Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Agricultura
A planta que faz milagres

A história de progresso e riqueza escrita
pelas lavouras de soja no interior do Brasil


José Edward


François Calil
MOVIDO A SOJA
Em duas décadas, o gaúcho Otaviano Pivetta ajudou a construir a cidade de Lucas do Rio Verde – um dos eldorados agrícolas de Mato Grosso. Atual prefeito do município, ele hoje cultiva uma área com 50 000 hectares do grão

Oitenta e cinco famílias gaúchas foram assentadas pelo Incra no meio do nada, no norte de Mato Grosso, a 350 quilômetros de Cuiabá. Diferentemente de assentamentos que tocaram a agricultura de subsistência, esse pequeno núcleo de produtores preferiu plantar soja. Construíram uma lavoura, depois trocaram seus barracos por casas de alvenaria, conseguiram comprar algumas máquinas, ampliaram a superfície plantada, tornaram a área um vilarejo e alcançaram a condição de município. Hoje, a cidade que eles ergueram, Lucas do Rio Verde, de 27.000 habitantes, exibe o quarto melhor índice de desenvolvimento humano entre os 139 municípios do Estado, arrecada para os cofres municipais 21,3 milhões de reais em impostos, tem 80% das ruas asfaltadas e 100% das casas na área urbana com água tratada. Tem também nove ginásios poliesportivos, dez postos de saúde e dez escolas municipais, além de um hospital construído com dinheiro doado por sojicultores. E faz apenas vinte anos que eles começaram. "A soja irriga e aduba a nossa economia aqui", festeja o prefeito Otaviano Pivetta, ele mesmo outro exemplo do crescimento da riqueza na região. Em 1983, Pivetta deixou a cidade gaúcha de Caiçara para levar uma mudança, de caminhão. Gostou, acabou ficando, entrou na agricultura. Hoje tem uma lavoura de 50 000 hectares, o suficiente para encher três navios a cada safra.

A soja proporcionou transformações como essas em várias regiões brasileiras. Responsável por 42% da última safra nacional de grãos, que foi o recorde de todos os tempos, o agronegócio da soja movimenta perto de 45 bilhões de reais por ano no país, uma quantia equivalente ao PIB do Uruguai. O Brasil acaba de ultrapassar os Estados Unidos e tornar-se o maior exportador mundial do produto. A expansão da cultura, iniciada na década de 1960, sobretudo em razão da demanda por óleo vegetal para substituir a banha de porco, começou no Rio Grande do Sul, avançou sobre Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul nos primeiros dez anos. Mas explodiu mesmo na década seguinte, quando tecnologias desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária e entidades dos produtores permitiram à cultura expandir-se pelas regiões de cerrado. Hoje, já faz divisa com as franjas da Floresta Amazônica e assusta ambientalistas, como registrou recentemente o diário americano New York Times. "Esse grãozinho foi responsável pelo desbravamento de promissoras fronteiras agrícolas, pela conquista de novos mercados e pela incorporação de modernas tecnologias ao campo", diz o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que também tem uma área plantada de 4.000 hectares de soja na região de Balsas, no sul do Maranhão. Juntando todas as fazendas brasileiras em que se produz soja, tem-se um território equivalente às áreas de Portugal e Hungria juntos.


Kiko Ferrite
TERRA FÉRTIL
O americano Douglas Ferrel, de 48 anos, desembarcou no Brasil em 1974, com um capital de 30 000 dólares. Investiu uma parte na prestação de serviços com uma colheitadeira de soja e hoje é dono de 32 000 hectares de terras em Goiás e em Mato Grosso

