Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

Índice
Brasil
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
O negócio deles é o crime

Os produtores Dick Wolf, de Lei & Ordem,
e Jerry Bruckheimer, de C.S.I., dominam
a TV americana


Marcelo Marthe


Divulgação
AP
O elenco de C.S.I.: toda semana em primeiro lugar nos Estados Unidos Dick Wolf, o criador de Lei & Ordem: "É o roteiro, estúpidos!"

Uma disputa sangrenta é travada todas as semanas na televisão americana - e, por tabela, nos canais pagos brasileiros de seriados. Ela envolve dois produtores da pesada que fizeram do crime (ficcional, bem entendido) uma fonte de lucros milionários. Um deles é Dick Wolf, o homem por trás do mais bem-sucedido franchise da história da TV. Trata-se da série criminal Lei & Ordem, que está no ar há treze anos e gerou dois "filhotes" que também fazem muito sucesso: Lei & Ordem: Unidade de Vítimas Especiais e Lei & Ordem: Criminal Intent (as duas primeiras são transmitidas no Brasil pelo canal USA e a última, pelo Sony). O outro nome na disputa é Jerry Bruckheimer. Consagrado, desde os anos 80, como produtor de filmes tão carregados de testosterona quanto desprovidos de tutano, a exemplo de Con Air e Armageddon, ele é responsável pela série de maior audiência nos Estados Unidos no momento: o lúgubre C.S.I., que acompanha o dia-a-dia de uma equipe de legistas da polícia de Las Vegas. Bruckheimer vem seguindo a trilha do concorrente: já criou um derivado direto do programa, C.S.I. Miami (assim como o original, exibido aqui pelo canal Sony), e outro programa que também reza pela cartilha, Without a Trace (do canal Warner). Nos últimos tempos, a dupla transformou a televisão americana num verdadeiro latifúndio: seus seis programas ficam invariavelmente entre os quinze mais assistidos no país - ao mesmo tempo. Eles são vistos por um total de quase 70 milhões de espectadores a cada semana. Isso sem contar as reprises na TV a cabo.

Wolf e Bruckheimer são ex-publicitários e afirmam que, por isso, nunca tiveram pudor em tratar seus programas como produtos. Wolf diz que produzir Lei & Ordem não difere de fabricar sopa em lata. Ao conceber a série, no fim dos anos 80, ele teve uma sacada à qual muitos creditam seu sucesso duradouro. Percebeu que a chave estava em criar episódios curtos cujas tramas não se estendessem para além de sua duração - o que os torna mais atraentes para a televisão a cabo. Não deu outra. Hoje, o seriado é o mais reprisado nos Estados Unidos: todas as suas temporadas estão em exibição em algum canal. Somando-se os episódios inéditos e os repetecos, chega-se à marca de trinta horas semanais de Lei & Ordem. Trata-se também de um programa de baixo custo perto dos concorrentes. Cada episódio sai por 2,4 milhões de dólares - soma modesta para os padrões do gênero, que daria para pagar o salário de apenas dois dos seis protagonistas de Friends. Esperto, Wolf renova o elenco de suas produções com freqüência, o que impede que surjam estrelas com reivindicações de ganhos elevados. "O que faz a diferença é o roteiro, estúpidos!", brinca o produtor sempre que lhe perguntam qual é o segredo da longevidade de Lei & Ordem.

Bruckheimer é tido como a mente mais afinada com a arte de ganhar dinheiro em Hollywood. Desde 1983, quando produziu o sucesso Flashdance, ele vem burilando uma fórmula que os críticos abominam, mas que se tornou sinônimo de bilheterias astronômicas: seus filmes já faturaram quase 6 bilhões de dólares, o que o coloca na posição de produtor mais bem-sucedido de todos os tempos. Suas fitas carregam na adrenalina, nos efeitos pirotécnicos e no patriotismo desbragado, tudo isso embalado numa edição pasteurizada. "Num filme popular, o espectador não pode se cansar nem se distrair por um segundo sequer. Senão, você o perde", diz ele. Na televisão, curiosamente, Bruckheimer demonstrou que é capaz de ousar. C.S.I., que estreou em 2000, é o inverso do que prega o manual dos roteiristas de seriado. Tem uma atmosfera sombria, cuja trama gira em torno de cadáveres e mesas de autópsia. Além disso, não tem cenas de ação. O sucesso foi tão grande que Bruckheimer não tardou em lançar o subproduto C.S.I. Miami. Pelo fato de a série ser inferior e canibalizar a original, o protagonista e co-produtor de C.S.I., William L. Petersen, teria ameaçado abandonar a parceria com Bruckheimer.

No plano pessoal, as diferenças de estilo entre Wolf e Bruckheimer são imensas. Enquanto o primeiro adora dar entrevistas e faz a linha "trator" na administração dos negócios, o segundo é um tipo reservado, de fala mansa e pausada. Até 1996, Bruckheimer era conhecido apenas como o parceiro apagado de uma das figuras mais extravagantes de Hollywood: o produtor Don Simpson, um notório cliente de prostitutas de 5.000 dólares a noitada e que morreu naquele ano de overdose - quase quarenta substâncias tóxicas foram encontradas em seu sangue na autópsia (o que, aliás, renderia um bom episódio de C.S.I.). Antes que Simpson fizesse a besteira de morrer, ele e Bruckheimer emplacaram campeões de bilheteria, como os filmes da série Um Tira da Pesada.

Para Wolf, o sucesso demorou a chegar. Antes de conseguir vender Lei & Ordem à NBC, ele ouviu um não de duas redes americanas. Nos dois primeiros anos, a série foi mal de audiência e perdeu quase todos os anunciantes. Só depois de promover algumas mudanças - como colocar mais mulheres no elenco -, Wolf tirou Lei & Ordem do fundo do poço. Hoje, a maré é bem diferente. Seu programa é o pivô de um meganegócio. Wolf e sua sócia, a Universal, pediram à NBC nada menos do que 1,6 bilhão de dólares para renovar os contratos das três versões do seriado pelos próximos três anos. Pois bem: a General Electric, que controla a emissora, achou que valia mais a pena comprar a própria Universal. A negociação está em andamento e pode ser concluída até o fim do ano.

 
 
 
 
topo voltar