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Livros
Saber
em perigo
A história mostra que as bibliotecas
estão longe
de ser os lugares mais
seguros para os livros

Marcelo
Marthe
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| A
Biblioteca do Congresso e imagem da queima de obras astecas:
sempre um assunto de Estado |
Quando
os árabes conquistaram Alexandria, no ano de 641, viram-se
diante de um impasse: que destino dar ao acervo da célebre
biblioteca da cidade egípcia? Consultado, o califa de plantão
determinou: "Se o que vem dito nos livros concorda com o Livro de
Deus, eles são desnecessários; se discorda, são
indesejáveis. Destruam-nos, portanto". Milhares de rolos
de papiro teriam sido queimados, então, transformando-se
em combustível das termas públicas da cidade por seis
meses. Embora seja impossível saber até onde vai a
veracidade dessa história, uma coisa é certa: ao longo
de sua existência, a Biblioteca de Alexandria esteve sujeita
a toda sorte de ataques. Trata-se, aliás, de uma sina que
desde sempre se abateu sobre suas congêneres, como demonstra
o estudioso americano Matthew Battles, no recém-lançado
A Conturbada História das Bibliotecas (tradução
de João Vergílio Gallerani Cuter; Planeta; 240 páginas;
42 reais). O autor traça um panorama que vai das primeiras
coleções de livros de que se tem notícia
que remontam à Mesopotâmia de três milênios
antes de Cristo até as colossais bibliotecas públicas
contemporâneas, como a do Congresso americano, a maior do
mundo, com 100 milhões de obras. Battles examina, sobretudo,
como esses centros de saber se tornaram um bem estratégico
e palco de embates intelectuais. A lição que se tira
de sua investigação é um tanto paradoxal: se
há um lugar em que os livros correm sério risco de
destruição, é nas estantes de uma grande biblioteca.
Em
tempos de guerra ou de perseguições políticas
e religiosas, as bibliotecas estão sempre entre as primeiras
baixas. Em seus esforços para catequizar os astecas, no México
do século XVI, os padres espanhóis destruíram
os equivalentes pré-colombianos das bibliotecas: os santuários
com peças de couro e argila cujas inscrições
em hieróglifos continham parte da memória daquela
civilização. O ditador nazista Adolf Hitler instigou
seus partidários a promover queimas de livros. Durante a
II Guerra, à medida que suas tropas avançavam sobre
outros países, comandos invadiam as bibliotecas locais para
pilhar obras de interesse do Reich e destruir as consideradas subversivas.
Estima-se que os nazistas tenham queimado mais de 100 milhões
de livros. Essa prática bárbara não sai de
cena. Em 1992, na guerra civil da Bósnia, um intelectual
e líder nacionalista sérvio ordenou que se bombardeasse
a principal biblioteca de Sarajevo .que ele próprio
freqüentava, antes do conflito. Em 1998, os fanáticos
do Talibã explodiram uma biblioteca com mais de 50.000 volumes
no norte do Afeganistão.
Muitas obras antigas só se conservaram por pertencer a bibliotecas
que não despertavam atenção, escondidas em
residências e mosteiros, ou graças ao acaso. Quando
o rei Henrique VIII rompeu com o catolicismo, no século XVI,
o acervo das abadias inglesas foi reciclado: seus livros eram vendidos
como polpa para fabricação de novos volumes. Em segredo,
no entanto, um ministro do rei salvou vários títulos.
Entre eles, a cópia mais antiga que se conhece de uma das
obras fundadoras da literatura inglesa, o poema Beowulf.
Em vários momentos da história, ter controle sobre
as bibliotecas equivaleu a monopolizar o "mercado intelectual",
nas palavras de Battles. Ou seja, a controlar a fonte do conhecimento,
do saber. Por isso, a Biblioteca de Alexandria era tratada como
assunto de Estado pela dinastia dos Ptolomeus. Os livros dos estrangeiros
que visitavam a cidade eram confiscados. Para combater a concorrência
da biblioteca de Pérgamo, os governantes de Alexandria proibiram
a exportação do papiro, a matéria-prima dos
livros, para aquela cidade da Ásia Menor. O tiro acabou saindo
pela culatra: em razão do embargo, os concorrentes inventaram
o pergaminho, que se tornaria o principal suporte da escrita por
muitos séculos.
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