"Quero
mais tempo"
O cirurgião plástico mais respeitado
do mundo prepara a sua clínica para
que funcione sem a
sua presença.
Mas ele nega que esteja doente
Gisela Sekeff
Oscar Cabral
 |
"Do
ponto de vista espiritual, o trabalho embrutece um pouco. E eu tenho
medo disso" |
Ao
longo de cinqüenta anos de carreira, o cirurgião plástico
Ivo Pitanguy fez mais de 60.000 cirurgias, proferiu 1.500 conferências
ao redor do mundo e formou 412 médicos. Sua fama é planetária.
Mineiro de Belo Horizonte, Pitanguy construiu também a imagem de
homem incansável. Aos 74 anos, ele continua a exercer suas atividades
praticamente no mesmo ritmo de duas décadas atrás. Nas manhãs
de quarta-feira, ele atende de graça, na Santa Casa carioca, pessoas
carentes que necessitam de cirurgias reparadoras. Quase todas as tardes,
dá expediente em sua clínica particular. Nos últimos
tempos, porém, vem demonstrando um certo cansaço. "Comecei
a preparar minha clínica para que ela sobreviva sem mim", afirma.
Os boatos de que estaria doente volta e meia se espalham. O último
deles fala em mal de Parkinson. Pitanguy faz mais do que negar a doença
com veemência. Desmente o falatório com trabalho. No dia
em que concedeu a entrevista a VEJA, havia feito três cirurgias.
"Meu interesse em continuar a operar pode durar um mês, dois meses
ou dez anos", diz ele.
Veja O senhor ainda trabalha no ritmo de vinte anos atrás?
Pitanguy
Estou procurando desacelerar. Não dá para trabalhar com
a mesma intensidade de antigamente. É inevitável: chegará
um momento em que, por enfado ou por qualquer outro motivo, posso querer
parar de fazer medicina. Por isso, comecei a preparar minha clínica
para que ela sobreviva sem a minha presença. Para que tudo dê
certo, é preciso que os pacientes confiem na minha equipe da mesma
forma que confiam em mim.
Veja Na sua ausência, a clínica sempre fechava.
Ainda é assim?
Pitanguy
Não. Agora ela permanece aberta. Inclusive porque, na minha ausência,
a estrutura de ensino que montei na clínica tem de prosseguir.
Vou dizer uma obviedade: não sou eterno. Antes, coitadinho de mim,
eu achava que minha vida duraria para sempre.
Veja O senhor está cansado de operar?
Pitanguy
Um dia de consultório hoje me cansa mais do que uma operação.
A clínica ainda gira muito em torno de mim... Mas ando sentindo
também a necessidade de ficar um pouco mais comigo mesmo, com minha
mulher. Do ponto de vista espiritual, o trabalho embrutece um pouco. E
eu tenho medo desse embrutecimento. Sabe, quero me livrar do peso da obrigação
de estar ligado ao trabalho. Passados tantos anos, gostaria que os laços
com a profissão fossem apenas de prazer. Na semana passada, trouxe
o meu barco de Angra dos Reis para o Rio e ainda não tive tempo
de usá-lo. Quero conciliar um pouco mais a minha vida pessoal com
a profissional.
Veja Até quando o senhor pretende operar?
Pitanguy
Gostaria de saber, mas não dá para prever o futuro. Meu
interesse em continuar com as cirurgias pode durar um mês, dois
meses ou dez anos.
Veja O senhor deixou de realizar algum tipo de cirurgia?
Pitanguy
Não.
Mas, quando o paciente está de acordo, delego o serviço
mais pesado à minha equipe. Evidentemente, o preço cobrado
nesses casos é menor. Nas operações muito grandes,
como as de abdome e de mama, só faço a parte principal.
Quando é uma lipoaspiração, demarco a área,
supervisiono os trabalhos, mas o procedimento é feito muito mais
pelo meu time. Ao longo da minha carreira, fiz muitas cirurgias de mão.
No entanto, as técnicas utilizadas nesse tipo de operação
evoluíram tão rapidamente que o meu conhecimento não
acompanhou o avanço. Consegui conter meu ego e contratar dois cirurgiões
especialistas em mão para integrar o quadro da minha clínica.
Veja A velhice o incomoda?
