mapeia possíveis
obstruções nas artérias e o cateterismo,
um método invasivo. Nesse exame mais minucioso, um cateter
é introduzido pela virilha ou pelo braço do paciente
e levado até o coração. Isso permite que o
médico visualize imagens do interior das artérias
e avalie como está a saúde dos vasos. Por fim, exames
desnecessários têm ainda um custo alto para o sistema
de saúde.
|
Esforço
desnecessário
Apenas
um grande laboratório de São Paulo faz
1 200 testes de esforço por mês. Metade
é para check-up
Os
resultados são falsos positivos em cerca de 52%
dos pacientes com risco cardíaco baixo
Os
laudos equivocados fazem com que, muitas vezes, os pacientes
sejam encaminhados para exames invasivos, como o cateterismo
Fontes:
U.S. Preventive Services Task Force,
Carlos Marcello e Otávio Rizzi Coelho, cardiologistas
|
|
|