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Sem
dor e sem culpa
Mais
simples e mais segura, a
cesariana perde a fama de opção
de luxo e conquista a confiança de
obstetras que só a admitiam em
casos de absoluta necessidade
Aida
Veiga
Há
quatro anos, em um congresso da categoria, o professor Marcelo Zugaib,
chefe do departamento de obstetrícia e ginecologia da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo, dedicou sua concorrida
palestra àquele que então considerava um princípio
irrefutável: parto bom é parto normal. Foi duro e incisivo,
qualificando de antiéticos os colegas que abusavam da "cesariana
sem necessidade". Saiu do palco aplaudido por centenas de médicos,
todos defensores do pensamento dominante. No mês passado, em outro
congresso, Zugaib novamente foi convidado a proferir palestra. O título,
dessa vez, era uma pergunta que por si só indica a virada na forma
como os profissionais sérios abordam a questão: "Resgatar
o normal é válido?" Ao microfone, o obstetra desdisse boa
parte do que havia defendido com tanta veemência antes. Qualquer
casal que conte com bons médicos e bons hospitais, declarou, pode
e deve optar exatamente pelo tipo de procedimento que julgar mais conveniente.
Se quiser se preparar para um parto normal, tudo bem; se desde a primeira
consulta preferir cesárea, também não há problema.
"Antigamente, tratávamos a cesariana como os religiosos tratavam
os pecadores na época da Inquisição", reconhece Zugaib.
"Continuo a favor do parto natural. Mas, com os avanços tecnológicos
e as mudanças de costumes, não condeno mais a cesárea.
Cada caso é único e cabe ao médico dar todas as informações
para que o casal faça sua escolha."
No país
que é campeão mundial de cesarianas (veja
números) e onde há décadas instituições
médicas e órgãos públicos se batem pela reabilitação
do parto normal, posições como a de Zugaib podem parecer
uma mera rendição à demanda da clientela. No entanto,
além de respeitar a decisão da imensa maioria das mulheres
que podem escolher como vão ter seus filhos, elas cada vez mais
ganham adeptos entre os obstetras. A argumentação toma por
base os avanços da cirurgia: hoje, uma cesariana é simples,
segura, causa muito menos dor e tem recuperação rápida.
Se a paciente sente medo do bisturi, não suporta a perspectiva
da dor ou não quer passar pela ansiedade de aguardar sentada o
final da gravidez, é melhor que opte pela cesariana e tenha um
parto tranqüilo. "Houve e há abuso dos médicos que
marcam cesáreas pensando em sua comodidade", diz Zugaib. "Também
não considero a cirurgia a opção ideal para a saúde
pública porque, além de ser mais cara, não temos
qualidade suficiente, em matéria de médicos e hospitais,
para garantir a taxa mínima de risco de um parto normal. Mas quem
tem acesso a serviços e atendimento de primeira linha pode se sentir
muito melhor fazendo uma cesárea."
"Rápido
e confortável" No Brasil, a cesariana virou praxe, em
vez de exceção, pelas mãos dos médicos que
atendem convênios, nos quais a remuneração é
a mesma para os dois procedimentos, com a diferença de que a cesárea
leva meia hora e o parto normal pode ocupar um dia inteiro. As pacientes,
claro, adoraram a idéia de um parto sem dor antes e durante (ainda
que um pouco mais dolorido depois), com data marcada e ainda a vantagem
de preservar o aparelho genital. Apesar de seu primeiro parto não
ter sido particularmente prolongado, a dentista paulistana Carla Pereira,
36 anos, não esqueceu as dores excruciantes que sentiu para dar
à luz Mateus, hoje com 12 anos. Há quatro anos, teve o segundo
filho, Tomás, por cesariana (opção do médico
houve complicações no parto) e não sentiu
nada. "Se soubesse que era tão rápido e confortável,
nunca teria tido um filho pela via normal", afirma agora. "Essa história
de que a dor do parto enobrece só pode ter sido inventada por um
homem, que não tem a menor noção do que se trata."
