Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Relações exteriores
Fé no milagre chinês

Lula faz à China a melhor viagem de
seu governo, mas a megalomania dos
diplomatas quase estraga tudo


Sergio Dutti/AE
Lula em Xangai: acerto na busca de mercados e tropeço no anúncio de cooperação nuclear
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Em Profundidade: Comércio exterior


O saldo da visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China não poderia ser melhor do ponto de vista econômico. Foram assinados mais de uma dezena de contratos e iniciadas negociações que poderão envolver mais de 5 bilhões de dólares nos próximos anos. Os chineses também se manifestaram dispostos a investir em infra-estrutura de transporte, para facilitar a exportação de grãos brasileiros, o grande interesse da China. Em matéria de resultados concretos, foi até agora a melhor viagem de Lula ao exterior. Mas, outra vez, não faltaram os destemperos da retórica terceiro-mundista que alguns auxiliares do presidente gostam de requentar e servir ao gosto do freguês. Falou-se em "aliança estratégica" com a China, e Lula chegou a dizer, numa provocação não tão velada assim aos americanos, que "muita gente no mundo está torcendo para que essa aliança não dê certo". Mais grave foi o fato de que, desta vez, a retórica em geral inconseqüente adquiriu ares de providências práticas quando o presidente anunciou que Brasil e China estudavam fazer um acordo de cooperação nuclear, o que incluiria a "exploração conjunta de minas de urânio" em território brasileiro e a venda do minério aos chineses. Por impedimento constitucional, o Brasil não pode vender urânio e muito menos permitir que outro país o explore. Urânio, não custa lembrar, serve de combustível tanto para usinas quanto para armas atômicas, que a China tem em boa quantidade. A abordagem desastrada de um tema tão delicado só serviu para reforçar a impressão de que o Brasil continua a ser um país pouco sério.


Sergio Dutti/AE
Os governadores Aécio Neves e Geraldo Alckmin em Pequim: de olho nos investimentos

Mas o que importa mesmo são os aspectos positivos da viagem. O oxigênio do Brasil chama-se exportação. Para se ter uma idéia, a economia brasileira cresceu 2,7% no primeiro trimestre puxada em grande parte pelas vendas externas. Além de animarem a produção, os dólares das exportações são essenciais para acalmar os investidores preocupados com a solvência da dívida. Investimentos internacionais são necessários também para recuperar e construir estradas, ferrovias e portos, o que serve para baratear o preço dos produtos brasileiros e torná-los, assim, mais competitivos. As exportações do Brasil para a China deram um salto nos últimos cinco anos. Em 1999, elas somavam 676 milhões de dólares. No ano passado, chegaram a 4,5 bilhões. Esse resultado foi ainda melhor porque o Brasil ficou com um saldo positivo de 2,8 bilhões de dólares. Em alguns setores, o casamento entre as economias dos dois países é perfeito. O Brasil é o principal exportador mundial de soja e a China, a maior importadora. A Companhia Vale do Rio Doce é a maior produtora de minério de ferro, e a China tem uma demanda insaciável pelo produto. Exportar produtos primários, as commodities, é uma importante fonte de moeda forte, combate a pobreza no interior e ajuda o país a crescer, mas está longe de ser suficiente. O que faz um país realmente forte no comércio internacional é sua capacidade de vender manufaturados – e apostar na China como grande importadora de industrializados brasileiros é ingênuo, visto que os chineses produzem quase tudo o que o Brasil fabrica, a preços bem mais baixos. "Nosso grande mercado de produtos industrializados são os Estados Unidos. É um erro encarar a China como um substituto", diz Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas.

A China até pode ser um "shopping de oportunidades", como definiu Lula, mas alguns dados sugerem que o Brasil chegou atrasado a esse coruscante centro de compras. Às voltas com uma inflação crescente e com graves problemas energéticos, o governo daquele país decidiu desacelerar a economia. Há um mês, anunciou que a tarifa de energia elétrica para a indústria iria subir. Pouco antes, para retirar dinheiro de circulação e, desse modo, encarecer e escassear o crédito aos consumidores, elevou de 7% para 7,5% o compulsório dos bancos (o volume de dinheiro que as instituições financeiras têm de deixar parado). O governo chinês determinou, ainda, que fossem revistos os projetos de grandes obras. Todas essas medidas visam a diminuir o crescimento da China de 9% para 7% ao ano, um índice que, segundo Pequim, não causaria maiores transtornos ao país.

Especialistas em comércio exterior e funcionários do governo brasileiro estão ocupados fazendo cálculos para precisar os efeitos que a redução do crescimento da economia chinesa teria nas exportações. Mas eles não deverão chegar a conclusões muito diferentes da expressa pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central. Seus integrantes acreditam que as exportações brasileiras, como um todo, não devem ser fortemente afetadas caso haja uma redução nas compras de empresas chinesas. Isso porque as vendas para a China representam apenas 6% do total das exportações do Brasil. Além disso, mesmo com a diminuição do ritmo da economia chinesa, o consumo de grãos por lá tende a se manter no mesmo patamar.

A verdade é que a parceria entre China e Brasil é boa, mas limitada, seja por motivos estruturais, seja por questões circunstanciais. Por isso, também é uma besteira imaginar que os dois países possam formar um "eixo" ou "uma nova geografia do comércio mundial", como disse Lula. Em Xangai, o presidente afirmou que sonhava com a formação do G5 (composto de Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul), para servir de contraponto ao poder dos Estados Unidos e da Europa. Atiradas ao vento, expressões como essa são apenas um sinal de miopia da realidade internacional. Como disse o jornalista Carlos Sardenberg, em artigo publicado em O Estado de S..Paulo na semana passada, em 2003 "os chineses venderam para o Brasil 2,7 bilhões de dólares, contra os 154 bilhões de dólares para os EUA. O que acham o leitor e a leitora: estariam os chineses interessados em se juntar a Lula para mudar a geografia comercial do mundo?".

"O Brasil precisa de alianças pragmáticas que somem. Nada de cair na armadilha de formar um grupo para confrontar outros países", diz Mario Marconini, diretor executivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Pragmatismo não faltou ao presidente americano Richard Nixon, que explorou o medo mortal que Mao Tsé-tung tinha da União Soviética, para reatar relações diplomáticas com a China e colher frutos políticos e econômicos. O presidente Ernesto Geisel, influenciado pela visão geopolítica do general Golbery do Couto e Silva, via a China como uma nação de 1 bilhão de famintos prontos para comprar comida. Foi assim que começamos a vender soja aos chineses. Outro exemplo de pragmatismo: o ditador chileno Augusto Pinochet, que viu na aproximação com a China mais uma porta para os mercados do Pacífico. O melhor é deixar essa história de eixo para lá e torcer para que sobre um pouco mais para o Brasil do "shopping de oportunidades" chinês.




 

Com reportagem de Lucila Soares e Silvana Mautone

 
 
 
 
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