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Cidades
Beirute
renasce
dos escombros
O centro histórico da capital
libanesa é reconstruído
tal
como era antes da guerra
Fotos Ayman Trawi
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O
ANTIGO CAMPO DE BATALHA
A linha de frente da guerra civil passava pela Praça Nijmeh.
Acima, o local no início dos anos 90 e, abaixo, como é hoje:
a torre do relógio, construída em 1897 e desmontada durante
o conflito, foi reerguida |
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Por
quinze anos, entre 1975 e 1990, os libaneses se engalfinharam numa
guerra civil entre cristãos e muçulmanos que não
deixou vencedores, causou 150.000 mortes e arrasou a capital, Beirute.
Dois anos depois do acordo de paz assinado por imposição
da Síria, que ainda mantém tropas de ocupação
no país, Beirute começou a dar início a uma
nova guerra a da reconstrução do centro da
capital, destruído pelo conflito. Praticamente concluída
em menos de uma década, a revitalização representou
uma intervenção urbana de encher os olhos. A faxina
englobou uma área de 4,5 quilômetros quadrados no centro
histórico, consumiu 12 bilhões de dólares e
atingiu rigorosamente cada prédio, rua e monumento da região.
Os vestígios da guerra foram apagados, incluindo os trechos
por onde passava a chamada linha verde a fronteira formada
por barricadas e postos de controle que dividiam a cidade de 1,1
milhão de habitantes entre os setores cristão e muçulmano.
Montanhas de escombros deram lugar a edifícios novos e vias
bem-cuidadas, que passaram a abrigar bares, lojas, bancos e apartamentos
residenciais onde vivem 40.000 pessoas.
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DE
RUA FANTASMA A POINT DA MODA
Rua Abdel Malak após a guerra (acima), tomada pelo
mato e com marcas de tiros nos prédios; e após a reconstrução
(abaixo): reforma transformou a região num pólo de atração
turística e de prestação de serviços |
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O
sucesso do programa de reconstrução está baseado
na coerência arquitetônica e na fórmula adotada
para viabilizá-lo. Em vez de colocar abaixo quarteirões
inteiros transformados em ruínas e erguer em seu lugar espigões
modernos, foi dada preferência à reconstrução
dos edifícios e ruas como eram antes da guerra. Foi uma decisão
sábia, pois o centro histórico formava um conjunto
harmonioso e de diferentes estilos, erguido entre o fim do século
XIX e meados do XX já sob a influência do domínio
francês, que vigorou no Líbano de 1920 até a
II Guerra e deu a Beirute a fama de ser a "Paris do Oriente Médio".
Basta comparar as imagens do fotógrafo libanês Ayman
Trawi feitas logo após o fim da guerra civil com as atuais,
tiradas depois da reforma (veja fotos que ilustram estas páginas).
O que chama a atenção na reconstrução
do centro de Beirute é o fato de que o governo libanês
não gastou um centavo na empreitada. Tudo foi bancado pela
iniciativa privada, com empenho pessoal do primeiro-ministro Rafik
Hariri. Banqueiro de 58 anos, Hariri assumiu a chefia de governo,
em 1992, com a obsessão de usar a reconstrução
de Beirute para atrair investimentos externos para o país.
Para isso, levou ao governo toda a sua experiência de empreendedor
com uma fortuna avaliada em 4 bilhões de dólares,
Hariri é o único libanês na lista dos mais ricos
da revista americana Forbes.
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FAXINA
URBANA
A construção da Avenida Fouad Chehab foi interrompida pela guerra.
Acima, como era no fim do conflito e, abaixo, uma imagem atual
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No
poder até hoje (com exceção de um breve período
entre 1998 e 2000), Hariri aproveitou uma brecha na lei de uso e
ocupação do solo da capital para desapropriar toda
a região que seria revitalizada. E criou um fundo de investimentos
privado, o Solidère, para captar recursos, comercializar
os imóveis e gerenciar toda a intervenção urbana
que incluiu a construção de uma marina e a
reforma do aeroporto e de um estádio. Hariri deu o exemplo
aportando, do próprio bolso, 450 milhões de dólares
no Solidère. Para evitar problemas legais com os proprietários
dos imóveis desapropriados, o governo ofereceu três
alternativas: aceitar o preço estipulado, reconstruir o imóvel
com as mesmas características previstas pelo projeto de revitalização
ou trocar o valor da desapropriação por ações
do Solidère. Os que escolheram a última alternativa
se deram bem no ano passado, o Solidère já
começou a apresentar lucros.
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RECOMEÇANDO
DO ZERO
Durante a guerra civil, o estádio de Beirute foi usado como
depósito de munição e acabou destruído pela aviação israelense.
Acima, criança brinca no estádio, em 1990; abaixo, a festa de
reinauguração durante os Jogos Pan-Arábicos, em 1997. O projeto
de revitalização do centro histórico de Beirute custou 12 bilhões
de dólares e demorou uma década para terminar |
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As
vantagens desse modelo são inegáveis. No plano urbanístico,
a centralização do projeto numa única empresa
assegurou a preservação do estilo arquitetônico
original de Beirute. Ao repassar a tarefa para a iniciativa privada,
o governo libanês ganhou fôlego para investir em outras
áreas destruídas pela guerra. Aos poucos, Hariri está
conseguindo recuperar um país devastado. A economia cresce
a um ritmo lento, mas estável, de 1% ao ano, e a renda per
capita é de 4.000 dólares, maior que a do Brasil.
O grande desafio é desatar o nó político. A
convivência entre cristãos e muçulmanos é
tensa desde o fim da guerra civil. A paz é assegurada por
imposição da Síria e pela rigorosa divisão
do poder político entre os grupos religiosos. O presidente,
por exemplo, é sempre cristão; e o primeiro-ministro,
muçulmano sunita. A esperança é que a revitalização
de Beirute inspire os 3,7 milhões de libaneses a preservar
a paisagem renovada de hoje e manter no passado as rivalidades étnicas
e religiosas que causaram a guerra.
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