Mato Grosso é um símbolo desse milagre e tem como governador o mais novo rei da soja, o paranaense Blairo Maggi, de 47 anos, cuja fortuna foi feita no Estado. Recentemente, Blairo arrebatou do empresário Olacyr de Moraes o título de o maior produtor individual de soja do mundo, colhendo 300.000 toneladas em um único ano. Sua base eleitoral são outros milhares de migrantes do sul do país que levaram para o Estado a capacidade técnica para aproveitar bem a topografia plana, propícia à mecanização, e um clima quase perfeito para a agricultura, com chuvas regulares e insolação o ano inteiro. Rapidamente, velhos latifúndios, que só rendiam desmatamento, garimpos poluidores e gado maltratado, deram lugar a fazendas profissionalizadas e aos homogêneos campos verdes entremeados de cidades promissoras. Numa das propriedades da família Maggi nasceu, por exemplo, a pequena Sapezal, uma vila de colonos que evoluiu para município, hoje com 12.000 habitantes. Com nove anos de emancipação, o lugar já é o terceiro maior celeiro de soja do Estado. Cidade planejada, tem quase todas as ruas asfaltadas e rede de telefonia com cabos de fibra óptica. Desde a divisão do Estado, em 1979, a população de Mato Grosso cresceu uma vez e meia, alcançando 2,7 milhões de habitantes. Nesse mesmo período, a arrecadação do imposto de circulação de mercadorias e serviços no Estado aumentou cerca de 5.000%, chegando a 2 bilhões de reais. Metade desse dinheiro tem origem nos negócios ligados à soja. Um relatório da ONU já mostrou que as cidades que brotaram com a soja possuem mais qualidade de vida, melhores indicadores sociais e renda per capita mais alta que no restante de Mato Grosso. A lavoura e a industrialização do grão geram 265.000 empregos. Para melhorar ainda mais a vida do Estado, que também é o primeiro na produção de algodão e o segundo na de arroz, a soja, na entressafra, permite a cultura de milho, aumentando o ganho dos agricultores. "A soja fixa o nitrogênio e deixa vários nutrientes no solo", explica o pesquisador Amélio Dall'Agnol, da Embrapa.

Milhares de empreendedores têm encontrado uma chance de testar a sorte nos negócios na região. Na cidade mato-grossense de Lucas do Rio Verde, o goiano Orcival Guimarães, hoje com 46 anos, escreveu uma biografia de progresso espantoso. Há pouco mais de duas décadas, ganhava dois salários mínimos vendendo peças para trator. Agora é proprietário de seis revendedoras de máquinas e equipamentos agrícolas, mais 10.000 hectares de terra e 5.000 cabeças de gado. No ano passado, seus negócios renderam mais de 80 milhões de reais. A tecnologia desenvolvida nas últimas décadas fez a Orcival e seus colegas desbravadores um milagre semelhante ao produzido pela soja. Antes de se mudar para Mato Grosso, ele cultivava com o pai e oito irmãos uma roça de milho e feijão no interior de Goiás, à base da enxada e do arado com tração animal. Só uma colheitadeira de algodão das que utiliza atualmente é capaz de fazer, num único dia, o trabalho de mais de 500 homens, pilotada por empregado que desfruta ar-condicionado a bordo, câmbio automático e equipamento de GPS – o sistema de posicionamento global que orienta o trabalhador num lugar em que todo o horizonte é um manto verde e uniforme.

Ernesto Rodrigues/AE
O PESO-PESADO
Depois de fazer fortuna com o agronegócio e arrebatar o título de rei da soja do empresário Olacyr de Moraes, o paranaense Blairo Maggi, de 47 anos, elegeu-se governador de Mato Grosso. Na última safra, suas fazendas produziram 300 000 toneladas de soja


Muitas localidades já vivem a fase posterior ao sucesso na agricultura, aquela em que a primeira onda de prosperidade atrai indústrias que multiplicam ainda mais a riqueza. No eixo de um conglomerado de dezoito cidades nas quais a soja injetou 1 bilhão de reais na última safra, o município goiano de Rio Verde tornou-se um pólo de atração para as fábricas. Ali, nos últimos quatro anos, empresas como a Perdigão criaram mais de 6.000 empregos diretos. Há cinco edifícios de apartamentos em construção na cidade, com preço médio de 250.000 reais. Todas as unidades foram vendidas na planta. O americano Douglas Ferrel, de 48 anos, sente-se como um pioneiro do Oeste de seu país reeditado nos trópicos. Nascido em Maryland, numa família de agricultores, ele desembarcou no Brasil em 1974, com 30.000 dólares no bolso. Comprou uma caminhonete e uma colheitadeira e passou a prestar serviços para produtores da região de Ponta Grossa, no Paraná. Em menos de uma década, já possuía uma fazenda de 3.200 hectares em Rio Verde, onde passou a plantar soja. O preço do hectare na região decuplicou desde então. Os negócios de Ferrel com soja, milho e bois, também. Seu patrimônio já alcança os 15 milhões de dólares. A extensão de suas terras multiplicou-se por dez. "Nos Estados Unidos quase não há mais oportunidades para fazer fortuna nessa velocidade", ele compara.

