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Cinema
Escandalizar
é preciso
Fortíssimo,
chocante, necessário: assim é Irreversível,
o mais polêmico exemplar de
uma safra de filmes que vão além dos limites

Isabela
Boscov
Divulgação
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IRREVERSÍVEL
Monica e seu agressor. Em Cannes, houve quem precisasse ser
socorrido com oxigênio |
Assistir
a Irreversível (Irréversible,
França, 2002), desde sexta-feira em cartaz no país,
é como passar 95 minutos no último círculo
do inferno. O filme começa com dois amigos, Marcus (Vincent
Cassel) e Pierre (Albert Dupontel), percorrendo os subterrâneos
de um clube gay parisiense em busca de um sujeito. Marcus é
todo fúria, Pierre é todo medo do que o companheiro
possa vir a fazer, e a câmera do diretor Gaspar Noé
é, como os dois, toda alteração e desorientação.
Ela só se detém no momento em que há algo de
terrível para olhar. O sujeito é encontrado e, na
briga que se segue, Pierre o golpeia com um extintor de incêndio.
Primeiro para derrubá-lo, e depois para matá-lo, até
que no lugar da cabeça da vítima só reste uma
caverna de ossos e sangue. Nunca o cinema mostrou algo tão
forte e sem cortes nem truques detectáveis. Irreversível,
no entanto, ganhou notoriedade por causa de outra cena. Contado
de trás para a frente, o filme vai aos poucos deslindando
as razões do assassinato. Marcus é casado com Alex
(Monica Bellucci, mulher de Cassel também na vida civil).
Ao atravessar uma passagem subterrânea, ela é estuprada
pelo homem que Marcus e Pierre procuravam. São quase dez
minutos, novamente sem cortes, de um outro tipo de horror. O estuprador
sevicia Alex, xinga-a, chuta-a e bate sua cabeça repetidamente
contra o chão de concreto. Noé então continua
voltando no tempo, para mostrar como uma tarde feliz se transformou
numa noite medonha e como a felicidade, quando vista com
o conhecimento da tragédia, parece quase tão assustadora
quanto esta e amarga ao paladar. Esse sentido metafísico,
porém, é secundário à verdadeira importância
de Irreversível: o olhar direto, sem desvios nem atenuantes,
que ele lança sobre dois dos atos mais brutais que um ser
humano é capaz de cometer.
Divulgação
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INTIMIDADE
O sexo não é gratuito, mas chocou por ser explícito
e por envolver atores sérios |
Lançado
no Festival de Cannes de 2002, Irreversível provocou
reações viscerais na platéia algumas
pessoas tiveram de ser socorridas com oxigênio no saguão
e foi acusado de misoginia, sadismo e exploração
gratuita da violência, entre outras venalidades. O virtuosismo
visual do diretor, segundo essa corrente, seria a prova de suas
más intenções. Gaspar Noé de fato equilibra
seu filme sobre o fio de uma navalha, mas as acusações
são sumamente injustas. O que Noé faz, no caso do
assassinato, é mostrar com todo o horror dos detalhes aquilo
que o cinema (em especial o americano) costuma estilizar e tratar
como entretenimento. No caso do estupro, sua conquista tem mais
valor ainda: se houver alguém na platéia que ainda
dê crédito ao velho mito masculino de que as mulheres
secretamente têm prazer no estupro, Irreversível
deve se encarregar de desfazer de uma vez por todas o equívoco.
O argentino radicado na França Noé diz que seu filme
procura mostrar que o ser humano não é um civilizado
que em determinadas circunstâncias reverte à barbárie,
mas sim um selvagem que em certas ocasiões consegue manter
a aparência de civilização. Para um niilista,
ele atinge objetivos surpreendentemente instrutivos, ainda que a
maioria prefira interpretá-los sob a ótica do choque.
O
escândalo, obviamente, é um velho freqüentador
do cinema, até porque nenhum outro meio é capaz de
submergir o espectador nas situações que retrata com
tanta eficácia. Mas desde o fim dos anos 60 e início
dos 70 a época de Uma Rajada de Balas, O Último
Tango em Paris e o maior de todos os testes de resistência,
o Salò de Pier Paolo Pasolini não se
assistia a um ciclo como o que está em curso agora. Desta
vez, os franceses estão na dianteira. Além de Irreversível,
o país gera polêmica com filmes como Baise-Moi
(um título de tradução impublicável),
em que duas garotas aderem à ultraviolência depois
de um estupro, ou Intimidade, que é adaptado de um
livro do britânico Hanif Kureishi e se passa em Londres, mas
tem direção do francês Patrice Chéreau,
de A Rainha Margot. O filme trata de um barman divorciado
e de uma dona-de-casa de classe trabalhadora, atriz de teatro amador
nas horas vagas, que se encontram no apartamento esquálido
dele todas as quartas-feiras para fazer sexo sem conversa,
sem troca de nomes e aparentemente sem envolvimento. A razão
da controvérsia está nas cenas de sexo explícito
(os críticos ingleses se deram ao trabalho de cronometrá-las,
num total de 35 minutos) e no fato de que elas são desempenhadas
por dois atores sérios a neozelandesa Kerry Fox e
Mark Rylance, que é diretor artístico de uma das instituições
mais caras aos ingleses, o Globe Theatre.
Divulgação
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AOS
TREZE
"Imoral" foi como muitos tacharam a história
autobiográfica de duas garotas que seduzem, roubam e
se drogam |
Se
há uma coisa de que Chéreau não pode ser acusado
é de voyeurismo ou erotização. Sua câmera
não esconde nada, mas também não pára
para perscrutar nenhum detalhe. O sexo do belíssimo Intimidade
traduz as emoções e dilemas dos personagens
especialmente da mulher, que precisa dele para se sentir viva de
novo. Ainda assim, assustou muita gente. Sem distribuidor no Brasil,
o filme pode ser visto apenas no canal a cabo Telecine Emotion,
onde terá nova exibição no dia 21 de outubro,
à 1h10. A dificuldade em separar moralidade de moralismo
cerca também Aos Treze, com estréia prevista
no Brasil para 17 de outubro. Essa nova onda de choque no cinema
pode ser entendida, em boa parte, como resposta à produção
cinematográfica cada vez mais conservadora dos Estados Unidos
e Aos Treze é um dos poucos filmes americanos
recentes que se interessam em ir além das fronteiras habituais.
Ele fala de duas amigas da 7ª série que experimentam
de forma descontrolada a rebeldia típica da idade: drogam-se
e vendem drogas, seduzem, roubam para financiar seu consumismo desenfreado
e, em casa, são só agressão. O filme tem um
pedigree inusitado: é uma narrativa autobiográfica
de Nikki Reed, uma das duas jovens atrizes, que assina Aos Treze
como co-roteirista. A idéia foi da diretora Catherine Hardwicke,
que conhece Nikki desde os 5 anos (ela está com 15) e propôs
o roteiro como uma tentativa de interromper seu comportamento autodestrutivo.
Apesar da autenticidade e do retrato compreensivo da perplexidade
dos pais diante da transformação das filhas ,
muitos americanos se apressaram em tachar o filme de imoral. Mais
certo é que o encarassem como uma oportunidade de ouvir,
em primeira mão, uma faixa da população que
tem notória dificuldade em se comunicar. Ou simplesmente
como o exercício de uma prerrogativa do cinema, sem a qual
ele, ou qualquer outra forma de expressão artística,
perde sua razão de ser: a de extrapolar os limites do que
já é aceito ou considerado aceitável.
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