Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Estados Unidos
"Bush nos humilhou
diante do mundo"

Em um discurso histórico, Al Gore diz
que o presidente é o mais desonesto
desde Richard Nixon


José Eduardo Barella


Reuters
AFP
Al Gore: presidente opta pela ideologia em detrimento da realidade. À direita, Bush com o rosto marcado pela queda da bicicleta

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Pós-guerra no Iraque

Em tempos mais felizes e prósperos, quando os americanos se ocupavam em bisbilhotar travessuras sexuais na Casa Branca, os humoristas divertiam-se com piadas a respeito de Al Gore, o vice-presidente de Bill Clinton. Como se sabe, Gore venceu as eleições presidenciais de 2000 com 300.000 votos a mais que George W. Bush, mas acabou derrotado pela peculiar aritmética do colégio eleitoral. Os tempos são outros, sombrios, e é hora de dispensar as piadas e ouvir o que Gore tem a dizer. Na semana passada, ele voltou aos holofotes para expressar de forma extraordinária e sem meias palavras a angústia de seus concidadãos – aquela que nasce da impressão de que a invasão do Iraque é a guerra errada. Uma distração desastrosa da missão mais urgente, que é a de derrotar os terroristas da Al Qaeda. Gore avalia o conflito no Oriente Médio como "o pior fiasco estratégico na história" e afirma que Bush humilhou o país aos olhos do mundo. Para ele, o conflito não apenas isolou os Estados Unidos de seus aliados como também tornou o país mais, e não menos, vulnerável ao terror. No discurso – "proferido com o tipo de paixão que raramente se vê nos políticos atualmente", nas palavras do colunista Bob Herbert, do New York Times –, Gore qualificou Bush como incompetente e o mais desonesto presidente desde Richard Nixon, e disse que sua política colocou a nação em perigo.

Só se pode especular sobre como seria o mundo se Gore estivesse sentado hoje na cadeira de presidente. É razoável imaginar que o democrata seria, no mínimo, imune aos pensadores neoconservadores que fazem a cabeça de Bush. É deles a filosofia de que os Estados Unidos devem usar o poder militar para expandir os "valores americanos", mesmo que para isso seja necessário ignorar os países aliados, os tratados e as organizações internacionais. Como escreveu o inglês Timothy Garton Ash, a invasão do Iraque foi uma resposta característica desse grupo à percepção geral, criada pelos atentados de 11 de setembro, de que os Estados Unidos estavam em guerra. Decisivo foi o instinto do presidente de responder a tal agressão indo em frente e chutando alguns traseiros. Qual traseiro seria, nesse sentido, foi secundário. O perverso Saddam era o mais óbvio, persistente e provocativo. Na visão de Gore, a essência do problema atual está na preferência pela ideologia em detrimento da realidade. Foi essa opção, diz, que transformou os Estados Unidos num país mais belicoso, mais brutal, menos livre, mais injusto e menos admirável como nação do que aquele que existia antes de Bush assumir a Presidência em 2001.

Bush, que aposta sua reeleição no sucesso da intervenção militar no Iraque, começa a ver o chão sumir sob seus pés. Uma pesquisa da rede de TV CBS mostrou que 61% dos entrevistados rejeitam sua política para o Iraque. No total, apenas 41% dos americanos aprovam seu governo – o pior índice desde a posse. Há um ano, 75% apoiavam o presidente. Se a eleição fosse hoje, o candidato democrata John Kerry teria 47% dos votos. Bush, 41%. Num discurso à nação na semana passada, sua primeira investida para recuperar a iniciativa política depois do escândalo das torturas de prisioneiros em Bagdá, o presidente comparou as dificuldades de implantar a democracia no Iraque às de aprender a andar de bicicleta. Numa coincidência perversa, o próprio presidente tinha visíveis ferimentos no queixo, no nariz e na mão direita, resultado de uma queda de bicicleta no fim de semana. Ele prometeu demolir a prisão de Abu Ghraib, como se a destruição do local pudesse apagar o estrago causado pela humilhação imposta aos detentos iraquianos pelos soldados americanos. Bush não acertou uma vez sequer a pronúncia correta do nome da cadeia nas três vezes em que ela foi citada. Como acreditar na liderança de um presidente que não consegue repetir um nome que está se tornando o símbolo da derrocada de seu governo?

