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Reforma
agrária
O
MST ataca o Brasil
que dá certo
Invasões
de fazendas produtivas
assustam investidores e atrapalham
a geração de novos empregos no país

João
Gabriel de Lima
As
invasões de terras produtivas começam a provocar danos
concretos no chamado "Brasil que dá certo" o agronegócio.
Na semana passada, a empresa canadense Brascan anunciou a intenção
de cortar 50 milhões de dólares em seus investimentos
no Brasil. O motivo: no dia 29 de abril, integrantes de duas facções
de sem-terra o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL)
e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do
Estado de Minas Gerais (Fetaemg) invadiram a Fazenda Pirapitinga,
em Canápolis (MG), pertencente à empresa. Lá,
além de gado para corte 16.000
cabeças , a Brascan mantém culturas paralelas
de sorgo, milho, abacaxi, arroz, soja e cana-de-açúcar.
Enquanto aguardava a reintegração de posse, que até
a sexta-feira não havia sido efetivada, a empresa mostrava
desânimo em investir no Brasil. "Lá na matriz, no Canadá,
quando eu falo em novos investimentos, eles me perguntam: 'Mas não
invadiram nossa fazenda duas vezes? Como é que você
pode garantir que não invadirão uma terceira ou uma
quarta?' ", disse Marcelo Marinho, presidente da Brascan Brasil
a empresa, que atua em vários setores, está
há 105 anos no país. Se outros investidores seguirem
o exemplo, pode ser um golpe duro para a agroindústria brasileira,
um dos setores que mais geram postos de trabalho num país
que enfrenta uma dramática onda de desemprego. Estima-se
que a área seja responsável por 38% do produto interno
bruto, quando se consideram as atividades econômicas direta
e indiretamente emuladas pelo campo. Na estatística de crescimento
do PIB divulgada na semana passada, a agropecuária deu a
maior contribuição, com 3,3% no primeiro trimestre.
O
governo federal tem sua parcela de culpa no fenômeno. Em tese,
ele condena as invasões. Alguns de seus integrantes, no entanto,
como o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto,
defendem o modelo agrícola preconizado pelo Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra (MST), de substituição do
agronegócio pela chamada "agricultura familiar". "Existe
no Brasil a falsa idéia de que o latifúndio monocultor
é moderno e gera emprego", declarou o ministro num discurso
na semana passada. Graças a essas sinalizações
confusas, há muito tempo não se invadia tanta terra
quanto agora. Nos primeiros quatro meses de 2004 houve mais ações
do que no ano inteiro de 2002, o último do mandato de Fernando
Henrique Cardoso. De acordo com levantamento do Ministério
do Desenvolvimento Agrário divulgado na semana passada, existem
71 entidades do gênero agindo no país. Nunca foram
tantas nem apareceram tanto no noticiário. E não se
limitam mais a invadir terras improdutivas, mesmo porque o Brasil
não as tem mais. No entendimento opaco desses militantes
da agitação rural, vale invadir qualquer lugar que
não esteja produzindo "comida para o povo".
O
MST, a maior e mais conhecida das agremiações, definiu
um foco: o setor de papel e celulose. Três áreas de
reflorestamento foram invadidas recentemente. A primeira empresa
atingida foi a Veracel, em 4 de abril. A Veracel, com 50% de capital
brasileiro e 50% sueco-finlandês, acaba de investir 900 milhões
de dólares na construção de uma fábrica
no sul da Bahia, a qual deverá gerar 10.000
empregos diretos e indiretos. "O fato repercutiu bastante na Europa,
e nossos sócios nos questionaram sobre a conveniência
de investir no Brasil. Decidimos manter nossos planos porque confiamos
nas instituições do país", disse Antonio Alipio,
diretor florestal da Veracel. Em 17 de abril o movimento atacou
em São Cristóvão do Sul, Santa Catarina, onde
a Klabin mantém uma plantação de pinheiros.
Só nesse Estado, a Klabin, empresa brasileira com 105 anos
de atuação, gera 4 300 empregos diretos e 12 000 indiretos.
"Em princípio, não pensamos em cortar investimentos,
mas é o caso de ver qual a ação futura do governo,
que em última análise é o responsável
pela manutenção do estado de direito", informa Wilberto
Lima Junior, diretor de assuntos corporativos da Klabin. Na semana
retrasada, em 16 de maio, chegou a vez da Fazenda Una, pertencente
à Votorantim Celulose e Papel. A empresa oferece 8 000 empregos
diretos e mais de 20 000 indiretos. Estima-se que o setor de papel
e celulose que provavelmente faz parte daquele grupo que
o ministro Rossetto chama de "latifúndio improdutivo que
não gera empregos" proporcione mais de 100.000
postos de trabalho no país.
A
área de papel e celulose é responsável pela
entrada de 2,3 bilhões de dólares em divisas por ano.
A maior parte da celulose exportada pelo país vem do eucalipto,
graças a uma tecnologia desenvolvida aqui. Por fatores ambientais
e técnicos, os eucaliptos brasileiros levam sete anos para
amadurecer, contra onze anos no resto do mundo, o que torna o país
extremamente competitivo. O Brasil produz 5,3 milhões de
toneladas de eucalipto para fabricação de papel por
ano, o que é mais da metade da produção mundial.
É um setor que cresce sem parar. Só a Votorantim Celulose
e Papel dobrou de tamanho nos últimos dois anos. Embora não
tenham uma justificativa articulada para as invasões, os
militantes do MST costumam defendê-las apelando para o discurso
ecológico e o da geração de empregos. Por trás
dessa cantilena está o verdadeiro dilema da agremiação
e de movimentos congêneres: a dificuldade de encontrar novas
terras agricultáveis para a reforma agrária. "A rigor,
o chamado latifúndio improdutivo praticamente não
existe mais", diz o professor Francisco Graziano, um dos maiores
especialistas brasileiros no assunto, ex-presidente do Incra, antigo
simpatizante do MST e hoje um crítico dos métodos
do movimento. "As terras boas para a agricultura ou já foram
para a reforma agrária ou se tornaram produtivas", informa
ele, que estima, a partir de dados do IBGE, que apenas 2% das terras
próprias para a atividade agrícola não estejam
sendo utilizadas. Na ausência de terras, o MST avança
sobre os reflorestamentos. Investe também numa estratégia
de desqualificação do agronegócio. A revista
Sem Terra, um dos veículos oficiais do movimento,
dedica a capa da edição deste bimestre à reportagem
"Os mitos do agronegócio", cujo subtítulo diz: "O
país produz e exporta a comida que falta nos pratos da maioria
dos trabalhadores brasileiros, já que a lógica do
mercado é imposta pelo capital mundializado". Palavrório
à parte, o que o MST acha é que a agroindústria
brasileira deve ser substituída por um modelo baseado na
agricultura familiar, o que equivaleria na prática a uma
socialização da pobreza. É claro que, numa
sociedade livre, o direito de pensar diferente é sagrado.
A maneira democrática de defender idéias é
criar um partido e tentar convencer a sociedade das próprias
convicções. Invadir terras é o jeito autoritário.
O qual, como se vê acima, pode atrapalhar os investimentos
no país e prejudicar justamente quem mais precisa deles:
os trabalhadores que necessitam de novos empregos.

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