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Arábia
Saudita
A
vida atrás do véu
Na
Arábia Saudita, quase tudo é proibido
às mulheres e até as agressões são toleradas
Fotos AFP
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FP
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| Rania
Al-Baz, antes e depois da surra que levou do marido: quebrando
o silêncio para denunciar |
Na
semana passada, uma mulher dirigindo um carro numa área desértica
da Arábia Saudita trombou com outro veículo e morreu.
Em qualquer sociedade de hábitos civilizados, o acidente
se perderia nas estatísticas sobre o trânsito. No reino
comandado pelo príncipe Abdullah, o maior produtor de petróleo
do mundo, virou manchete de jornal. Motivo: as mulheres são
proibidas por lei de dirigir. O episódio voltou a chamar
a atenção para a difícil situação
das mulheres na Arábia Saudita, uma monarquia regida pelo
código medieval de uma seita puritana do Islã. Além
de proibidas de dirigir, as sauditas devem andar com o corpo totalmente
coberto e não podem sair de casa sem a companhia de um parente
do sexo masculino. Homens e mulheres são impedidos de trabalhar
juntos, exceto nos hospitais. A polícia religiosa está
atenta ao mínimo deslize em público o que pelo
menos numa ocasião teve resultados trágicos. Há
dois anos, durante um incêndio numa escola feminina, os policiais
impediram que as alunas deixassem o prédio em chamas por
estarem sem o véu. Quinze adolescentes morreram carbonizadas.
Como
devem obediência absoluta ao marido, as mulheres se calam
quando são espancadas por eles. Em raras vezes as agressões
são denunciadas. Numa delas, há poucas semanas, Rania
Al-Baz, de 29 anos, apresentadora de um noticiário de TV
e figura popular no país, veio a público revelar que
fora surrada pelo cônjuge, um cantor desempregado. Depois
da sova, ele deixou Rania na porta de um hospital dizendo que ela
havia sofrido um acidente de automóvel e estava morta. O
caso comoveu setores da sociedade saudita e chamou a atenção
da imprensa internacional quando Rania autorizou a publicação
de fotos com seu rosto desfigurado. O mais surpreendente foi que
a imprensa saudita publicou as imagens. "Fiz a denúncia porque
queria que as mulheres soubessem que elas têm direitos sob
a sharia (lei islâmica), que as protege da violência
doméstica", disse Rania. Duas semanas depois, o marido agressor
foi preso.
Embora
tímida, a divulgação de casos como esses pelos
jornais sauditas mostra que há uma pressão no país
para que sejam concedidos mais direitos às mulheres. E até
que elas possam dirigir num futuro próximo. Originalmente
a proibição era apenas uma tradição
tribal. Virou lei depois que 47 mulheres da elite saudita sentaram-se
ao volante, em aberto desafio às autoridades religiosas,
e levaram o marido para passear, em 1990. Agora, vários jornais
argumentaram que é melhor permitir que elas dirijam, pois
é caro manter motoristas só para levá-las.
Mas o influente al-Watan seguiu outra linha de raciocínio:
na opinião do jornal, as mulheres causam acidentes até
no banco de trás, pois perturbam o motorista com palpites.
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