Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Brasil
A eleição que o PT
não pode perder

O pleito municipal de outubro ganhou
uma cara de plebiscito do governo Lula
e vencer é a ordem do Planalto


Leandra Peres

É natural que o PT atribua importância decisiva à eleição municipal em São Paulo, onde a prefeita Marta Suplicy é candidata ao segundo mandato. Afinal, a prefeitura paulistana tem o sexto maior orçamento do país e seu eleitorado é tão numeroso que se equipara ao de Estados como o Rio Grande do Sul, além do fato de sua região metropolitana ter sido o berço político do petismo. A prioridade dada à disputa em São Paulo, porém, tem se mostrado um erro estratégico do PT, pois está ofuscando o desempenho geral do partido nas outras capitais. Faltando quatro meses para o pleito municipal, o PT até que está numa situação bastante razoável em várias metrópoles. Hoje, os petistas comandam as prefeituras de oito capitais – sete foram conquistadas nas urnas e uma, a de Macapá, entrou na cota do partido quando o prefeito eleito trocou o PSB pelo PT. Conforme as pesquisas mais recentes, os petistas têm chances reais de vencer em praticamente todas as prefeituras que administram. O quadro mais confortável neste momento é o de Aracaju, capital de Sergipe, onde o prefeito Marcelo Déda tem 43% das intenções de voto. Em Porto Alegre, reduto petista há mais de quinze anos, a situação também parece tranqüila: o deputado Raul Pont tem 25% da preferência do eleitor, o dobro do segundo colocado.

No triângulo geográfico mais expressivo do país em termos políticos e econômicos, o PT só parece definitivamente fora da disputa no Rio de Janeiro, onde Jorge Bittar, seja qual for o elenco de adversários, não chega aos dois dígitos na preferência do eleitor carioca. Em São Paulo, com 20%, Marta Suplicy está em segundo lugar, ao lado do ex-prefeito Paulo Maluf e atrás do líder José Serra, que tem 26% das intenções de voto. O problema de Marta é seu altíssimo índice de rejeição, que passa dos 40%. Em Belo Horizonte, o petista Fernando Pimentel, atual prefeito da capital mineira, encontra-se em matéria de intenção de votos num patamar igual ao da prefeita paulistana. Pimentel tem 20% das decisões de voto, está empatado com o tucano Eduardo Azeredo na segunda posição e patina atrás do líder João Leite, do PSB. Nem Marta Suplicy nem Fernando Pimentel, no entanto, podem ser considerados cartas fora do baralho. "Estamos num bom patamar considerando que ainda é o começo da campanha", avalia o presidente nacional do PT, o ex-deputado José Genoíno. Além das capitais que já administram hoje em dia, os petistas ainda vão bem em Curitiba, onde seu candidato, Ângelo Vanhoni, ocupa o primeiro lugar, com 28% dos votos, estando 7 pontos à frente do segundo colocado, o tucano Beto Richa.

Historicamente, o desempenho do governo em Brasília tem uma influência reduzida nos pleitos municipais, nos quais o eleitor parece dar mais atenção aos seus problemas cotidianos do que aos grandes temas nacionais. Os tucanos, por exemplo, ganharam dois mandatos presidenciais, ambos com vitórias já no primeiro turno, mas esse bom desempenho no plano federal jamais se reproduziu em vitórias na prefeitura das capitais. Em 1996, na primeira eleição municipal que enfrentou depois de vencer a disputa presidencial, o PSDB comandava cinco prefeituras de capitais, todas em Estados periféricos, e saiu das urnas um pouco menor, com apenas quatro capitais. No pleito seguinte, em 2000, os tucanos mantiveram-se no comando de quatro prefeituras, nenhuma delas, de novo, instalada nos grandes centros do país. A diferença entre PT e PSDB é que o forte dos tucanos sempre foi a disputa pelos governos estaduais, enquanto os petistas historicamente apresentam desempenho mais vistoso nos pleitos municipais. Tanto que o PSDB está no terceiro mandato no governo de São Paulo e jamais comandou a prefeitura da capital, enquanto o PT nunca foi governo do Estado e, agora, tenta o terceiro mandato na cidade.

Mesmo sem dar o tom da disputa nas cidades, ser governo em Brasília ajuda a ampliar a força eleitoral do partido governante nas prefeituras do interior, nas pequenas e médias cidades. O fenômeno aconteceu com o PSDB, que antes de chegar ao Palácio do Planalto tinha menos de 300 prefeituras no país e, logo na primeira disputa municipal, saltou para perto de 1.000 cidades. O caso deve se repetir com o PT, por diversas razões. Primeiro, porque o partido comanda menos de 200 prefeituras no país, um número ainda tão baixo que é mais fácil aumentar do que cair. Segundo, porque os dirigentes petistas se empenharam em capilarizar a estrutura partidária pelo território nacional. Na última eleição, o PT tinha diretórios em menos de 3.000 cidades brasileiras. Agora, já está presente em mais de 5.000. Além disso, uma campanha nacional fez mais 400.000 filiados, uma massa que estará agora participando de sua primeira campanha eleitoral como petista de carteirinha. Por fim, o PT também aumentou o número de candidatos a prefeito, ampliando suas chances de vitória. Na eleição passada, eram 1.300. Agora, o partido estima que serão perto de 2.500.

A eleição de outubro próximo é uma etapa crucial na biografia do PT. "O desafio do partido é confirmar agora o bom desempenho que teve na última eleição, em 2002", diz Mauro Paulino, diretor do instituto Datafolha. No último pleito, pela primeira vez em sua história o PT elegeu o presidente da República e fez a maior bancada na Câmara dos Deputados, abrindo um espaço nobre na política nacional. Agora, para consolidar-se como uma legenda forte, terá de ampliar o número de prefeituras municipais no país e passar a interiorizar seu eleitorado – um fenômeno que começou a acontecer com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, contrariando todas as suas outras disputas presidenciais, desta vez teve votações expressivas em cidades do interior. O desafio seguinte será em 2006, quando os petistas tentarão manter o governo federal e ampliar sua presença nos governos estaduais. Nesse campo, o PT tem um desempenho inexpressivo. Hoje, governa só Mato Grosso do Sul, Acre e Piauí, além de Roraima, cujo governador pediu suspensão do partido depois de se enrolar num escândalo com a contratação de funcionários-fantasma.

 
Montagem com fotos de José Paulo Lacerda/AE, Heitor Cunha, Claudio Rossi e Joedson Alves/AE
Da esquerda para a direita:

MARCELO DÉDA
(Aracaju)
Tem 29 pontos de vantagem em relação ao segundo colocado

RAUL PONT
(Porto Alegre)
Lidera com 25% dos votos, o dobro do seu adversário

ÂNGELO VANHONI
(Curitiba)
Está 7 pontos à frente do segundo colocado

JOÃO PAULO
(Recife)
Empata com os candidatos do PTB e do PMDB

MARTA SUPLICY
(São Paulo)
Empata com Maluf, mas está 6 pontos atrás de José Serra

FERNANDO PIMENTEL
(Belo Horizonte)
Com 20% dos votos, está empatado em segundo e mais de 10 pontos atrás do líder

PEDRO WILSON
(Goiânia)
Está em terceiro lugar, 6 pontos atrás do líder

NELSON PELLEGRINO
(Salvador)
Em terceiro, perde para os candidatos do PDT e do PFL

JORGE BITTAR
(Rio de Janeiro)
Não passa de 4% na intenção de votos

 

 
 
 
 
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