Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Cidades
O dono de Moscou

Prefeito russo usa cargo para enriquecer a
esposa – proprietária de uma empreiteira


Diogo Schelp

AP
Iuri Luskov: 400 prédios históricos destruídos em doze anos de prefeitura


Moscou, que uma década atrás não tinha ricos, hoje é a cidade com maior número de bilionários. São 33, contra os 31 que vivem em Nova York, segundo lista elaborada pela versão russa da revista americana Forbes. A única mulher da lista é Elena Baturina, de 41 anos, com 1,1 bilhão de dólares. A riqueza foi acumulada graças aos bons serviços que sua empreiteira, a Inteko, presta à prefeitura moscovita. Ou, talvez se deva dizer, a fortuna é a decorrência natural do fato de o marido de Elena, Iuri Luskov, ser o prefeito de Moscou há doze anos e lhe entregar as melhores obras municipais. Ela fundou a Inteko um ano antes de Luskov ser eleito, em 1992. Em 1995, ele mandou renovar o maior estádio esportivo da cidade. A Inteko foi contratada para fornecer os bancos de plástico da arquibancada. No ano passado, metade da área construída em Moscou foi feita pelas empresas de Elena. Em fevereiro deste ano, o teto de um parque de diversões que pertencia à Inteko desabou, matando 36 pessoas.

Um dos políticos mais importantes da Rússia, Luskov administra a cidade como se fosse sua propriedade particular. Graças à herança do comunismo, a prefeitura é dona da maior parte da rede hoteleira e tem sociedade em lojas e restaurantes, inclusive 20% das lanchonetes McDonald's. Também é proprietária dos principais imóveis da cidade. Nas mãos de Luskov, esse patrimônio tornou-se uma verdadeira mina de ouro. A pretexto de que os edifícios ameaçam desabar, o prefeito toca um curioso projeto arquitetônico. Consiste em destruir o prédio e reconstruir no lugar uma réplica. Desde que assumiu o cargo, Luskov também autorizou a demolição de 400 prédios de reconhecido valor arquitetônico, quarenta deles tombados pelo patrimônio histórico, no lugar dos quais foram erguidos empreendimentos comerciais.

Reuters
Elena Baturina: contratos casados


Em sete décadas de comunismo, foram destruídos 2.000 exemplares da rica arquitetura moscovita, principalmente igrejas, substituídas pelas cinzentas e megalomaníacas construções soviéticas. Luskov não fez diferente. Em sua administração, um complexo de igrejas do século XVII, que havia sobrevivido à era comunista, foi demolido e substituído por um centro de negócios. Em março, um incêndio misterioso destruiu um prédio vizinho ao Kremlin, cuja demolição tinha sido proibida pelo Ministério da Cultura. O presidente Vladimir Putin aproveitou o episódio para iniciar uma campanha pela renúncia de Luskov. O amontoado de escândalos não abala a popularidade do prefeito, que recebeu 70% dos votos nas últimas eleições municipais e tem mandato até 2007. "A corrupção é tão disseminada na Rússia que os eleitores partem do princípio de que todos os políticos são desonestos", disse a VEJA o especialista em economia e política russas Marshall Goldman, professor da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. "E, como os moscovitas acreditam que Luskov é o responsável pelo fato de Moscou ser a cidade mais desenvolvida do país, eles o apóiam sempre."

 
 
 
 
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