|
|
Em
foco: Sérgio Abranches
Desalento
e esperança
"Uma
nova ordem já se infiltra nos escombros
da velha, resta saber quanto som, fúria e
barbárie ainda teremos de enfrentar
até
que se torne dominante e nos leve a um
estágio novo de civilização"
A busca
de uma nova ordem global está marcada por poderosas tensões,
profundas contradições e paradoxos que causam muita
perplexidade. Busca-se a ordem na desordem. A coerência na
contrariedade. A continuidade na mudança. Avanço e
decadência são mascarados pelos eventos. Mesclam-se
autoridades obscuras, fronteiras mutáveis e sistemas de regras
emergentes. Dessa forma o politólogo James Rosenau sintetiza
os dilemas da governança no século XXI, para concluir
que tentar deslindá-los é ter esperança envolvida
no desalento. Lembrei-me de suas palavras no seminário que
inaugurou o Instituto Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo.
Em particular, dessa mistura de perplexidade, desalento e esperança.
Ilustração Ale Setti
 |
O ex-presidente Bill Clinton, que fez a defesa do multilateralismo
em contraposição ao radical unilateralismo de Bush,
falou das contrariedades da interdependência contrapondo seus
lados positivos e negativos. Ele prefere falar em interdependência,
porque tem menos conotação econômica que globalização.
O desalento permeou toda a exposição do embaixador
Rubens Ricupero, de um pessimismo quase místico. A força
das contradições e a esperança dominaram as
exposições de Manuel Castells e Mary Kaldor.
O
tema dominante era a democracia. Democracia no mundo globalizado,
numa era em que convivem a velha ordem decadente e as sementes do
novo mundo. Para Clinton, a democratização dos Estados
nacionais foi o mais notável avanço político
das últimas três décadas do século XX,
quando o número de países sob regime democrático
foi multiplicado por quatro. Tem razão.
O
desafio do século XXI, segundo ele, seria o de dar condições
sociais para a sustentação dessas democracias emergentes.
Em sua visão, o novo século reedita o risco de crises
de legitimidade e governabilidade, por causa da insuficiência
de meios das sociedades mais pobres para garantirem o bem-estar
de seus povos. Está certo. Questão antiga, presente
nos escritos de autores tão díspares e clássicos
como Antonio Gramsci e Seymour Martin Lipset.
Ele
defendeu a democratização das instituições
de governança global ONU, FMI, OMC , a ampliação
do multilateralismo, sob regras mais abertas a maior número
de nações. Ex-presidentes podem defender teses de
forma mais absoluta. Presidentes sofrem limitações
que condicionam sua razão moral pura.
A
direção do olhar faz a diferença entre Ricupero,
que acredita apenas e pouco na possibilidade de modesta
reforma dessas instituições, não em uma nova
ordem, Castells e Kaldor. O embaixador vê o momento de hegemonia
dos EUA e a fragilidade das instituições multilaterais
para fundamentar seu ceticismo. Castells e Kaldor olham para as
ONGs e os movimentos sociais globalizados, inclusive os que são
vistos como antiglobalização, para vislumbrar os fragmentos
da nova ordem. Castells ressaltou um fato decisivo: os problemas
continuam sendo locais, mas as soluções dependem de
mecanismos globais.
A
velha arquitetura iniciada com a Liga das Nações desmoronou
com a invasão unilateral do Iraque, atropelando o Conselho
de Segurança da ONU. Não por acaso, todos concordaram
que o que acontecer no Iraque nos próximos meses indicará
muito da trajetória das próximas décadas. Serão
eventos críticos no confronto entre o unilateralismo e o
multilateralismo, indicadores da possibilidade de governança
global democrática.
Foi
uma discussão de alto teor analítico, de muito bom
nível, sobre temas e problemas concretos, que tomou um banho
de realidade quando Mary Kaldor relatou suas observações
in loco sobre o Iraque. Desalento: os estadunidenses, fechados na
Zona Verde, ultraprotegida, pensam o futuro do país, enquanto
o povo, na Zona Vermelha, onde palpita a vida, surpreendida a cada
minuto pela violência e pela morte, não acredita nem
confia neles. Esperança: em meio aos bombardeios, tiros e
explosões, pulsa uma sociedade civil cada vez mais ativa,
que ficou sufocada sob Saddam Hussein e continua sem voz, com os
que se dizem seus "libertadores". Ela quer assumir o destino de
seu país em suas mãos e só o enviado especial
da ONU, Lakhdar Brahimi, a ouve. Seu objetivo é que os iraquianos
escolham seu próprio governo, mas que aceitem os direitos
das minorias. Um alerta repetido por Clinton em sua apresentação.
Um
debate que tem a ver com nossa vida e de todo o mundo e está
longe de terminar. Não há só ruína e
falta de perspectiva. Uma nova ordem já se infiltra nos escombros
da velha, resta saber quanto som, fúria e barbárie
ainda teremos de enfrentar até que se torne dominante e nos
leve a um estágio novo de civilização.
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
|