Edição 1856 . 2 de junho de 2004

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Em foco: Sérgio Abranches
Desalento e esperança

"Uma nova ordem já se infiltra nos escombros
da velha, resta saber quanto som, fúria e
barbárie ainda teremos de
enfrentar até
que se torne dominante e nos leve a um
estágio novo de civilização"

A busca de uma nova ordem global está marcada por poderosas tensões, profundas contradições e paradoxos que causam muita perplexidade. Busca-se a ordem na desordem. A coerência na contrariedade. A continuidade na mudança. Avanço e decadência são mascarados pelos eventos. Mesclam-se autoridades obscuras, fronteiras mutáveis e sistemas de regras emergentes. Dessa forma o politólogo James Rosenau sintetiza os dilemas da governança no século XXI, para concluir que tentar deslindá-los é ter esperança envolvida no desalento. Lembrei-me de suas palavras no seminário que inaugurou o Instituto Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo. Em particular, dessa mistura de perplexidade, desalento e esperança.

Ilustração Ale Setti


O ex-presidente Bill Clinton, que fez a defesa do multilateralismo em contraposição ao radical unilateralismo de Bush, falou das contrariedades da interdependência contrapondo seus lados positivos e negativos. Ele prefere falar em interdependência, porque tem menos conotação econômica que globalização. O desalento permeou toda a exposição do embaixador Rubens Ricupero, de um pessimismo quase místico. A força das contradições e a esperança dominaram as exposições de Manuel Castells e Mary Kaldor.

O tema dominante era a democracia. Democracia no mundo globalizado, numa era em que convivem a velha ordem decadente e as sementes do novo mundo. Para Clinton, a democratização dos Estados nacionais foi o mais notável avanço político das últimas três décadas do século XX, quando o número de países sob regime democrático foi multiplicado por quatro. Tem razão.

O desafio do século XXI, segundo ele, seria o de dar condições sociais para a sustentação dessas democracias emergentes. Em sua visão, o novo século reedita o risco de crises de legitimidade e governabilidade, por causa da insuficiência de meios das sociedades mais pobres para garantirem o bem-estar de seus povos. Está certo. Questão antiga, presente nos escritos de autores tão díspares e clássicos como Antonio Gramsci e Seymour Martin Lipset.

Ele defendeu a democratização das instituições de governança global – ONU, FMI, OMC –, a ampliação do multilateralismo, sob regras mais abertas a maior número de nações. Ex-presidentes podem defender teses de forma mais absoluta. Presidentes sofrem limitações que condicionam sua razão moral pura.

A direção do olhar faz a diferença entre Ricupero, que acredita apenas – e pouco – na possibilidade de modesta reforma dessas instituições, não em uma nova ordem, Castells e Kaldor. O embaixador vê o momento de hegemonia dos EUA e a fragilidade das instituições multilaterais para fundamentar seu ceticismo. Castells e Kaldor olham para as ONGs e os movimentos sociais globalizados, inclusive os que são vistos como antiglobalização, para vislumbrar os fragmentos da nova ordem. Castells ressaltou um fato decisivo: os problemas continuam sendo locais, mas as soluções dependem de mecanismos globais.

A velha arquitetura iniciada com a Liga das Nações desmoronou com a invasão unilateral do Iraque, atropelando o Conselho de Segurança da ONU. Não por acaso, todos concordaram que o que acontecer no Iraque nos próximos meses indicará muito da trajetória das próximas décadas. Serão eventos críticos no confronto entre o unilateralismo e o multilateralismo, indicadores da possibilidade de governança global democrática.

Foi uma discussão de alto teor analítico, de muito bom nível, sobre temas e problemas concretos, que tomou um banho de realidade quando Mary Kaldor relatou suas observações in loco sobre o Iraque. Desalento: os estadunidenses, fechados na Zona Verde, ultraprotegida, pensam o futuro do país, enquanto o povo, na Zona Vermelha, onde palpita a vida, surpreendida a cada minuto pela violência e pela morte, não acredita nem confia neles. Esperança: em meio aos bombardeios, tiros e explosões, pulsa uma sociedade civil cada vez mais ativa, que ficou sufocada sob Saddam Hussein e continua sem voz, com os que se dizem seus "libertadores". Ela quer assumir o destino de seu país em suas mãos e só o enviado especial da ONU, Lakhdar Brahimi, a ouve. Seu objetivo é que os iraquianos escolham seu próprio governo, mas que aceitem os direitos das minorias. Um alerta repetido por Clinton em sua apresentação.

Um debate que tem a ver com nossa vida e de todo o mundo e está longe de terminar. Não há só ruína e falta de perspectiva. Uma nova ordem já se infiltra nos escombros da velha, resta saber quanto som, fúria e barbárie ainda teremos de enfrentar até que se torne dominante e nos leve a um estágio novo de civilização.


Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)

 
 
 
 
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