Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Cinema
Escandalizar é preciso

Fortíssimo, chocante, necessário: assim é Irreversível, o mais polêmico exemplar de
uma safra de filmes que vão além dos limites


Isabela Boscov


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IRREVERSÍVEL
Monica e seu agressor. Em Cannes, houve quem precisasse ser socorrido com oxigênio


Trailer e fotos do filme

Assistir a Irreversível (Irréversible, França, 2002), desde sexta-feira em cartaz no país, é como passar 95 minutos no último círculo do inferno. O filme começa com dois amigos, Marcus (Vincent Cassel) e Pierre (Albert Dupontel), percorrendo os subterrâneos de um clube gay parisiense em busca de um sujeito. Marcus é todo fúria, Pierre é todo medo do que o companheiro possa vir a fazer, e a câmera do diretor Gaspar Noé é, como os dois, toda alteração e desorientação. Ela só se detém no momento em que há algo de terrível para olhar. O sujeito é encontrado e, na briga que se segue, Pierre o golpeia com um extintor de incêndio. Primeiro para derrubá-lo, e depois para matá-lo, até que no lugar da cabeça da vítima só reste uma caverna de ossos e sangue. Nunca o cinema mostrou algo tão forte – e sem cortes nem truques detectáveis. Irreversível, no entanto, ganhou notoriedade por causa de outra cena. Contado de trás para a frente, o filme vai aos poucos deslindando as razões do assassinato. Marcus é casado com Alex (Monica Bellucci, mulher de Cassel também na vida civil). Ao atravessar uma passagem subterrânea, ela é estuprada pelo homem que Marcus e Pierre procuravam. São quase dez minutos, novamente sem cortes, de um outro tipo de horror. O estuprador sevicia Alex, xinga-a, chuta-a e bate sua cabeça repetidamente contra o chão de concreto. Noé então continua voltando no tempo, para mostrar como uma tarde feliz se transformou numa noite medonha – e como a felicidade, quando vista com o conhecimento da tragédia, parece quase tão assustadora quanto esta e amarga ao paladar. Esse sentido metafísico, porém, é secundário à verdadeira importância de Irreversível: o olhar direto, sem desvios nem atenuantes, que ele lança sobre dois dos atos mais brutais que um ser humano é capaz de cometer.


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INTIMIDADE
O sexo não é gratuito, mas chocou por ser explícito e por envolver atores sérios

Lançado no Festival de Cannes de 2002, Irreversível provocou reações viscerais na platéia – algumas pessoas tiveram de ser socorridas com oxigênio no saguão – e foi acusado de misoginia, sadismo e exploração gratuita da violência, entre outras venalidades. O virtuosismo visual do diretor, segundo essa corrente, seria a prova de suas más intenções. Gaspar Noé de fato equilibra seu filme sobre o fio de uma navalha, mas as acusações são sumamente injustas. O que Noé faz, no caso do assassinato, é mostrar com todo o horror dos detalhes aquilo que o cinema (em especial o americano) costuma estilizar e tratar como entretenimento. No caso do estupro, sua conquista tem mais valor ainda: se houver alguém na platéia que ainda dê crédito ao velho mito masculino de que as mulheres secretamente têm prazer no estupro, Irreversível deve se encarregar de desfazer de uma vez por todas o equívoco. O argentino radicado na França Noé diz que seu filme procura mostrar que o ser humano não é um civilizado que em determinadas circunstâncias reverte à barbárie, mas sim um selvagem que em certas ocasiões consegue manter a aparência de civilização. Para um niilista, ele atinge objetivos surpreendentemente instrutivos, ainda que a maioria prefira interpretá-los sob a ótica do choque.

O escândalo, obviamente, é um velho freqüentador do cinema, até porque nenhum outro meio é capaz de submergir o espectador nas situações que retrata com tanta eficácia. Mas desde o fim dos anos 60 e início dos 70 – a época de Uma Rajada de Balas, O Último Tango em Paris e o maior de todos os testes de resistência, o Salò de Pier Paolo Pasolini – não se assistia a um ciclo como o que está em curso agora. Desta vez, os franceses estão na dianteira. Além de Irreversível, o país gera polêmica com filmes como Baise-Moi (um título de tradução impublicável), em que duas garotas aderem à ultraviolência depois de um estupro, ou Intimidade, que é adaptado de um livro do britânico Hanif Kureishi e se passa em Londres, mas tem direção do francês Patrice Chéreau, de A Rainha Margot. O filme trata de um barman divorciado e de uma dona-de-casa de classe trabalhadora, atriz de teatro amador nas horas vagas, que se encontram no apartamento esquálido dele todas as quartas-feiras para fazer sexo – sem conversa, sem troca de nomes e aparentemente sem envolvimento. A razão da controvérsia está nas cenas de sexo explícito (os críticos ingleses se deram ao trabalho de cronometrá-las, num total de 35 minutos) e no fato de que elas são desempenhadas por dois atores sérios – a neozelandesa Kerry Fox e Mark Rylance, que é diretor artístico de uma das instituições mais caras aos ingleses, o Globe Theatre.


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AOS TREZE
"Imoral" foi como muitos tacharam a história autobiográfica de duas garotas que seduzem, roubam e se drogam

Se há uma coisa de que Chéreau não pode ser acusado é de voyeurismo ou erotização. Sua câmera não esconde nada, mas também não pára para perscrutar nenhum detalhe. O sexo do belíssimo Intimidade traduz as emoções e dilemas dos personagens – especialmente da mulher, que precisa dele para se sentir viva de novo. Ainda assim, assustou muita gente. Sem distribuidor no Brasil, o filme pode ser visto apenas no canal a cabo Telecine Emotion, onde terá nova exibição no dia 21 de outubro, à 1h10. A dificuldade em separar moralidade de moralismo cerca também Aos Treze, com estréia prevista no Brasil para 17 de outubro. Essa nova onda de choque no cinema pode ser entendida, em boa parte, como resposta à produção cinematográfica cada vez mais conservadora dos Estados Unidos – e Aos Treze é um dos poucos filmes americanos recentes que se interessam em ir além das fronteiras habituais. Ele fala de duas amigas da 7ª série que experimentam de forma descontrolada a rebeldia típica da idade: drogam-se e vendem drogas, seduzem, roubam para financiar seu consumismo desenfreado e, em casa, são só agressão. O filme tem um pedigree inusitado: é uma narrativa autobiográfica de Nikki Reed, uma das duas jovens atrizes, que assina Aos Treze como co-roteirista. A idéia foi da diretora Catherine Hardwicke, que conhece Nikki desde os 5 anos (ela está com 15) e propôs o roteiro como uma tentativa de interromper seu comportamento autodestrutivo. Apesar da autenticidade – e do retrato compreensivo da perplexidade dos pais diante da transformação das filhas –, muitos americanos se apressaram em tachar o filme de imoral. Mais certo é que o encarassem como uma oportunidade de ouvir, em primeira mão, uma faixa da população que tem notória dificuldade em se comunicar. Ou simplesmente como o exercício de uma prerrogativa do cinema, sem a qual ele, ou qualquer outra forma de expressão artística, perde sua razão de ser: a de extrapolar os limites do que já é aceito ou considerado aceitável.

 
 
 
 
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