
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
Crie
seu grupo

|
|
Ação
entre amigos
Conselho
de Educação autoriza abertura
de faculdades de parentes e sócios
dos conselheiros

Consuelo
Dieguez
Igor Câmara
 |
Ricardo Peixoto
 |
Claudio Rossi

|
Em
Fortaleza (no alto à esq.), curso da Estácio
de Sá aprovado por ex-reitor. Na Paraíba, curso de sócio
de Di Genio (ao lado) votado por outro sócio
|
Um dos inegáveis
feitos do Ministério da Educação foi a democratização
do ensino superior, com o crescimento acelerado do número de faculdades
implantadas no país. Vai tudo bem nesse campo, menos por um detalhe:
os critérios adotados pelo Conselho Nacional de Educação
(CNE) para autorizar o funcionamento de novas instituições.
Há suspeitas de que critérios não estritamente técnicos
nortearam a abertura de muitos cursos. O CNE, órgão que
está ligado à estrutura administrativa do ministério
e funciona com conselheiros indicados pelos órgãos de ensino
e por outras entidades de fora do governo, decide que cursos superiores
podem ser abertos, em quais cidades e também os que devem ser fechados
por andar mal das pernas. Seria de imaginar que o conselho estivesse acima
de qualquer interesse, a não ser o de garantir um ensino de qualidade.
O que ocorre, porém, é que esse órgão tem
sido palco de uma ação entre amigos, na qual se aprovam
projetos de interesse de grupos com que os conselheiros têm ou tiveram
algum vínculo. Pior que isso, sem que o próprio Ministério
tenha controle dessas ligações, porque os pedidos são
feitos em nome das mantenedoras dos cursos, sem informação
sobre quem são seus donos.
Esse expediente
deu margem a situações no mínimo curiosas. Como a
do conselheiro Yugo Okida, vice-reitor da Universidade Paulista (Unip),
que pertence a um dos maiores grupos educacionais do país, o Objetivo,
do empresário João Carlos Di Genio. Okida também
é sócio de Di Genio no Objetivo e em outros negócios
do grupo. Não vota nenhum parecer relativo à Unip. "Não
seria ético", explica. No entanto, não tem o mesmo cuidado
quando se trata da aprovação de projetos de pessoas ligadas
ao grupo Objetivo. "Não posso impedir meus parentes ou sócios
do Objetivo de abrir suas faculdades", explica.
Há
exemplos em vários Estados. No Centro de Ensino Superior de Maringá
(Cesumar), no Paraná, os sócios são Cândido
Garcia, Jorge Brihy e Oswaldo Pereira Barbosa. Brihy é sócio
de Okida e Di Genio no Objetivo. Já Pereira Barbosa é cunhado
de Di Genio. Em maio de 1998, Okida deu parecer autorizando o curso de
fisioterapia na Cesumar. Em João Pessoa, Brihy e Oswaldo Barbosa
aparecem como donos da Associação Paraibana de Ensino Renovado
junto com Emiliane Kubo, sobrinha de Okida. Brihy também figura
como sócio na Sociedade de Desenvolvimento Cultural do Amazonas,
que recebeu autorização de Okida para montar um curso de
comunicação. Na Bahia, quem está à frente
da Associação de Ensino Superior Diplomata, além
de Brihy é José Augusto Nasr, também sócio
do grupo Objetivo. O conselheiro nega qualquer favorecimento. Lembra que
o voto do relator é sempre acompanhado de decisões de mais
dois relatores. "Não mexo em uma vírgula do parecer que
vem da Secretaria de Educação Superior. Será que
todos estariam coniventes com o Objetivo?", questiona, deixando de lado
a informação de que os pedidos são feitos apenas
em nome das mantenedoras.
Okida não
está só. O conselheiro Lauro Ribas Zimmer foi reitor da
Universidade Estácio de Sá, do empresário João
Uchôa Cavalcanti e tem o hábito de aprovar projetos a ela
ligados. É o caso da Sociedade de Ensino Superior de Pernambuco
e da Sociedade de Ensino Superior do Ceará, em 1998 e 1999. Ambas
pertencem ao grupo Estácio e receberam voto favorável de
Zimmer. A defesa, mais uma vez, se escuda na diferença entre o
nome das instituições autorizadas a funcionar. "Ele sempre
recusa os projetos em nome da Estácio de Sá", atesta o vice-presidente
da Câmara de Educação Superior, Arthur Roquete de
Macedo, da Fundação Cesgranrio de São Paulo. Zimmer
esquiva-se dos cursos que aprovou em Pernambuco e no Ceará. "Pode
ter acontecido em outra época", diz.
Também
chama a atenção o caso do Instituto de Educação
Superior de Brasília (Iesb). À frente do centro, que abriu
nada menos que doze cursos em dois anos, está Eda Machado Souza,
mulher do chefe de gabinete do ministro Paulo Renato, Edson Machado. Antes
de abrir suas faculdades, Eda era funcionária da Secretaria de
Educação Superior (Sesu), responsável pelos cursos
superiores do país. Outra coincidência é que o Iesb,
antes de se estabelecer definitivamente, usou instalações
do Objetivo em Brasília. O atual secretário da Sesu, Antonio
Macdowell de Figueiredo, não vê conflito de interesse no
fato de a mulher do chefe de gabinete ter uma faculdade. Não há
lei que impeça, é verdade. Mas não é uma situação
inteiramente confortável.
O professor
João Carlos Di Genio defende-se atacando. Alega que seus 35 anos
no mercado justificam o tamanho do império que montou. Explica
também que o plano de carreira do Objetivo inclui apoio para os
professores abrirem escolas depois de dez anos de trabalho daí
a quantidade de pessoas ligadas ao grupo à frente de instituições
de ensino. "Tem gente com muito menos estrada que abriu mais cursos que
nós e em menos tempo. Não há controle", indigna-se.
A velocidade com que surgem cursos no país é realmente estonteante.
Entre 1996 e 2000, foram criados 2.016. Uma
média de um curso e meio por dia em quatro anos. Para evitar irregularidades
e garantir a qualidade do ensino, é essencial que esse crescimento
seja regido por critérios técnicos rigorosos. A falta de
controle deixa no ar um cheiro de favorecimento incompatível com
uma política educacional eficiente.
|
Um
crescimento vertiginoso
Até 1997, a média de abertura de cursos superiores
no país era de 200 ao ano. Em 1999 foram autorizados 745
novos cursos superiores e, em 2000, 865.
Entre 1996 e 2000 foram abertos 2 016 novos cursos superiores em
todo o Brasil, com permissão do Conselho Nacional de Educação
(CNE).
Desse total, pelo menos 16% foram autorizados para o grupo Objetivo,
tendo como relator Yugo Okida, sócio do empresário
Di Genio, dono do grupo.
Dos 165 pedidos para autorização de abertura de novos
cursos de psicologia no país, o conselheiro Yugo Okida aprovou
apenas treze. Destes, cinco pertencem a faculdades de sócios
do grupo Objetivo.
O conselheiro Lauro Ribas Zimmer, ex-reitor da Universidade Estácio
de Sá, do Rio de Janeiro, relata processos que autorizam
a abertura de cursos da Estácio em outros Estados ou que
permitem o aumento do número de vagas nas faculdades do grupo.
|
|
|
 |
|
 |

|
 |