|
|
Estados
Unidos
"Bush
nos humilhou
diante do mundo"
Em
um discurso histórico, Al Gore diz
que o presidente é o mais desonesto
desde Richard Nixon

José
Eduardo Barella
Reuters
 |
AFP
 |
| Al
Gore: presidente opta pela ideologia em detrimento da realidade.
À direita, Bush com o rosto marcado pela queda da bicicleta
|
Em
tempos mais felizes e prósperos, quando os americanos se
ocupavam em bisbilhotar travessuras sexuais na Casa Branca, os humoristas
divertiam-se com piadas a respeito de Al Gore, o vice-presidente
de Bill Clinton. Como se sabe, Gore venceu as eleições
presidenciais de 2000 com 300.000 votos
a mais que George W. Bush, mas acabou derrotado pela peculiar aritmética
do colégio eleitoral. Os tempos são outros, sombrios,
e é hora de dispensar as piadas e ouvir o que Gore tem a
dizer. Na semana passada, ele voltou aos holofotes para expressar
de forma extraordinária e sem meias palavras a angústia
de seus concidadãos aquela que nasce da impressão
de que a invasão do Iraque é a guerra errada. Uma
distração desastrosa da missão mais urgente,
que é a de derrotar os terroristas da Al Qaeda. Gore avalia
o conflito no Oriente Médio como "o pior fiasco estratégico
na história" e afirma que Bush humilhou o país aos
olhos do mundo. Para ele, o conflito não apenas isolou os
Estados Unidos de seus aliados como também tornou o país
mais, e não menos, vulnerável ao terror. No discurso
"proferido com o tipo de paixão que raramente se vê
nos políticos atualmente", nas palavras do colunista Bob
Herbert, do New York Times , Gore qualificou Bush como
incompetente e o mais desonesto presidente desde Richard Nixon,
e disse que sua política colocou a nação em
perigo.
Só
se pode especular sobre como seria o mundo se Gore estivesse sentado
hoje na cadeira de presidente. É razoável imaginar
que o democrata seria, no mínimo, imune aos pensadores neoconservadores
que fazem a cabeça de Bush. É deles a filosofia de
que os Estados Unidos devem usar o poder militar para expandir os
"valores americanos", mesmo que para isso seja necessário
ignorar os países aliados, os tratados e as organizações
internacionais. Como escreveu o inglês Timothy Garton Ash,
a invasão do Iraque foi uma resposta característica
desse grupo à percepção geral, criada pelos
atentados de 11 de setembro, de que os Estados Unidos estavam em
guerra. Decisivo foi o instinto do presidente de responder a tal
agressão indo em frente e chutando alguns traseiros. Qual
traseiro seria, nesse sentido, foi secundário. O perverso
Saddam era o mais óbvio, persistente e provocativo. Na visão
de Gore, a essência do problema atual está na preferência
pela ideologia em detrimento da realidade. Foi essa opção,
diz, que transformou os Estados Unidos num país mais belicoso,
mais brutal, menos livre, mais injusto e menos admirável
como nação do que aquele que existia antes de Bush
assumir a Presidência em 2001.
Bush,
que aposta sua reeleição no sucesso da intervenção
militar no Iraque, começa a ver o chão sumir sob seus
pés. Uma pesquisa da rede de TV CBS mostrou que 61% dos entrevistados
rejeitam sua política para o Iraque. No total, apenas 41%
dos americanos aprovam seu governo o pior índice desde
a posse. Há um ano, 75% apoiavam o presidente. Se a eleição
fosse hoje, o candidato democrata John Kerry teria 47% dos votos.
Bush, 41%. Num discurso à nação na semana passada,
sua primeira investida para recuperar a iniciativa política
depois do escândalo das torturas de prisioneiros em Bagdá,
o presidente comparou as dificuldades de implantar a democracia
no Iraque às de aprender a andar de bicicleta. Numa coincidência
perversa, o próprio presidente tinha visíveis ferimentos
no queixo, no nariz e na mão direita, resultado de uma queda
de bicicleta no fim de semana. Ele prometeu demolir a prisão
de Abu Ghraib, como se a destruição do local pudesse
apagar o estrago causado pela humilhação imposta aos
detentos iraquianos pelos soldados americanos. Bush não acertou
uma vez sequer a pronúncia correta do nome da cadeia nas
três vezes em que ela foi citada. Como acreditar na liderança
de um presidente que não consegue repetir um nome que está
se tornando o símbolo da derrocada de seu governo?
