Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Livros
Saber em perigo

A história mostra que as bibliotecas
estão longe
de ser os lugares mais
seguros para os livros


Marcelo Marthe

 
A Biblioteca do Congresso e imagem da queima de obras astecas: sempre um assunto de Estado


Trechos do livro

Quando os árabes conquistaram Alexandria, no ano de 641, viram-se diante de um impasse: que destino dar ao acervo da célebre biblioteca da cidade egípcia? Consultado, o califa de plantão determinou: "Se o que vem dito nos livros concorda com o Livro de Deus, eles são desnecessários; se discorda, são indesejáveis. Destruam-nos, portanto". Milhares de rolos de papiro teriam sido queimados, então, transformando-se em combustível das termas públicas da cidade por seis meses. Embora seja impossível saber até onde vai a veracidade dessa história, uma coisa é certa: ao longo de sua existência, a Biblioteca de Alexandria esteve sujeita a toda sorte de ataques. Trata-se, aliás, de uma sina que desde sempre se abateu sobre suas congêneres, como demonstra o estudioso americano Matthew Battles, no recém-lançado A Conturbada História das Bibliotecas (tradução de João Vergílio Gallerani Cuter; Planeta; 240 páginas; 42 reais). O autor traça um panorama que vai das primeiras coleções de livros de que se tem notícia – que remontam à Mesopotâmia de três milênios antes de Cristo – até as colossais bibliotecas públicas contemporâneas, como a do Congresso americano, a maior do mundo, com 100 milhões de obras. Battles examina, sobretudo, como esses centros de saber se tornaram um bem estratégico e palco de embates intelectuais. A lição que se tira de sua investigação é um tanto paradoxal: se há um lugar em que os livros correm sério risco de destruição, é nas estantes de uma grande biblioteca.


Em tempos de guerra ou de perseguições políticas e religiosas, as bibliotecas estão sempre entre as primeiras baixas. Em seus esforços para catequizar os astecas, no México do século XVI, os padres espanhóis destruíram os equivalentes pré-colombianos das bibliotecas: os santuários com peças de couro e argila cujas inscrições em hieróglifos continham parte da memória daquela civilização. O ditador nazista Adolf Hitler instigou seus partidários a promover queimas de livros. Durante a II Guerra, à medida que suas tropas avançavam sobre outros países, comandos invadiam as bibliotecas locais para pilhar obras de interesse do Reich e destruir as consideradas subversivas. Estima-se que os nazistas tenham queimado mais de 100 milhões de livros. Essa prática bárbara não sai de cena. Em 1992, na guerra civil da Bósnia, um intelectual e líder nacionalista sérvio ordenou que se bombardeasse a principal biblioteca de Sarajevo – .que ele próprio freqüentava, antes do conflito. Em 1998, os fanáticos do Talibã explodiram uma biblioteca com mais de 50.000 volumes no norte do Afeganistão.

Muitas obras antigas só se conservaram por pertencer a bibliotecas que não despertavam atenção, escondidas em residências e mosteiros, ou graças ao acaso. Quando o rei Henrique VIII rompeu com o catolicismo, no século XVI, o acervo das abadias inglesas foi reciclado: seus livros eram vendidos como polpa para fabricação de novos volumes. Em segredo, no entanto, um ministro do rei salvou vários títulos. Entre eles, a cópia mais antiga que se conhece de uma das obras fundadoras da literatura inglesa, o poema Beowulf. Em vários momentos da história, ter controle sobre as bibliotecas equivaleu a monopolizar o "mercado intelectual", nas palavras de Battles. Ou seja, a controlar a fonte do conhecimento, do saber. Por isso, a Biblioteca de Alexandria era tratada como assunto de Estado pela dinastia dos Ptolomeus. Os livros dos estrangeiros que visitavam a cidade eram confiscados. Para combater a concorrência da biblioteca de Pérgamo, os governantes de Alexandria proibiram a exportação do papiro, a matéria-prima dos livros, para aquela cidade da Ásia Menor. O tiro acabou saindo pela culatra: em razão do embargo, os concorrentes inventaram o pergaminho, que se tornaria o principal suporte da escrita por muitos séculos.

 
 
 
 
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