Pitanguy
Acho que lido bem com ela. Continuo a praticar esportes e a cultivar
a vida intelectual. Não posso negar que, ao me olhar no espelho,
de vez em quando levo um susto. De qualquer forma, procuro não
fazer disso um motivo para entrar em depressão. Volta e meia surgem
boatos de que estou doente. Agora andam dizendo por aí que estou
com mal de Parkinson. Não tenho Parkinson nenhum. No Carnaval passado,
estava esquiando na Suíça, sofri uma queda e tive um traumatismo
no ombro direito. Como ainda estou com dificuldade de movimentar o braço,
surgiu essa história.
Veja Noto que suas mãos tremem.
Pitanguy
Minhas mãos são firmes como um rochedo. Não tenho
nenhum tremor. Ainda que tivesse, poderia operar do mesmo jeito. Já
vi médicos que tremem operarem. O que comanda a mão é
o cérebro. O Aleijadinho tinha os dedos toscos e fazia todas aquelas
obras-primas. No momento em que percebesse que poderia prejudicar alguém,
eu pararia na hora. Opero ao lado de um time, não faço nada
escondido. A minha parte realizo muito bem, como nas três cirurgias
que fiz hoje. Não tenho nenhum problema neurológico. Não
sou obrigado a falar sobre minhas condições de saúde.
Político é que tem de dar satisfação pública.
Eu tenho de dar satisfação aos meus clientes.
Veja Há uma controvérsia em torno de sua idade.
Afinal, quantos anos o senhor tem?
Pitanguy
Essa é uma questão um tanto confusa. Eu mesmo não
sei o que dizer ao certo. Nasci em 5 de julho de 1926. Tenho, portanto,
74 anos. Mas no meu registro oficial consta o ano de 1923. Meu pai modificou
a data de meu nascimento, porque eu precisava parecer mais velho. Isso
porque me formei muito novo, com apenas 20 anos.
Veja O senhor já se pegou diminuindo a própria
idade?
Pitanguy
Uma vez tentei impressionar uma moça, dizendo que tinha 40 anos.
Mas, como tinha 19 anos, ela me achou um velho. A verdade é que
essas coisas deixam de ter importância depois de uma determinada
fase da vida.
Veja O senhor tem medo da morte?
Pitanguy
Não temo a morte, mas não quero pensar nela. Meu desejo
é morrer em pleno sentimento de amor à vida.
Veja O senhor nunca se submeteu a uma plástica?
Pitanguy
Eu me tolero... Na verdade, tenho um medo danado de médico e não
quero ser operado. Pessoas que se sentem bem consigo mesmas não
devem fazer plástica nenhuma. Muitas rugas podem recordar momentos
de alegria e não tiram a dignidade do rosto.
Veja Qual é o seu conceito de beleza?
Pitanguy
A
beleza tem de transcender o físico. Para mim, a americana Wallis
Simpson, que viveu aquele célebre caso de amor com o duque de Windsor,
levando a que ele abdicasse do trono da Inglaterra, era uma bela mulher.
Apesar de não ter os traços e o corpo bonitos, ela impressionava
pela sua presença marcante.
Veja Depois dos americanos, os brasileiros são o povo
que mais faz plásticas no mundo. O que pensa disso?
Pitanguy
A cirurgia plástica é uma especialidade cirúrgica
sujeita a riscos como qualquer outra. Não se pode pensar que fazer
uma plástica é o mesmo que ir ao cabeleireiro. Existe uma
tendência à vulgarização que deve ser combatida.
Há médicos, por exemplo, que realizam cirurgias sem o devido
preparo. E gente despreparada pode pôr a perder todo o respeito
e prestígio que profissionais gabaritados suaram para conseguir.
Muitos resolvem enveredar pela cirurgia plástica somente por causa
dos seus atrativos financeiros. Acho que o médico tem de ser bem
remunerado, mas esse não pode ser o princípio que norteia
a profissão. Essas pessoas têm uma moral diferente da que
professamos e estão fora do princípio hipocrático.
O outro ponto, a meu ver, é que a questão estética
no Brasil ultrapassa o campo da cirurgia plástica. Hoje em dia,
entre os brasileiros, há uma preocupação excessiva
com o corpo e, com isso, deixa-se de lado o espírito. É
saudável que as pessoas se cuidem, mas passar três horas
por dia numa academia é um exagero. É mais importante desenvolver
o intelecto do que os músculos do bumbum.
