Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 698 - 2 de maio de 2001
Geral Medicina
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
  A cesariana perde a fama de má
Brasileiros compram mais carros de luxo
A pílula do desejo feminino
Novos campings oferecem conforto de hotel
Fiscais do Ibama têm alto índice de casamento desfeito
Rio Grande do Sul avança nos direitos dos gays
As grifes ultramodernas
Livro diz que o trauma da morte pode ser positivo
A atração dos cursos de culinária
Romênia vai construir a Draculândia
A prisão do traficante Fernandinho Beira- Mar
A indústria do seqüestro
Remédios baratos não são solução para África
Cresce a prática de alta performance
Suspeita de favorecimento no Conselho Nacional
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Hipertexto
Notas internacionais
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Busca detalhada
Arquivo 1997-2001
Busca somente texto 96|97|98|99|00|01


Crie seu grupo




 

Sem dor e sem culpa

Mais simples e mais segura, a
cesariana perde a fama de opção
de luxo e conquista a confiança de
obstetras que só a admitiam em
casos de absoluta necessidade

Aida Veiga

Há quatro anos, em um congresso da categoria, o professor Marcelo Zugaib, chefe do departamento de obstetrícia e ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, dedicou sua concorrida palestra àquele que então considerava um princípio irrefutável: parto bom é parto normal. Foi duro e incisivo, qualificando de antiéticos os colegas que abusavam da "cesariana sem necessidade". Saiu do palco aplaudido por centenas de médicos, todos defensores do pensamento dominante. No mês passado, em outro congresso, Zugaib novamente foi convidado a proferir palestra. O título, dessa vez, era uma pergunta que por si só indica a virada na forma como os profissionais sérios abordam a questão: "Resgatar o normal é válido?" Ao microfone, o obstetra desdisse boa parte do que havia defendido com tanta veemência antes. Qualquer casal que conte com bons médicos e bons hospitais, declarou, pode e deve optar exatamente pelo tipo de procedimento que julgar mais conveniente. Se quiser se preparar para um parto normal, tudo bem; se desde a primeira consulta preferir cesárea, também não há problema. "Antigamente, tratávamos a cesariana como os religiosos tratavam os pecadores na época da Inquisição", reconhece Zugaib. "Continuo a favor do parto natural. Mas, com os avanços tecnológicos e as mudanças de costumes, não condeno mais a cesárea. Cada caso é único e cabe ao médico dar todas as informações para que o casal faça sua escolha."

No país que é campeão mundial de cesarianas (veja números) e onde há décadas instituições médicas e órgãos públicos se batem pela reabilitação do parto normal, posições como a de Zugaib podem parecer uma mera rendição à demanda da clientela. No entanto, além de respeitar a decisão da imensa maioria das mulheres que podem escolher como vão ter seus filhos, elas cada vez mais ganham adeptos entre os obstetras. A argumentação toma por base os avanços da cirurgia: hoje, uma cesariana é simples, segura, causa muito menos dor e tem recuperação rápida. Se a paciente sente medo do bisturi, não suporta a perspectiva da dor ou não quer passar pela ansiedade de aguardar sentada o final da gravidez, é melhor que opte pela cesariana e tenha um parto tranqüilo. "Houve e há abuso dos médicos que marcam cesáreas pensando em sua comodidade", diz Zugaib. "Também não considero a cirurgia a opção ideal para a saúde pública porque, além de ser mais cara, não temos qualidade suficiente, em matéria de médicos e hospitais, para garantir a taxa mínima de risco de um parto normal. Mas quem tem acesso a serviços e atendimento de primeira linha pode se sentir muito melhor fazendo uma cesárea."

"Rápido e confortável" – No Brasil, a cesariana virou praxe, em vez de exceção, pelas mãos dos médicos que atendem convênios, nos quais a remuneração é a mesma para os dois procedimentos, com a diferença de que a cesárea leva meia hora e o parto normal pode ocupar um dia inteiro. As pacientes, claro, adoraram a idéia de um parto sem dor antes e durante (ainda que um pouco mais dolorido depois), com data marcada e ainda a vantagem de preservar o aparelho genital. Apesar de seu primeiro parto não ter sido particularmente prolongado, a dentista paulistana Carla Pereira, 36 anos, não esqueceu as dores excruciantes que sentiu para dar à luz Mateus, hoje com 12 anos. Há quatro anos, teve o segundo filho, Tomás, por cesariana (opção do médico – houve complicações no parto) e não sentiu nada. "Se soubesse que era tão rápido e confortável, nunca teria tido um filho pela via normal", afirma agora. "Essa história de que a dor do parto enobrece só pode ter sido inventada por um homem, que não tem a menor noção do que se trata."

