Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Reforma agrária
O MST ataca o Brasil
que dá certo

Invasões de fazendas produtivas
assustam investidores e atrapalham
a geração de novos empregos no país


João Gabriel de Lima

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Reforma agrária

As invasões de terras produtivas começam a provocar danos concretos no chamado "Brasil que dá certo" – o agronegócio. Na semana passada, a empresa canadense Brascan anunciou a intenção de cortar 50 milhões de dólares em seus investimentos no Brasil. O motivo: no dia 29 de abril, integrantes de duas facções de sem-terra – o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg) – invadiram a Fazenda Pirapitinga, em Canápolis (MG), pertencente à empresa. Lá, além de gado para corte – 16.000 cabeças –, a Brascan mantém culturas paralelas de sorgo, milho, abacaxi, arroz, soja e cana-de-açúcar. Enquanto aguardava a reintegração de posse, que até a sexta-feira não havia sido efetivada, a empresa mostrava desânimo em investir no Brasil. "Lá na matriz, no Canadá, quando eu falo em novos investimentos, eles me perguntam: 'Mas não invadiram nossa fazenda duas vezes? Como é que você pode garantir que não invadirão uma terceira ou uma quarta?' ", disse Marcelo Marinho, presidente da Brascan Brasil – a empresa, que atua em vários setores, está há 105 anos no país. Se outros investidores seguirem o exemplo, pode ser um golpe duro para a agroindústria brasileira, um dos setores que mais geram postos de trabalho num país que enfrenta uma dramática onda de desemprego. Estima-se que a área seja responsável por 38% do produto interno bruto, quando se consideram as atividades econômicas direta e indiretamente emuladas pelo campo. Na estatística de crescimento do PIB divulgada na semana passada, a agropecuária deu a maior contribuição, com 3,3% no primeiro trimestre.

O governo federal tem sua parcela de culpa no fenômeno. Em tese, ele condena as invasões. Alguns de seus integrantes, no entanto, como o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, defendem o modelo agrícola preconizado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), de substituição do agronegócio pela chamada "agricultura familiar". "Existe no Brasil a falsa idéia de que o latifúndio monocultor é moderno e gera emprego", declarou o ministro num discurso na semana passada. Graças a essas sinalizações confusas, há muito tempo não se invadia tanta terra quanto agora. Nos primeiros quatro meses de 2004 houve mais ações do que no ano inteiro de 2002, o último do mandato de Fernando Henrique Cardoso. De acordo com levantamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário divulgado na semana passada, existem 71 entidades do gênero agindo no país. Nunca foram tantas nem apareceram tanto no noticiário. E não se limitam mais a invadir terras improdutivas, mesmo porque o Brasil não as tem mais. No entendimento opaco desses militantes da agitação rural, vale invadir qualquer lugar que não esteja produzindo "comida para o povo".

O MST, a maior e mais conhecida das agremiações, definiu um foco: o setor de papel e celulose. Três áreas de reflorestamento foram invadidas recentemente. A primeira empresa atingida foi a Veracel, em 4 de abril. A Veracel, com 50% de capital brasileiro e 50% sueco-finlandês, acaba de investir 900 milhões de dólares na construção de uma fábrica no sul da Bahia, a qual deverá gerar 10.000 empregos diretos e indiretos. "O fato repercutiu bastante na Europa, e nossos sócios nos questionaram sobre a conveniência de investir no Brasil. Decidimos manter nossos planos porque confiamos nas instituições do país", disse Antonio Alipio, diretor florestal da Veracel. Em 17 de abril o movimento atacou em São Cristóvão do Sul, Santa Catarina, onde a Klabin mantém uma plantação de pinheiros. Só nesse Estado, a Klabin, empresa brasileira com 105 anos de atuação, gera 4 300 empregos diretos e 12 000 indiretos. "Em princípio, não pensamos em cortar investimentos, mas é o caso de ver qual a ação futura do governo, que em última análise é o responsável pela manutenção do estado de direito", informa Wilberto Lima Junior, diretor de assuntos corporativos da Klabin. Na semana retrasada, em 16 de maio, chegou a vez da Fazenda Una, pertencente à Votorantim Celulose e Papel. A empresa oferece 8 000 empregos diretos e mais de 20 000 indiretos. Estima-se que o setor de papel e celulose – que provavelmente faz parte daquele grupo que o ministro Rossetto chama de "latifúndio improdutivo que não gera empregos" – proporcione mais de 100.000 postos de trabalho no país.

A área de papel e celulose é responsável pela entrada de 2,3 bilhões de dólares em divisas por ano. A maior parte da celulose exportada pelo país vem do eucalipto, graças a uma tecnologia desenvolvida aqui. Por fatores ambientais e técnicos, os eucaliptos brasileiros levam sete anos para amadurecer, contra onze anos no resto do mundo, o que torna o país extremamente competitivo. O Brasil produz 5,3 milhões de toneladas de eucalipto para fabricação de papel por ano, o que é mais da metade da produção mundial. É um setor que cresce sem parar. Só a Votorantim Celulose e Papel dobrou de tamanho nos últimos dois anos. Embora não tenham uma justificativa articulada para as invasões, os militantes do MST costumam defendê-las apelando para o discurso ecológico e o da geração de empregos. Por trás dessa cantilena está o verdadeiro dilema da agremiação e de movimentos congêneres: a dificuldade de encontrar novas terras agricultáveis para a reforma agrária. "A rigor, o chamado latifúndio improdutivo praticamente não existe mais", diz o professor Francisco Graziano, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, ex-presidente do Incra, antigo simpatizante do MST e hoje um crítico dos métodos do movimento. "As terras boas para a agricultura ou já foram para a reforma agrária ou se tornaram produtivas", informa ele, que estima, a partir de dados do IBGE, que apenas 2% das terras próprias para a atividade agrícola não estejam sendo utilizadas. Na ausência de terras, o MST avança sobre os reflorestamentos. Investe também numa estratégia de desqualificação do agronegócio. A revista Sem Terra, um dos veículos oficiais do movimento, dedica a capa da edição deste bimestre à reportagem "Os mitos do agronegócio", cujo subtítulo diz: "O país produz e exporta a comida que falta nos pratos da maioria dos trabalhadores brasileiros, já que a lógica do mercado é imposta pelo capital mundializado". Palavrório à parte, o que o MST acha é que a agroindústria brasileira deve ser substituída por um modelo baseado na agricultura familiar, o que equivaleria na prática a uma socialização da pobreza. É claro que, numa sociedade livre, o direito de pensar diferente é sagrado. A maneira democrática de defender idéias é criar um partido e tentar convencer a sociedade das próprias convicções. Invadir terras é o jeito autoritário. O qual, como se vê acima, pode atrapalhar os investimentos no país e prejudicar justamente quem mais precisa deles: os trabalhadores que necessitam de novos empregos.



 
 
 
 
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