Experiências
como a de Carla ajudam a aumentar ainda mais o número de cesáreas
na camada, ainda minoritária, das pessoas que dispõem de
convênios de saúde ou podem pagar hospital do próprio
bolso. A idéia de ter filhos sem dor (e cada vez menos culpa, diante
da "conversão" dos profissionais mais renitentes) tem um apelo
tão avassalador para as mães brasileiras que a cirurgia
é usada em 80% a 90% dos partos fora da rede pública. Antes,
as vantagens da cesariana eram contrabalançadas pelas desvantagens:
anestesia, corte, dor no pós-parto, mulheres encurvadas caminhando
devagarinho, encolhidas, pelos corredores da maternidade. As futuras mães
que pediam o parto cirúrgico eram consideradas mimadas, imaturas,
despreparadas até para os imensos sacrifícios exigidos pela
maternidade. Com os progressos médicos, as desvantagens diminuíram
e as parturientes se entusiasmaram. "Uma amiga conta para a outra e essa
propaganda boca-a-boca está derrubando conceitos arragaidos da
nossa cultura judaico-cristã", observa o obstetra carioca Elias
Andreatto. "Durante séculos, as mulheres sofreram para ter filhos
como uma forma de se redimir do pecado original. Mas, com tudo o que a
ciência oferece hoje, ninguém está mais disposto a
sofrer à toa." O primeiro caso de que se tem notícia do
uso de algum tipo de analgésico para diminuir a dor do parto beneficiou
uma rainha: em meados do século XIX, Vitória, da Inglaterra,
cheirou clorofórmio para dar à luz a princesa Beatriz. "Provavelmente,
ela só teve coragem de driblar a dor porque era rainha", comenta
Andreatto. "Se fosse plebéia, teria sido crucificada."
Hidromassagem
A cesariana (do latim caedere, cortar, e da lenda que
diz que César, o futuro imperador romano, teria sido tirado por
um corte da barriga da mãe agonizante) foi durante muito tempo
um procedimento de açougueiro, usado para salvar bebês em
grávidas à morte. Atualmente não põe medo
em mãe nenhuma. O corte na barriga não passa de 10 centímetros
e os pontos são absorvidos pelo organismo. O anestésico,
além de ter menos efeitos colaterais, é injetado com uma
dose de morfina que permite à mulher não sentir dor alguma
no primeiro dia. Quando seu efeito passa, ela já está se
movimentando normalmente e a dor residual é bem menor. Que mulher
resiste? Pouquíssimas. Tradicional adepta do natural, a Maternidade
Santa Joana, de São Paulo, a maior do Brasil, criou uma sala especialmente
destinada a glamourizar o parto normal: chamada de labour delivery
room (assim mesmo, em inglês), tem hidromassagem e fica convenientemente
situada ao lado do centro cirúrgico, para emergências. Com
isso, reduziu seu porcentual em 2000, "apenas" 80% dos partos foram
cesáreas, contra 90% no ano anterior. "É menos do que esperávamos
quando decidimos humanizar o ambiente", lamenta o diretor da maternidade,
Marco Antonio Zaccarelli. As quatro suítes custam o mesmo que um
apartamento comum e até hoje atenderam todas as interessadas. Apesar
dos atrativos, nunca há lotação no setor de partos
normais da Santa Joana.
Antonio Milena
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| Suíte
especial para parto normal na Maternidade Santa Joana: bonita, mas
sem risco de lotação |
Também defensor do parto natural, o médico João Luiz
Carvalho Pinto e Silva, chefe do serviço de obstetrícia
da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp), diz que, diante das circunstâncias, não
mudou seus princípios, mas anda revendo sua conduta em consultório.
Durante anos, quando uma paciente cismava de fazer cesárea, ele
desistia do caso e indicava algum colega. "Hoje em dia, converso e tento
convencer o casal das vantagens do parto normal. Mas, se não consigo,
faço a cesariana. Algumas pessoas sentem tanto medo, têm
tantas preocupações, que a saída é fazer o
que elas querem." Apesar de militar na brigada pró-parto normal,
o médico tenta agir com o máximo de equilíbrio. Por
um lado, reconhece que o avanço da ciência proporcionou uma
cesárea mais segura; por outro, também condena os métodos
mais extremados de cócoras, dentro da água, sem médico
nem hospital, entre outras maluquices apregoadas na época da contracultura
e que chegaram a seduzir adeptas do naturalismo incondicional. "Mesmo
sendo natural, o parto não é um procedimento simples", explica
Pinto e Silva. "É uma situação de risco, que precisa
da interferência médica." Se essa interferência pode
também evitar que um dos momentos mais importantes na vida de uma
mulher aconteça em meio ao padecimento, as brasileiras já
deixaram bem claro que preferem essa opção.

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