Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Música
Maria do bairro

Com nome e biografia de atriz de
novela mexicana, Mary J. Blige é
a diva da soul music


Ouça a cantora

Imagine uma versão de My Fair Lady, o musical protagonizado por Audrey Hepburn e Rex Harrison, retocada por um noveleiro mexicano. Em seguida, mude a ação para um gueto americano barra-pesada, em que as alternativas de sobrevivência dos adolescentes sejam a criminalidade e o hip hop (o que dá quase na mesma, já que a maioria dos rappers se vangloria de suas ligações com o submundo). Pois bem, o resultado dessa combinação corresponde à biografia de Mary J. Blige. A cantora americana, cujo mais recente CD, Love & Life, chega nesta semana às lojas brasileiras, tem um passado de sofredora. Mary, de 32 anos, nasceu no Bronx, uma região bem pouco simpática de Nova York. Junto com sua irmã, LaTonya, foi largada pelo pai na infância, passou necessidade, cometeu pequenos furtos e sofreu abusos físicos e psicológicos de vários namorados. Se pode haver um aspecto positivo em tantas tragédias, ele está no fato de que elas ajudaram a amalgamar o estilo único de Mary. Quando ela canta sobre as origens pobres ou amaldiçoa um ex-namorado, não deixa dúvida de que está sentindo as emoções da letra. É essa característica que a coloca acima de vocais bonitinhos, mas burocráticos, como Whitney Houston e Mariah Carey.

A carreira artística de Mary J. Blige começou quando, adolescente, arriscou seus dotes vocais numa máquina de karaokê. Foi um sucesso. O namorado de Mary achou que ela tinha talento e mostrou uma cópia da fita para o rapper Puff Daddy, que dava seus primeiros passos como produtor de discos. Puff a contratou na hora e, entre outras coisas, providenciou aulas de boas maneiras para Mary, que não tinha lá grande domínio do garfo e faca. A cantora decretou falência em meados da década passada, sob alegação de que Puff havia se apropriado de muito de seu dinheiro. No final, descobriu-se que ele era inocente. Mary também faz das suas. No início da carreira, ela embebedou Veronica Webb, supermodelo e dublê de jornalista da revista inglesa The Face, durante uma entrevista. Veronica citou o porre na matéria e, por causa disso, recebeu ameaças de morte da cantora. O relacionamento de Mary com o cantor Cedric "K-Ci" Hailey também foi pesado. Era comum ver o casal trocar socos durante shows e festas. Embora Mary não cite nomes, acredita-se que K-Ci tenha sido o namorado que a ameaçou com um revólver e a fez gastar milhares de dólares em drogas.

A sucessão de infelicidades faz parte do apelo de Mary J. junto ao público americano, que já comprou 16 milhões de cópias de seus sete discos. A cantora gosta de gastar dinheiro com relógios cravados de diamantes e roupas de grife. Uma delas, exibida num show em Las Vegas, é uma saia da Rosa Chá, que traz estampada uma bandeira do Brasil (Mary diz adorar o desenho). O CD Love & Life contém uma cota menor de desgraças que os anteriores. Isso porque Mary está de paixão nova (ela não diz de quem se trata), que ela homenageia em Love at First Sight, uma das faixas mais dançantes. O disco sela ainda o retorno de Puff Daddy – com quem a cantora não trabalhava desde 1994 – à produção de seus discos. O resultado é desigual. Muitas das dezenove faixas de Love & Life não fazem jus ao talento da moça. Em compensação, canções como It's a Wrap (em que ela conta como flagrou o ex-namorado chamando a amante no sono), Special Part of Me e Not Today estão entre as melhores que Mary já gravou. O que não é pouco.

 
 
 
 
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