Veja Acontece de o paciente querer mais do que é possível
oferecer?
Pitanguy
É uma situação bastante comum. Há pessoas
que transferem para o corpo problemas de ordem psicológica e começam
a se enxergar de uma forma absolutamente irreal. Às vezes, o cirurgião
plástico tem de dizer "não" e recusar-se a operar. Imagine,
no entanto, uma mulher na virada dos 40 para os 50 anos que tenha envelhecido
precocemente e que esteja insatisfeita com a sua aparência. As rugas
até podem ser um problema de pouca importância. Mas são
reais. Nesse caso, nós podemos dar a ela não a juventude,
mas a ilusão da juventude.
Veja O que o senhor acha dos médicos que realizam
pequenos procedimentos cirúrgicos em clínicas estéticas
e salões de beleza?
Pitanguy
Para mim, eles não são cirurgiões, e sim bandidos,
charlatães. São pessoas desprovidas de ética. Não
os considero colegas.
Veja E quanto aos profissionais que, em troca de publicidade,
operam gente famosa de graça?
Pitanguy
Essa conduta é errada. A cirurgia plástica deve ser exercida
como qualquer outra especialidade. Ou seja, os médicos são
obrigados a guardar sigilo em relação a seus pacientes.
Acho que toda propaganda deve ser evitada, especialmente aquelas que mostram
desenhos e fotografias de "antes" e "depois". Se um ator aparecesse aqui
propondo esse tipo de negócio, recusaria enfaticamente. Mas não
vejo nenhum mal em operar um artista plástico e ele pagar com um
quadro. É o meu trabalho pelo dele.
Veja A preferência nacional sempre foi o bumbum, mas
recentemente os seios fartos viraram febre. O senhor não acha que
algumas mulheres estão exagerando na quantidade de silicone?
Pitanguy
Os homens brasileiros passaram a venerar a mama grande por influência
da cultura americana. Não vou citar nomes, mas algumas mamas foram
feitas um pouco maiores do que o recomendável. Uma prótese
normal acentua os contornos femininos e dá graça à
mulher. Isso não ocorre quando ela é grande demais. Próteses
imensas são de um imenso mau gosto. Se uma paciente me pede uma
prótese maior do que a que julgo ideal para ela, procuro convencê-la
de que o excesso não lhe cairá bem. Se a cirurgia for contra
o meu senso estético, simplesmente não opero.
Veja A plástica sofre influência da moda?
Pitanguy
Sim.
Mas é preciso lembrar que o modismo não deve ser a razão
da plástica. A moda passa; a plástica é definitiva.
Veja A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica é
contra a simulação computadorizada para mostrar ao paciente
os possíveis resultados de uma operação. E o senhor?
Pitanguy
Acho que é melhor conversar do que vender uma imagem que pode
não ser real. Minha clínica dispõe de computadores
moderníssimos, capazes de fazer simulações em questão
de minutos, mas não uso esse recurso porque não gosto, não
é meu estilo. Na minha opinião, uma conversa franca sobre
o que é possível ou não fazer transmite mais confiança
ao paciente. É mais real do que mostrar uma imagem que nem sempre
se concretizará.
Veja De vez em quando, surgem notícias de pessoas
que morreram durante uma lipoaspiração. O procedimento é
seguro?
Pitanguy
A lipoaspiração faz parte do arsenal de todo cirurgião
plástico. Como é um procedimento aparentemente fácil,
caiu na mão de gente sem preparo. Isso aumenta seus riscos. Bem
feita, no entanto, é uma coisa fantástica. Só se
deve fazer lipo em gorduras localizadas. Quem está acima do peso,
não deve achar que a lipo é o caminho mais curto para o
emagrecimento.
Veja É o senhor quem estabelece o preço de
uma cirurgia?
Pitanguy
Eu nunca falo em dinheiro. É minha secretária que examina
a capacidade financeira de cada cliente e determina quanto o procedimento
vai custar. Eu nem fico sabendo.
Veja O que o senhor não tem e gostaria de ter?
Pitanguy
Tempo. Eu queria mais tempo.

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