Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

Índice
Brasil
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cidades
Beirute renasce
dos escombros

O centro histórico da capital
libanesa é
reconstruído tal
como era antes da guerra

 
Fotos Ayman Trawi
O ANTIGO CAMPO DE BATALHA
A linha de frente da guerra civil passava pela Praça Nijmeh. Acima, o local no início dos anos 90 e, abaixo, como é hoje: a torre do relógio, construída em 1897 e desmontada durante o conflito, foi reerguida


Galeria de fotos

Por quinze anos, entre 1975 e 1990, os libaneses se engalfinharam numa guerra civil entre cristãos e muçulmanos que não deixou vencedores, causou 150.000 mortes e arrasou a capital, Beirute. Dois anos depois do acordo de paz assinado por imposição da Síria, que ainda mantém tropas de ocupação no país, Beirute começou a dar início a uma nova guerra – a da reconstrução do centro da capital, destruído pelo conflito. Praticamente concluída em menos de uma década, a revitalização representou uma intervenção urbana de encher os olhos. A faxina englobou uma área de 4,5 quilômetros quadrados no centro histórico, consumiu 12 bilhões de dólares e atingiu rigorosamente cada prédio, rua e monumento da região. Os vestígios da guerra foram apagados, incluindo os trechos por onde passava a chamada linha verde – a fronteira formada por barricadas e postos de controle que dividiam a cidade de 1,1 milhão de habitantes entre os setores cristão e muçulmano. Montanhas de escombros deram lugar a edifícios novos e vias bem-cuidadas, que passaram a abrigar bares, lojas, bancos e apartamentos residenciais onde vivem 40.000 pessoas.

 
DE RUA FANTASMA A POINT DA MODA
Rua Abdel Malak após a guerra (acima), tomada pelo mato e com marcas de tiros nos prédios; e após a reconstrução (abaixo): reforma transformou a região num pólo de atração turística e de prestação de serviços

O sucesso do programa de reconstrução está baseado na coerência arquitetônica e na fórmula adotada para viabilizá-lo. Em vez de colocar abaixo quarteirões inteiros transformados em ruínas e erguer em seu lugar espigões modernos, foi dada preferência à reconstrução dos edifícios e ruas como eram antes da guerra. Foi uma decisão sábia, pois o centro histórico formava um conjunto harmonioso e de diferentes estilos, erguido entre o fim do século XIX e meados do XX – já sob a influência do domínio francês, que vigorou no Líbano de 1920 até a II Guerra e deu a Beirute a fama de ser a "Paris do Oriente Médio". Basta comparar as imagens do fotógrafo libanês Ayman Trawi feitas logo após o fim da guerra civil com as atuais, tiradas depois da reforma (veja fotos que ilustram estas páginas). O que chama a atenção na reconstrução do centro de Beirute é o fato de que o governo libanês não gastou um centavo na empreitada. Tudo foi bancado pela iniciativa privada, com empenho pessoal do primeiro-ministro Rafik Hariri. Banqueiro de 58 anos, Hariri assumiu a chefia de governo, em 1992, com a obsessão de usar a reconstrução de Beirute para atrair investimentos externos para o país. Para isso, levou ao governo toda a sua experiência de empreendedor – com uma fortuna avaliada em 4 bilhões de dólares, Hariri é o único libanês na lista dos mais ricos da revista americana Forbes.

 
FAXINA URBANA
A construção da Avenida Fouad Chehab foi interrompida pela guerra. Acima, como era no fim do conflito e, abaixo, uma imagem atual

No poder até hoje (com exceção de um breve período entre 1998 e 2000), Hariri aproveitou uma brecha na lei de uso e ocupação do solo da capital para desapropriar toda a região que seria revitalizada. E criou um fundo de investimentos privado, o Solidère, para captar recursos, comercializar os imóveis e gerenciar toda a intervenção urbana – que incluiu a construção de uma marina e a reforma do aeroporto e de um estádio. Hariri deu o exemplo aportando, do próprio bolso, 450 milhões de dólares no Solidère. Para evitar problemas legais com os proprietários dos imóveis desapropriados, o governo ofereceu três alternativas: aceitar o preço estipulado, reconstruir o imóvel com as mesmas características previstas pelo projeto de revitalização ou trocar o valor da desapropriação por ações do Solidère. Os que escolheram a última alternativa se deram bem – no ano passado, o Solidère já começou a apresentar lucros.

 
RECOMEÇANDO DO ZERO
Durante a guerra civil, o estádio de Beirute foi usado como depósito de munição e acabou destruído pela aviação israelense. Acima, criança brinca no estádio, em 1990; abaixo, a festa de reinauguração durante os Jogos Pan-Arábicos, em 1997. O projeto de revitalização do centro histórico de Beirute custou 12 bilhões de dólares e demorou uma década para terminar

As vantagens desse modelo são inegáveis. No plano urbanístico, a centralização do projeto numa única empresa assegurou a preservação do estilo arquitetônico original de Beirute. Ao repassar a tarefa para a iniciativa privada, o governo libanês ganhou fôlego para investir em outras áreas destruídas pela guerra. Aos poucos, Hariri está conseguindo recuperar um país devastado. A economia cresce a um ritmo lento, mas estável, de 1% ao ano, e a renda per capita é de 4.000 dólares, maior que a do Brasil. O grande desafio é desatar o nó político. A convivência entre cristãos e muçulmanos é tensa desde o fim da guerra civil. A paz é assegurada por imposição da Síria e pela rigorosa divisão do poder político entre os grupos religiosos. O presidente, por exemplo, é sempre cristão; e o primeiro-ministro, muçulmano sunita. A esperança é que a revitalização de Beirute inspire os 3,7 milhões de libaneses a preservar a paisagem renovada de hoje e manter no passado as rivalidades étnicas e religiosas que causaram a guerra.

 
 
 
 
topo voltar