Os desbravadores da soja já avançam para além do Brasil central, na direção do Norte e Nordeste. No chamado corredor de exportação norte – integrado por Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará – começam a brotar as plantações e seus primeiros resultados. Em Uruçuí, no sudoeste do Piauí, a multinacional Bunge Alimentos está investindo 420 milhões de reais na implantação de um complexo agroindustrial. A planta estará inteiramente pronta em 2007, mas muitas ruas foram asfaltadas nos últimos cinco anos, o comércio tem ritmo frenético e as casinhas modestas convivem com as instalações de uma unidade da Universidade Estadual do Piauí, com cinco cursos superiores. "Já temos até celular e internet", entusiasma-se a prefeita, Maria do Espírito Santo.

Num outro ponto, no oeste da Bahia, a 900 quilômetros de Salvador, as lavouras de soja já ocupam quase 1 milhão de hectares. Uma parte é do paranaense Walter Horita, de 40 anos, que migrou para lá em 1984. Formado em engenharia mecânica e atento aos riscos da monocultura, ele tem também 6.500 hectares de algodão. "Há grande demanda no exterior pelo algodão brasileiro, mas sem a soja não teríamos nenhum progresso por aqui", diz Horita. A cidade de Luís Eduardo Magalhães, naquela região, é uma surpresa para quem a viu ainda como um distrito de Barreiras, alguns anos atrás. O melhor comércio do lugar era um posto de gasolina. Agora, com 35.000 habitantes, o município abriga, entre outros, vários grupos americanos que cultivam soja, catorze agroindústrias e concessionárias das principais indústrias de máquinas e implementos agrícolas. Cerca de 15% dos moradores têm renda superior a vinte salários mínimos e mais de duas centenas freqüentam uma faculdade particular que oferece cursos de filosofia e administração do agronegócio – entre os estudantes está o prefeito Oziel Oliveira. "Tenho de me atualizar para acompanhar o progresso", ele justifica.

A Região Sul do país é precursora do novo capítulo relativo à soja, o dos transgênicos. A legislação regular ainda não permite o uso de sementes geneticamente modificadas, mas estima-se que mais da metade das lavouras gaúchas já as adotem. Foi necessária uma medida provisória, em março, para permitir a venda do resultado dessas culturas. Em Brasília há uma queda-de-braço entre o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, favorável à liberação dos transgênicos, e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, contrária (veja o quadro). A solução dessa confusão pode fazer muita diferença num país que está de olho no crescimento de 4% da demanda mundial de soja a cada ano. Só a importação da China cresceu 27% na última safra. Rica em proteína, barata e fácil de misturar a dezenas de outros alimentos, ela é uma das melhores alternativas para alimentar animais, produzir óleo e dar origem a subprodutos. O país da soja, que deve exportar mais de 8 bilhões de dólares do grão neste ano, está aí para fazer negócios com quem precisar.

 

Com reportagem de Leonardo Coutinho,
de Lucas do Rio Verde

 

A polêmica dos transgênicos

Ficou demonstrado na semana passada que a questão dos transgênicos é séria demais para ser entregue a gestores com o discernimento do vice-presidente José Alencar. Mesmo havendo um amplo acordo para a assinatura de uma medida provisória liberando o plantio de soja transgênica em pelo menos mais uma safra, com sementes já compradas pelos produtores, o presidente em exercício refugou, montou comissão de última hora e procrastinou o que pôde diante da responsabilidade.

Do ponto de vista da ciência, passada quase uma década do advento das culturas de transgênicos em vários países, entre eles a Argentina e os Estados Unidos, essa incerteza de Alencar é quase uma superstição. "Não há estudo que tenha descoberto um mal para o consumidor ou um dano ao meio ambiente decorrente dos transgênicos", diz o pesquisador Elíbio Rech, do departamento de recursos genéticos e biotecnologia da Embrapa. No desenvolvimento de um produto desses, os especialistas induzem a planta, por engenharia genética, a tornar-se mais nutritiva, produtiva ou resistente a algum inimigo. No caso da soja Roundup Ready, criada pela multinacional Monsanto, o que se fez foi dar à variedade a capacidade de resistir ao herbicida Roundup, que a própria empresa fabrica. Assim, o produto pode ser aplicado sobre a plantação para matar ervas daninhas. Mais limpa, a lavoura torna-se também mais produtiva e rentável.

O outro argumento contra os transgênicos é econômico e parte do temor de que as empresas que desenvolvem sementes venham a controlar e explorar os países produtores quando eles estiverem totalmente dependentes das variedades modificadas. Essa é uma das questões a resolver com uma proposta de legislação definitiva sobre o assunto, coisa que o governo vem prometendo fazer desde a edição da medida provisória que permitiu a comercialização dos transgênicos da última safra de soja. Mas não fez ainda.

 

 
 
 
 
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