Especial
Mercado de luxo
Já sobrou para a
lagosta
Queda no consumo do crustáceo
é sinal de que
a próxima vítima pode ser o mercado de
luxo

Paula
Neiva e Roberta de Abreu Lima
Lew
Robertson/Corbis/Latinstock
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A
preço de picanha A crise econômica
fez com que os americanos passassem a consumir menos lagosta. O aumento da oferta
derrubou o preço da iguaria nos Estados Unidos em 25%. No Brasil, que exporta
85% de sua produção para os EUA, o preço caiu pela metade
nos supermercados brasileiros, compra-se lagosta a preço de carne
de primeira |
Ainda não se sabe ao certo
como a crise financeira nos Estados Unidos vai afetar o Brasil,
mas pelo menos um benefício ela trouxe aos apreciadores
da boa mesa o preço da lagosta caiu pela metade
nos supermercados brasileiros. Já é possível
comprá-la pelo mesmo valor da picanha ou outra carne
de primeira. A explicação para isso está
nos mecanismos do mercado. Diante da turbulência na
economia, os americanos têm contido os gastos com produtos
caros e supérfluos, como a lagosta. A demanda em baixa
fez com que seu preço despencasse 25% nos EUA desde
o início do ano. O país passou a importar menos
o pescado e a pagar menos por ele. O Brasil costuma exportar
para os Estados Unidos 85% de sua produção de
lagosta. Com a retração dos importadores americanos,
os produtores brasileiros começaram a direcionar maior
quantidade do produto para o consumo interno. Resultado: o
crustáceo ficou mais acessível também
no Brasil. "A lagosta é um alimento de celebração,
consumido em ocasiões especiais. Se a economia vai
mal, as pessoas deixam de comprá-la", disse a
VEJA Bob Bayer, diretor do Instituto da Lagosta da Universidade
de Maine.
Peter
Kramer/AP
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A
crise das bolsas Quinta Avenida, em Nova
York: algumas das lojas mais caras da cidade anteciparam as liquidações |
Se
o que acontece com a lagosta se estender a outros produtos caros, a próxima
vítima da crise deverá ser o mercado de luxo, aquele nicho de roupas,
veículos e objetos pessoais que custam uma fábula, mas têm
um público fiel que não se importa em sacar do cartão de
crédito seja qual for o valor estampado na etiqueta. Desde o início
da década, após amargar uma retração passageira com
os atentados de 11 de setembro, o mercado de luxo vem crescendo à razão
de 15% ao ano. De modo geral, o segmento é considerado um dos menos vulneráveis
às trepidações da economia. Agora, começam a soprar
os primeiros ventos de que a crise pode atingi-lo em cheio. Lojas de Nova York
especializadas em artigos de luxo, como a Saks Fifth Avenue e a Neiman Marcus,
vêem seu faturamento aumentar a ritmo mais lento. No caso dessa última,
as vendas no primeiro semestre deste ano não aumentaram em comparação
com o mesmo período do ano passado. Outra rede do gênero, a Nordstrom,
teve faturamento 6% menor nos primeiros quatro meses de 2008 com relação
ao mesmo período de 2007. Muitas delas anteciparam as liquidações
de fim de estação deste ano.
Spencer
Platt/AFP
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Baixa
velocidade Feira de carros luxuosos montada
em Manhattan: a venda dos modelos mais caros encolheu 10% nos EUA neste ano |
Os
primeiros clientes a fugir das lojas que vendem artigos de luxo não são
os milionários, mas aqueles que podem comprar um ou outro objeto de desejo.
Na joalheria Tiffany & Co., celebrizada no filme Bonequinha de Luxo,
a queda mais acentuada nas vendas ocorreu com as jóias que custam até
10 000 dólares. O comércio de alianças de 50 000 dólares
ou mais continua estável. O mercado de carros de luxo nos Estados Unidos,
por sua vez, encolheu 10% entre janeiro e agosto deste ano em comparação
com o mesmo período do ano passado. A BMW projeta vender nos EUA, neste
ano, 40 000 veículos a menos do que o inicialmente previsto. Segundo os
analistas de mercado, embora a crise ainda não tenha afetado os produtos
destinados aos muito ricos, pode ser questão de tempo para que isso aconteça.
"Esses consumidores geralmente são imunes às crises, mas desta
vez seus investimentos podem estar ameaçados, e isso os deixa duplamente
alertas", disse a VEJA o consultor americano Edward Henderson, especialista
no setor de varejo da agência internacional de avaliação de
risco Moodys.
Divulgação
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Vão-se
os anéis Jóia da Tiffany:
alianças de até 10 000 dólares estão encalhadas |
À medida que se espalham pelo mundo, os
reflexos da crise americana forçam os consumidores a mudar de hábitos.
Na França, 3.000 restaurantes fecharam as portas nos primeiros quatro meses
deste ano no mesmo período, as redes de fast-food triplicaram suas
vendas. Segundo os sindicatos que representam esses estabelecimentos, os hábitos
dos clientes à mesa também se tornaram mais frugais, de modo a diminuir
o valor da conta ao fim da refeição. No caso do mercado de artigos
de luxo, a crise que se avizinha no Primeiro Mundo pode ser benéfica para
o Brasil, e não apenas por baratear o preço da lagosta. Diz o empresário
Carlos Ferreirinha, consultor especializado em mercado de luxo: "A prioridade
dos grandes conglomerados desse segmento sempre foram os mercados americano e
japonês. Agora, para se estabilizar, eles contam também com os mercados
emergentes, como a China e o Brasil. Isso poderá trazer mais investimentos
para o país nos próximos anos".