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Música
Maria
do bairro
Com
nome e biografia de atriz de
novela mexicana, Mary J. Blige é
a diva da soul music
Imagine
uma versão de My Fair Lady, o musical protagonizado
por Audrey Hepburn e Rex Harrison, retocada por um noveleiro mexicano.
Em seguida, mude a ação para um gueto americano barra-pesada,
em que as alternativas de sobrevivência dos adolescentes sejam
a criminalidade e o hip hop (o que dá quase na mesma, já
que a maioria dos rappers se vangloria de suas ligações
com o submundo). Pois bem, o resultado dessa combinação
corresponde à biografia de Mary J. Blige. A cantora americana,
cujo mais recente CD, Love & Life, chega nesta semana
às lojas brasileiras, tem um passado de sofredora. Mary,
de 32 anos, nasceu no Bronx, uma região bem pouco simpática
de Nova York. Junto com sua irmã, LaTonya, foi largada pelo
pai na infância, passou necessidade, cometeu pequenos furtos
e sofreu abusos físicos e psicológicos de vários
namorados. Se pode haver um aspecto positivo em tantas tragédias,
ele está no fato de que elas ajudaram a amalgamar o estilo
único de Mary. Quando ela canta sobre as origens pobres ou
amaldiçoa um ex-namorado, não deixa dúvida
de que está sentindo as emoções da letra. É
essa característica que a coloca acima de vocais bonitinhos,
mas burocráticos, como Whitney Houston e Mariah Carey.
A
carreira artística de Mary J. Blige começou quando,
adolescente, arriscou seus dotes vocais numa máquina de karaokê.
Foi um sucesso. O namorado de Mary achou que ela tinha talento e
mostrou uma cópia da fita para o rapper Puff Daddy, que dava
seus primeiros passos como produtor de discos. Puff a contratou
na hora e, entre outras coisas, providenciou aulas de boas maneiras
para Mary, que não tinha lá grande domínio
do garfo e faca. A cantora decretou falência em meados da
década passada, sob alegação de que Puff havia
se apropriado de muito de seu dinheiro. No final, descobriu-se que
ele era inocente. Mary também faz das suas. No início
da carreira, ela embebedou Veronica Webb, supermodelo e dublê
de jornalista da revista inglesa The Face, durante uma entrevista.
Veronica citou o porre na matéria e, por causa disso, recebeu
ameaças de morte da cantora. O relacionamento de Mary com
o cantor Cedric "K-Ci" Hailey também foi pesado. Era comum
ver o casal trocar socos durante shows e festas. Embora Mary não
cite nomes, acredita-se que K-Ci tenha sido o namorado que a ameaçou
com um revólver e a fez gastar milhares de dólares
em drogas.
A
sucessão de infelicidades faz parte do apelo de Mary J. junto
ao público americano, que já comprou 16 milhões
de cópias de seus sete discos. A cantora gosta de gastar
dinheiro com relógios cravados de diamantes e roupas de grife.
Uma delas, exibida num show em Las Vegas, é uma saia da Rosa
Chá, que traz estampada uma bandeira do Brasil (Mary diz
adorar o desenho). O CD Love & Life contém uma
cota menor de desgraças que os anteriores. Isso porque Mary
está de paixão nova (ela não diz de quem se
trata), que ela homenageia em Love at First Sight, uma das
faixas mais dançantes. O disco sela ainda o retorno de Puff
Daddy com quem a cantora não trabalhava desde 1994
à produção de seus discos. O resultado
é desigual. Muitas das dezenove faixas de Love & Life
não fazem jus ao talento da moça. Em compensação,
canções como It's a Wrap (em que ela conta
como flagrou o ex-namorado chamando a amante no sono), Special
Part of Me e Not Today estão entre as melhores
que Mary já gravou. O que não é pouco.
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