Especial Entrevista:
Dominique Strauss-Kahn
No coração
do capitalismo
Brendan
Hoffman/WPN
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NOVA
ORDEM Strauss-Kahn, do FMI: o crescimento
mundial será liderado pelos países emergentes |
Em
alguns anos, não meses, a economia mundial sairá da tormenta
e com feições diferentes. Os emergentes responderão por até
77% do crescimento global, acima dos 65% dos últimos anos. Nos países
ricos, o sistema financeiro, engolido por créditos podres, ficará
substancialmente menor em relação à economia real. Wall Street
será muito mais regulada, e menos exuberante. Quem afirma isso é
Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional,
entidade criada no pós-guerra para coordenar as finanças mundiais
e evitar o colapso de pagamento de seus países-membros. "Pela primeira
vez em muito tempo, a crise não vem da periferia, mas do centro do sistema."
Ex-ministro de Economia da França, Strauss-Kahn elogiou o rigor da política
econômica brasileira nos últimos "cinco ou seis anos",
alertou para o risco inflacionário na América Latina e citou o Brasil
entre os países mais preparados para resistir às turbulências.
Ele recebeu o editor executivo Marcio Aith em seu escritório, na sede do
FMI, em Washington.
Que cara
terá a economia mundial depois dessa crise?
Uma cara bem diferente.
A crise originou-se no mercado imobiliário americano, mas tem raízes
muito mais profundas. A expansão do mercado financeiro superou em muito
o crescimento da economia real nas últimas décadas, por meio de
uma complexidade nunca antes vista. Já a regulação e a supervisão
bancárias não se prepararam para tamanho desafio. Os bancos de investimento
puderam rebaixar seus critérios de análise de risco, com o objetivo
de elevar lucros, sem ser adequadamente fiscalizados. Portanto, um dos desfechos
mais relevantes é que teremos um sistema financeiro menor, mais compatível
com a economia real, em um ambiente mais controlado, mais regulado.
Esta
crise marcará o fim da hegemonia do dólar como reserva de valor?
Ouvi
essa profecia muitas vezes. Será que ela se realizará algum dia?
O curioso é que, apesar de a crise ter se originado nos Estados Unidos,
de falhas no sistema regulatório do país, não se observa
nenhum pânico em relação ao dólar, o que seria de esperar.
Ao contrário, o status do dólar continua intacto.
Países
como a China nunca tiveram tantos dólares guardados para se proteger de
crises. Parte desses recursos foi usada para financiar o déficit americano
e as agências hipotecárias que assumiram riscos além de suas
possibilidades. Qual foi o papel da China nisso tudo?
A crise eclodiu no
setor financeiro americano. Mas também tem relação com esses
desequilíbrios, que terão de ser abordados mais cedo ou mais tarde.
Para evitar crises tão devastadoras como essa, os Estados Unidos serão
provavelmente obrigados a reduzir seu déficit externo. Taxas de poupança
maiores nos Estados Unidos, tanto pública quanto privada, poderão
ser parte da solução do problema. Assim, a China terá a possibilidade
de mudar seu modelo de crescimento. Isso vai exigir um regime cambial mais flexível
(hoje o governo chinês mantém o valor da moeda local atrelado ao
dólar, para preservar a competitividade de suas exportações).
O valor do renminbi terá de ser progressivamente revisto.
Qual
é o risco de a crise se espalhar pelo sistema bancário europeu?
Os
bancos europeus e de outras regiões estão diante de prejuízos
talvez tão volumosos quanto os registrados pelas instituições
americanas. A diferença é que não há, na Europa, um
modelo de bancos exclusivamente de investimento. São grandes conglomerados
com múltiplas atividades. Suas perdas têm sido compensadas com lucros
obtidos em outros serviços. Isso não significa que não seja
necessário instituir um plano de contingência na Europa. A solução
para a crise tem de ser mundial. Os europeus também deveriam adotar um
plano de ação que possibilitasse o abastecimento de liquidez, a
recompra dos ativos desvalorizados e a injeção de capital nas instituições
financeiras.
Os bancos brasileiros
estão preparados para enfrentar a contração de crédito?
Os bancos da América Latina estão mais fortes porque se expuseram
menos a instrumentos financeiros exóticos.
O impacto direto para eles
será baixo. Mas a América Latina não está fora da
globalização. É claro que haverá conseqüências
para o crescimento da região, mas não é possível falar
da América Latina como um conjunto homogêneo.
Como
vê o impacto da crise no Brasil?
Vejo o Brasil como um dos países
que melhor vão resistir às turbulências, principalmente pelo
que foi feito nos últimos cinco ou seis anos. O Brasil de ontem não
tem nada a ver com o Brasil de hoje. O país avançou muito. Tem políticas
fiscal e monetária muito sólidas. O Brasil não está
imune, é claro. Se a crise mundial se prolongar, o que é bastante
provável, seu crescimento será afetado.
O
atual ritmo de crescimento é sustentável? Quais as previsões
do fundo para o Brasil e para a região?
O Brasil deverá crescer
um pouco abaixo de 5% neste ano, e cerca de 4% no ano que vem, segundo nossas
estimativas. Para a América Latina, a previsão é de cerca
de 4,5% para este ano e em torno de 3,5% para o próximo. Mas o problema
da região não é o crescimento. É a inflação.
Muitos países têm taxas acima de 10%. Mesmo nos países que
têm inflação de um dígito, o número ainda está
acima das metas. A inflação está em todo lugar na América
Latina e resolvê-la é um problema complexo, pois muitos países
pobres importam inflação por causa da alta de alimentos e combustíveis.
Em
um artigo publicado em fevereiro, o senhor aconselhou os países a ampliar
seus gastos públicos para ajudar a evitar uma recessão mundial.
O risco de colapso mundial pôs fim ao rigor fiscal do FMI? Ao menos é
assim que a mensagem foi recebida, no Brasil e na região.
Fico feliz
em saber que o Brasil e a região continuam a dar ouvidos ao FMI. O que
eu disse é que, para alguns países em que isso é possível,
a indução ao crescimento é uma segunda linha de defesa, depois
da redução de juros. Não significa que todos possam fazer
isso. Para falar a verdade, era uma recomendação mais aos Estados
Unidos e à China no caso chinês, para tentar dar à
sua economia uma nova orientação, menos voltada à exportação
e mais ao consumo interno.
Qual é
o papel dos países emergentes na solução dessa crise?
Vital.
Essa crise se dá num contexto muito particular, em que a média de
crescimento dos países emergentes é bastante alta. Mesmo que os
emergentes sejam afetados, se a China, por exemplo, desacelerar de 11% para 9%,
ainda assim são 9% ao ano. É diferente de os países europeus
desacelerarem de 3% para 1%. Entre 2003 e 2007, o crescimento dos emergentes representou
65% da expansão do PIB mundial. No ano que vem, deverá subir 77%.
Ao final, se esse crescimento se sustentar, os emergentes terão feito a
diferença.