Até
os figurões do Partido Republicano estão confusos
com o processo de decisão que levou à guerra. Uma
questão que intriga é como o exilado iraquiano Ahmed
Chalabi se tornou tão influente na Casa Branca. Antes o favorito
dos neoconservadores para ocupar o lugar de Saddam, Chalabi é
agora acusado de ter passado informações falsas sobre
as armas de destruição em massa e de espionar para
o Irã. Na semana passada, o republicano Pat Roberts, presidente
do Comitê de Inteligência do Senado, pôs o dedo
na ferida. Em seu entender, o país precisa refrear seus "instintos
messiânicos" e parar de se meter em "engenharia social" para
promover a democracia no mundo. Bush prometia uma nova era no Oriente
Médio baseada, em boa medida, na transformação
do Iraque numa vitrine das virtudes da democracia e da economia
de mercado. O Iraque libertado está cada vez mais parecido
com o pesadelo que a invasão pretendia evitar. Os xiitas,
que eram oprimidos por Saddam Hussein, pegaram em armas contra seus
libertadores. Os americanos são flagrados torturando iraquianos
na mesma prisão em que Saddam torturava iraquianos. O exemplo
do país ocupado não inspira idéias de democracia
e prosperidade nos países árabes. Ao contrário,
facilita o recrutamento de terroristas islâmicos. Bush e seu
aliado nessa empreitada, o primeiro-ministro inglês Tony Blair,
vivem dizendo que não vão sair às pressas do
Iraque. Mas tudo o que estão fazendo agora é procurar
uma saída.
|
A
reengenharia da Al Qaeda
AFP
 |
| Vigilância
em Nova York: novo alerta de atentado |
O
serviço de inteligência americano não
sabe quando, onde ou com que métodos os terroristas
da Al Qaeda vão atacar. A única certeza
é que a organização pretende realizar
um grande atentado na costa leste dos Estados Unidos
neste verão, estação que começa
no próximo mês no Hemisfério Norte
exatamente quando a região estará
repleta de turistas. O atentado deve ser, na expressão
dos policiais, o mais devastador desde que a rede terrorista
de Osama bin Laden pôs abaixo as torres gêmeas
do World Trade Center, em Nova York, e uma ala inteira
do Pentágono, em Washington. O anúncio
é vago, mas o governo americano não quer
ser acusado de não ter advertido os cidadãos
sobre os riscos potenciais. Se os Estados Unidos estão
ou não preparados para esse ataque, é
uma questão em discussão. O fato é
que, quase três anos depois do início da
guerra ao terror, a Al Qaeda continua poderosa o suficiente
para atacar dentro dos Estados Unidos.
Um relatório sobre o assunto divulgado na semana
passada pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos
(IIEE), um celebrado centro de pesquisas com sede em
Londres, diz que a guerra no Iraque deu novo fôlego
à organização de Bin Laden. Nos
cálculos do IIEE, baseados em informações
fornecidas por vários serviços de inteligência,
a rede terrorista tem células em pelo menos sessenta
países. "No mínimo 20 000 pessoas passaram
pelos campos de treinamento no Afeganistão desde
1996 e pelo menos 18 000 delas continuam em liberdade",
diz John Chapman, diretor do IIEE. "Ao mesmo tempo,
o rancor causado nos países árabes pela
guerra no Iraque acelerou o recrutamento de novos militantes."
O ataque americano que derrubou o regime talibã
no Afeganistão resultou na morte ou aprisionamento
de um terço da liderança da Al Qaeda.
A organização perdeu sua base operacional
e os campos de treinamento militar que mantinha no país.
Para sobreviver, a rede mudou sua estratégia.
Em lugar de uma hierarquia vertical, comandada por Bin
Laden, surgiu uma segunda geração de terroristas
organizada em células autônomas. Elas continuam
subordinadas à Al Qaeda, mas têm autonomia
para planejar e executar atentados.
A maioria dos ataques ocorridos nos últimos dois
anos e meio, que deixaram mais de 1 200 mortos, foi
organizada por grupos fundamentalistas locais. Os recursos
vêm de doações feitas pela comunidade
islâmica ou da exploração de atividades
ilegais, como lavagem de dinheiro, tráfico de
armas ou de drogas. Por serem pequenas, essas células
são mais difíceis de ser identificadas
pelos serviços de inteligência. O IIEE
diz que a Al Qaeda não infiltrou mais de 1 000
terroristas no Iraque, apesar de ter se aproveitado
da guerra para aumentar o número de recrutas
em suas fileiras. Desde novembro do ano passado, as
forças americanas no Iraque detiveram apenas
250 estrangeiros, dos quais somente dezenove foram identificados
como "possíveis" membros da rede terrorista de
Bin Laden.
|
|
|