Experiências como a de Carla ajudam a aumentar ainda mais o número de cesáreas na camada, ainda minoritária, das pessoas que dispõem de convênios de saúde ou podem pagar hospital do próprio bolso. A idéia de ter filhos sem dor (e cada vez menos culpa, diante da "conversão" dos profissionais mais renitentes) tem um apelo tão avassalador para as mães brasileiras que a cirurgia é usada em 80% a 90% dos partos fora da rede pública. Antes, as vantagens da cesariana eram contrabalançadas pelas desvantagens: anestesia, corte, dor no pós-parto, mulheres encurvadas caminhando devagarinho, encolhidas, pelos corredores da maternidade. As futuras mães que pediam o parto cirúrgico eram consideradas mimadas, imaturas, despreparadas até para os imensos sacrifícios exigidos pela maternidade. Com os progressos médicos, as desvantagens diminuíram e as parturientes se entusiasmaram. "Uma amiga conta para a outra e essa propaganda boca-a-boca está derrubando conceitos arragaidos da nossa cultura judaico-cristã", observa o obstetra carioca Elias Andreatto. "Durante séculos, as mulheres sofreram para ter filhos como uma forma de se redimir do pecado original. Mas, com tudo o que a ciência oferece hoje, ninguém está mais disposto a sofrer à toa." O primeiro caso de que se tem notícia do uso de algum tipo de analgésico para diminuir a dor do parto beneficiou uma rainha: em meados do século XIX, Vitória, da Inglaterra, cheirou clorofórmio para dar à luz a princesa Beatriz. "Provavelmente, ela só teve coragem de driblar a dor porque era rainha", comenta Andreatto. "Se fosse plebéia, teria sido crucificada."

Hidromassagem – A cesariana (do latim caedere, cortar, e da lenda que diz que César, o futuro imperador romano, teria sido tirado por um corte da barriga da mãe agonizante) foi durante muito tempo um procedimento de açougueiro, usado para salvar bebês em grávidas à morte. Atualmente não põe medo em mãe nenhuma. O corte na barriga não passa de 10 centímetros e os pontos são absorvidos pelo organismo. O anestésico, além de ter menos efeitos colaterais, é injetado com uma dose de morfina que permite à mulher não sentir dor alguma no primeiro dia. Quando seu efeito passa, ela já está se movimentando normalmente e a dor residual é bem menor. Que mulher resiste? Pouquíssimas. Tradicional adepta do natural, a Maternidade Santa Joana, de São Paulo, a maior do Brasil, criou uma sala especialmente destinada a glamourizar o parto normal: chamada de labour delivery room (assim mesmo, em inglês), tem hidromassagem e fica convenientemente situada ao lado do centro cirúrgico, para emergências. Com isso, reduziu seu porcentual – em 2000, "apenas" 80% dos partos foram cesáreas, contra 90% no ano anterior. "É menos do que esperávamos quando decidimos humanizar o ambiente", lamenta o diretor da maternidade, Marco Antonio Zaccarelli. As quatro suítes custam o mesmo que um apartamento comum e até hoje atenderam todas as interessadas. Apesar dos atrativos, nunca há lotação no setor de partos normais da Santa Joana.


Antonio Milena
Suíte especial para parto normal na Maternidade Santa Joana: bonita, mas sem risco de lotação


Também defensor do parto natural, o médico João Luiz Carvalho Pinto e Silva, chefe do serviço de obstetrícia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que, diante das circunstâncias, não mudou seus princípios, mas anda revendo sua conduta em consultório. Durante anos, quando uma paciente cismava de fazer cesárea, ele desistia do caso e indicava algum colega. "Hoje em dia, converso e tento convencer o casal das vantagens do parto normal. Mas, se não consigo, faço a cesariana. Algumas pessoas sentem tanto medo, têm tantas preocupações, que a saída é fazer o que elas querem." Apesar de militar na brigada pró-parto normal, o médico tenta agir com o máximo de equilíbrio. Por um lado, reconhece que o avanço da ciência proporcionou uma cesárea mais segura; por outro, também condena os métodos mais extremados – de cócoras, dentro da água, sem médico nem hospital, entre outras maluquices apregoadas na época da contracultura e que chegaram a seduzir adeptas do naturalismo incondicional. "Mesmo sendo natural, o parto não é um procedimento simples", explica Pinto e Silva. "É uma situação de risco, que precisa da interferência médica." Se essa interferência pode também evitar que um dos momentos mais importantes na vida de uma mulher aconteça em meio ao padecimento, as brasileiras já deixaram bem claro que preferem essa opção.

 
VEJA também
Rádio VEJA
  Os argumentos de um especialista a favor da livre escolha da mãe entre o parto normal e a cesariana
  Obstetra fala das desvantagens da cesariana

 

   
 

 

 

 

   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS