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1º de outubro de 2008
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Especial Crise de líderes
Procura-se um estadista

Na hora em que os EUA enfrentam uma das piores
turbulências da história, Bush, o "pato manco", sofre
com sua falta de liderança política – e, para piorar,
ninguém parece pronto paraassumir seu lugar


André Petry, de Nova York

Fotos Getty Images, Pablo Martinez/AP

A CRISE SUMIU DO DISCURSO
O presidente Bush e os operadores da Bolsa de Nova York: a crise é forte, mas, ao falar na ONU, ele mal tocou no assunto

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou no plenário da Organização das Nações Unidas às 9h55 de terça-feira, subiu à tribuna e, lendo em dois teleprompters dispostos à sua esquerda e à sua direita, discursou durante quinze minutos. Criticou os "fundamentalistas do mercado", conclamou à ação os governantes dos países "no centro da crise", disse que os organismos internacionais não têm meios nem autoridade para coibir "a anarquia especulativa" e defendeu a idéia de que a ONU tente dar "uma resposta vigorosa às ameaças que pesam sobre nós". Sucedeu-lhe na tribuna o presidente George W. Bush. Com seus inelutáveis meneios de cabeça, Bush falou durante 22 minutos. Dos 31 parágrafos do seu discurso, dedicou só um e meio à crise. Disse que seu governo adotara "medidas ousadas" para conter o estrago, evitando "efeitos devastadores" na economia de outros países, e apelou ao Congresso para aprovar o seu socorro de 700 bilhões de dólares. Encerrado o discurso, Bush agradeceu, ouviu aplausos protocolares e foi-se embora, deixando atrás de si um plenário a se perguntar: então era só isso?

A crise é a maior desde a desgraça dos anos 30 do século passado. O pacote é o maior socorro financeiro da história do capitalismo. E tudo o que o líder da maior potência do planeta tem a dizer ao mundo é que tomou "medidas ousadas", cujo objetivo é conter a crise mas nem de longe tocam na sua raiz? Lula, que não é governante de país "no centro da crise", aproveitou a brecha para tirar uma casquinha. "Eu lamentei. Imaginei que o presidente Bush falaria um pouco da crise econômica, do que o governo americano pretende fazer", disse, numa entrevista posterior. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, que discursou logo depois de Lula e Bush, tirou uma casquinha da própria tribuna da ONU. Em seu pronunciamento, Sarkozy gesticulou feito um italiano, disse que o sistema financeiro era "insano" e propôs uma cúpula mundial em novembro para discutir a regulação internacional dos mercados financeiros. A idéia é boa, mas todo mundo sabe que, em pleno terremoto econômico, há medidas mais urgentes a tomar do que ouvir longas diatribes políticas em cimeiras mundiais.

Tim Sloam/AFP

A AUSÊNCIA DE UM LÍDER
Bush, em reunião na Casa Branca com líderes partidários e os candidatos McCain e Obama: um desastre

No dia seguinte, Bush fez um pronunciamento dramático à nação e voltou a defender a ajuda bilionária aos falidos de Wall Street, sob pena de levar o país a uma "recessão longa e dolorosa". Dessa vez, seu discurso tinha 24 parágrafos. Todos sobre a crise. A atuação errática de Bush, que num dia quase ignora a crise e no outro fala dela como quem está à beira do abismo, ilustra à perfeição sua inapetência para a liderança política quando ela é mais necessária – e isso tem um preço. Se existe um líder capaz e visionário, o custo de uma crise fica menor. Mas, se esse líder não existe, como é o caso agora, nem dentro, muito menos fora dos Estados Unidos, o custo da crise aumenta. Aumentou na quinta-feira, depois de um dia inteiro de negociações tumultuadas e infrutíferas em Washington. Na Casa Branca, Bush se reuniu com líderes partidários e com os candidatos John McCain e Barack Obama para azeitar a aprovação do pacotaço de 700 bilhões, mas foi um desastre. Bush não convenceu nem seus colegas de partido. Num dos momentos mais pesados, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, chegou a se ajoe-lhar diante da presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, suplicando para que não inviabilizasse um acordo. "Não sou eu, são os republicanos", respondeu ela, conforme relatos publicados na imprensa. De fato, a ala mais conservadora do Partido Republicano, fiel aos princípios do livre mercado, recusava-se a aceitar tamanha intervenção estatal na economia.

E, sem líder nem bússola, a crise voltou a se agravar no dia seguinte, com as bolsas caindo diante da percepção de que Washington não se entendia. Sob o comando de um estadista, crises podem ser excelentes oportunidades para inovar e criar. Na violenta depressão dos anos 30, o então presidente Franklin Roosevelt implantou o New Deal, uma série de programas econômicos que, a um só tempo, arrancaram os Estados Unidos do atoleiro da depressão, capacitaram o país para lutar – e vencer – a II Guerra Mundial e criaram a maior democracia industrial do planeta. A capacidade de liderança faz toda a diferença, tanto no governo quanto na iniciativa privada. Em 1982, o cabeça da Johnson & Johnson, James Burke, foi confrontado com a morte de pacientes que vinham tomando Tylenol, remédio que tinha 35% do mercado americano e rendia 500 milhões de dólares por ano à empresa. Sua atuação foi tão eficiente que salvou a marca Tylenol e, em vez de diminuir ou ao menos chamuscar a reputação da empresa, conseguiu aumentá-la. O caso virou um clássico no estudo da liderança na crise.

AP

A PRESENÇA DE UM LÍDER
Roosevelt: na crise, ele salvou o país, venceu a guerra e criou a maior democracia industrial

É uma coincidência infeliz que a turbulência econômica sobrevenha no momento em que os EUA são comandados por um "pato manco", apelido dado pelos americanos aos presidentes enfraquecidos pela proximidade do fim do mandato. "O pior é que este presidente, com sua popularidade em torno dos 30% há meses, é mais manco que a maioria dos patos", disse a VEJA o cientista político Charles S. Bullock, da Universidade da Geórgia. "Ele não teria meios para atuar como um líder nem que quisesse, e nem parece que queira." O dramático é que, se Bush não pode nem quer, também não apareceram outros políticos com estofo para a liderança. Obama, que voltou à dianteira nas pesquisas eleitorais, faz um diagnóstico correto da crise, mas não vai além disso. McCain desorientou-se. Suspendeu a campanha, propôs cancelar o primeiro debate presidencial, previsto para a noite de sexta-feira, e só colheu provocações segundo as quais um candidato presidencial tem de ser capaz de mascar chiclete e caminhar ao mesmo tempo.

O problema da falta de liderança política é particularmente grave num momento em que o estado começa a assumir outro papel, com uma presença muito mais expressiva na economia. Na explosão da crise, o governo americano encampou duas gigantes do financiamento imobiliário, Fannie Mae e Freddie Mac, depois desembolsou 85 bilhões de dólares para salvar a maior seguradora do mundo, a AIG, e agora quer injetar 700 bilhões de dólares no sistema financeiro – e ninguém sabe se a intervenção do governo vai parar por aí. É uma presença estatal enorme, e justamente numa economia marcadamente livre como a americana. Seria desejável que, sob o comando disso tudo, houvesse um estadista. Infelizmente, não há nem um presidente. E, para piorar, ninguém parece pronto para assumir o papel.



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