Até os figurões do Partido Republicano estão confusos com o processo de decisão que levou à guerra. Uma questão que intriga é como o exilado iraquiano Ahmed Chalabi se tornou tão influente na Casa Branca. Antes o favorito dos neoconservadores para ocupar o lugar de Saddam, Chalabi é agora acusado de ter passado informações falsas sobre as armas de destruição em massa e de espionar para o Irã. Na semana passada, o republicano Pat Roberts, presidente do Comitê de Inteligência do Senado, pôs o dedo na ferida. Em seu entender, o país precisa refrear seus "instintos messiânicos" e parar de se meter em "engenharia social" para promover a democracia no mundo. Bush prometia uma nova era no Oriente Médio baseada, em boa medida, na transformação do Iraque numa vitrine das virtudes da democracia e da economia de mercado. O Iraque libertado está cada vez mais parecido com o pesadelo que a invasão pretendia evitar. Os xiitas, que eram oprimidos por Saddam Hussein, pegaram em armas contra seus libertadores. Os americanos são flagrados torturando iraquianos na mesma prisão em que Saddam torturava iraquianos. O exemplo do país ocupado não inspira idéias de democracia e prosperidade nos países árabes. Ao contrário, facilita o recrutamento de terroristas islâmicos. Bush e seu aliado nessa empreitada, o primeiro-ministro inglês Tony Blair, vivem dizendo que não vão sair às pressas do Iraque. Mas tudo o que estão fazendo agora é procurar uma saída.

 

A reengenharia da Al Qaeda


AFP
Vigilância em Nova York: novo alerta de atentado

O serviço de inteligência americano não sabe quando, onde ou com que métodos os terroristas da Al Qaeda vão atacar. A única certeza é que a organização pretende realizar um grande atentado na costa leste dos Estados Unidos neste verão, estação que começa no próximo mês no Hemisfério Norte – exatamente quando a região estará repleta de turistas. O atentado deve ser, na expressão dos policiais, o mais devastador desde que a rede terrorista de Osama bin Laden pôs abaixo as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e uma ala inteira do Pentágono, em Washington. O anúncio é vago, mas o governo americano não quer ser acusado de não ter advertido os cidadãos sobre os riscos potenciais. Se os Estados Unidos estão ou não preparados para esse ataque, é uma questão em discussão. O fato é que, quase três anos depois do início da guerra ao terror, a Al Qaeda continua poderosa o suficiente para atacar dentro dos Estados Unidos.

Um relatório sobre o assunto divulgado na semana passada pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IIEE), um celebrado centro de pesquisas com sede em Londres, diz que a guerra no Iraque deu novo fôlego à organização de Bin Laden. Nos cálculos do IIEE, baseados em informações fornecidas por vários serviços de inteligência, a rede terrorista tem células em pelo menos sessenta países. "No mínimo 20 000 pessoas passaram pelos campos de treinamento no Afeganistão desde 1996 e pelo menos 18 000 delas continuam em liberdade", diz John Chapman, diretor do IIEE. "Ao mesmo tempo, o rancor causado nos países árabes pela guerra no Iraque acelerou o recrutamento de novos militantes." O ataque americano que derrubou o regime talibã no Afeganistão resultou na morte ou aprisionamento de um terço da liderança da Al Qaeda. A organização perdeu sua base operacional e os campos de treinamento militar que mantinha no país. Para sobreviver, a rede mudou sua estratégia. Em lugar de uma hierarquia vertical, comandada por Bin Laden, surgiu uma segunda geração de terroristas organizada em células autônomas. Elas continuam subordinadas à Al Qaeda, mas têm autonomia para planejar e executar atentados.

A maioria dos ataques ocorridos nos últimos dois anos e meio, que deixaram mais de 1 200 mortos, foi organizada por grupos fundamentalistas locais. Os recursos vêm de doações feitas pela comunidade islâmica ou da exploração de atividades ilegais, como lavagem de dinheiro, tráfico de armas ou de drogas. Por serem pequenas, essas células são mais difíceis de ser identificadas pelos serviços de inteligência. O IIEE diz que a Al Qaeda não infiltrou mais de 1 000 terroristas no Iraque, apesar de ter se aproveitado da guerra para aumentar o número de recrutas em suas fileiras. Desde novembro do ano passado, as forças americanas no Iraque detiveram apenas 250 estrangeiros, dos quais somente dezenove foram identificados como "possíveis" membros da rede terrorista de Bin Laden.

 
 
 
 
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