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Roberto Pompeu de Toledo

O lado bom do
mar de lama

Este pode ser o último governo a
crer que precisa, para manter-se,
de alianças espúrias e concessão
aos
maus hábitos

O mar de lama vem para o bem ou para o mal? Eis a eterna questão. O acúmulo de fraudes e roubalheiras significa que o país afunda cada vez mais em seus insanáveis vícios? Ou, ao contrário, o fato de as denúncias serem formuladas e os crimes virem à luz é sinal de que evoluímos no caminho da moralidade? Ora parece uma coisa, ora outra. O afastamento do presidente Collor foi interpretado como um marco redentor no país. Estávamos maduros para apontar e punir a corrupção. O mar de lama em que se afundara aquele governo viera para o bem. O país jamais voltaria a ser o mesmo. No entanto...

No entanto, rapidinho, o país voltou a ser o mesmo. Ao de Collor se seguiram tantos escândalos que é impossível contá-los, os federais somando-se aos estaduais, a estes misturando-se os municipais. A conclusão passava a ser a de que a única conseqüência de um mar de lama é produzir outro, e outro, e outro ainda, até resultar num oceano do tamanho do Brasil – um imenso lençol freático sobre o qual bóia, inerme, um país condenado. Na verdade, se o mar de lama vem para o bem ou para o mal é questão de difícil solução, mas vá lá: apertemos ainda uma vez o botão do otimismo, acreditemos na hipótese benigna de que para algo de bom ele serve e formulemos a seguinte hipótese, cujo enunciado, para chamar a atenção, vai grifado: O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso pode ser o último a acreditar que para se manter e assegurar a governabilidade são necessárias as alianças espúrias e a tolerância para com os maus costumes.

Expliquemo-nos. O governo Fernando Henrique tem, em sua folha corrida, contribuições não desprezíveis à luta contra a corrupção. Ao contrário de governos anteriores, manteve ministérios em que ela soa ainda mais afrontosa – se é que é aceitável tal gradação –, como o da Educação e o da Saúde, a seu abrigo. Também, fiel à condição de governo integrado por refinados cultores da ciência política, procurou ir às causas da corrupção, e foi assim que desmantelou estatais em que políticos sempre deram um jeito de espetar seus balcões de negócios, ou teve a boa idéia de baixar uma Lei de Responsabilidade Fiscal. Ao mesmo tempo, porém, e como para compensar o lado mais virtuoso com outro menos, permitiu que certas áreas da administração fossem sacrificadas às feras. Deixou, até recentemente, que o barco continuasse correndo em órgãos de histórica má reputação, como o DNER, a Sudam e a Sudene. Na relação com o Congresso, manteve o toma-lá-dá-cá. Com os chefes e os coronéis estaduais, adotou a política de preservar-lhes os espaços que sempre ocuparam em setores da administração federal.

Se por um lado, em suma, o atual governo mostrou zelo e adotou medidas inovadoras contra os maus costumes, por outro se deixou arrastar pelo laxismo. Nem seria preciso dizer, mas diga-se, que esse segundo lado é conseqüência da ampla aliança que o presidente julgou necessário armar para eleger-se e governar. Com erudição de sociólogo, citava Weber e a ética da responsabilidade para justificar as alianças e as concessões. Com rudeza de experimentado participante do mundo real da política, respondia em outras ocasiões, quando questionado sobre o que aconteceria caso não as mantivesse: "Eu caio". Fernando Henrique escolheu sustentar-se sobre dois pilares na aparência contraditórios. Primeiro: propôs-se a transformar o Brasil. Segundo: decidiu fazê-lo respeitando e cultivando o Brasil tradicional. Alguns diriam que buscava a quadradura do círculo. Outros, que procedia com a sabedoria de quem entende o país com que está lidando. O resultado, vistas as coisas da perspectiva de hoje, é que, se em algumas coisas seu governo transformou o Brasil, em outras o tornou ainda mais igual a si mesmo.

Para sua infelicidade, é essa parte, a do Brasil irremediavelmente igual, o Brasil das negociatas e dos trambiques de sempre, ou talvez piores, que na atualidade se impõe. Para Fernando Henrique, um homem sério, cercado de ministros e auxiliares predominantemente sérios, a melancólica verdade é que caminha para o final do mandato oferecendo à opinião pública a imagem de chefiar um governo convertido em central de escândalos. Não adianta que boa parte das atuais embrulhadas envolva o Congresso, não o Executivo. Tudo, na imaginação popular, vira a mesma coisa, e até com certa razão: não são todos aliados?

É neste ponto que voltamos à hipótese acima. Em que resultaram, para o governo, as alianças espúrias e a tolerância para com os maus hábitos? Em mais mal do que bem. Serviram mais para atrapalhar do que para ajudar. Mais para prendê-lo numa teia de chantagens e exigências sem fim do que para facilitar a governabilidade. E, sobretudo, para contaminá-lo com a pecha de conivente com a corrupção. Daí a conclusão, otimista, de que o governo Fernando Henrique pode ser o último a adotar tal estratégia. A clara lição é que ela não funciona. Se a hipótese estiver correta, o mar de lama não nos terá banhado em vão.

 

   
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