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Agricultura
A
planta que faz milagres
A
história de progresso e riqueza escrita
pelas lavouras de soja no interior do Brasil

José
Edward
François Calil
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MOVIDO
A SOJA
Em duas décadas, o gaúcho Otaviano Pivetta ajudou
a construir a cidade de Lucas do Rio Verde um dos eldorados
agrícolas de Mato Grosso. Atual prefeito do município,
ele hoje cultiva uma área com 50 000 hectares do grão
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Oitenta
e cinco famílias gaúchas foram assentadas pelo Incra
no meio do nada, no norte de Mato Grosso, a 350 quilômetros
de Cuiabá. Diferentemente de assentamentos que tocaram a
agricultura de subsistência, esse pequeno núcleo de
produtores preferiu plantar soja. Construíram uma lavoura,
depois trocaram seus barracos por casas de alvenaria, conseguiram
comprar algumas máquinas, ampliaram a superfície plantada,
tornaram a área um vilarejo e alcançaram a condição
de município. Hoje, a cidade que eles ergueram, Lucas do
Rio Verde, de 27.000 habitantes, exibe o quarto
melhor índice de desenvolvimento humano entre os 139 municípios
do Estado, arrecada para os cofres municipais 21,3 milhões
de reais em impostos, tem 80% das ruas asfaltadas e 100% das casas
na área urbana com água tratada. Tem também
nove ginásios poliesportivos, dez postos de saúde
e dez escolas municipais, além de um hospital construído
com dinheiro doado por sojicultores. E faz apenas vinte anos que
eles começaram. "A soja irriga e aduba a nossa economia aqui",
festeja o prefeito Otaviano Pivetta, ele mesmo outro exemplo do
crescimento da riqueza na região. Em 1983, Pivetta deixou
a cidade gaúcha de Caiçara para levar uma mudança,
de caminhão. Gostou, acabou ficando, entrou na agricultura.
Hoje tem uma lavoura de 50 000 hectares, o suficiente para encher
três navios a cada safra.
A
soja proporcionou transformações como essas em várias
regiões brasileiras. Responsável por 42% da última
safra nacional de grãos, que foi o recorde de todos os tempos,
o agronegócio da soja movimenta perto de 45 bilhões
de reais por ano no país, uma quantia equivalente ao PIB
do Uruguai. O Brasil acaba de ultrapassar os Estados Unidos e tornar-se
o maior exportador mundial do produto. A expansão da cultura,
iniciada na década de 1960, sobretudo em razão da
demanda por óleo vegetal para substituir a banha de porco,
começou no Rio Grande do Sul, avançou sobre Santa
Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul nos
primeiros dez anos. Mas explodiu mesmo na década seguinte,
quando tecnologias desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária e entidades dos produtores permitiram à
cultura expandir-se pelas regiões de cerrado. Hoje, já
faz divisa com as franjas da Floresta Amazônica e assusta
ambientalistas, como registrou recentemente o diário americano
New York Times. "Esse grãozinho foi responsável
pelo desbravamento de promissoras fronteiras agrícolas, pela
conquista de novos mercados e pela incorporação de
modernas tecnologias ao campo", diz o ministro da Agricultura, Roberto
Rodrigues, que também tem uma área plantada de 4.000
hectares de soja na região de Balsas, no sul do Maranhão.
Juntando todas as fazendas brasileiras em que se produz soja, tem-se
um território equivalente às áreas de Portugal
e Hungria juntos.
Kiko Ferrite
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TERRA
FÉRTIL
O americano Douglas Ferrel, de 48 anos, desembarcou no Brasil
em 1974, com um capital de 30 000 dólares. Investiu uma
parte na prestação de serviços com uma
colheitadeira de soja e hoje é dono de 32 000 hectares
de terras em Goiás e em Mato Grosso |
Mato
Grosso é um símbolo desse milagre e tem como governador
o mais novo rei da soja, o paranaense Blairo Maggi, de 47 anos,
cuja fortuna foi feita no Estado. Recentemente, Blairo arrebatou
do empresário Olacyr de Moraes o título de o maior
produtor individual de soja do mundo, colhendo 300.000
toneladas em um único ano. Sua base eleitoral são
outros milhares de migrantes do sul do país que levaram para
o Estado a capacidade técnica para aproveitar bem a topografia
plana, propícia à mecanização, e um
clima quase perfeito para a agricultura, com chuvas regulares e
insolação o ano inteiro. Rapidamente, velhos latifúndios,
que só rendiam desmatamento, garimpos poluidores e gado maltratado,
deram lugar a fazendas profissionalizadas e aos homogêneos
campos verdes entremeados de cidades promissoras. Numa das propriedades
da família Maggi nasceu, por exemplo, a pequena Sapezal,
uma vila de colonos que evoluiu para município, hoje com
12.000 habitantes. Com nove anos de emancipação,
o lugar já é o terceiro maior celeiro de soja do Estado.
Cidade planejada, tem quase todas as ruas asfaltadas e rede de telefonia
com cabos de fibra óptica. Desde a divisão do Estado,
em 1979, a população de Mato Grosso cresceu uma vez
e meia, alcançando 2,7 milhões de habitantes. Nesse
mesmo período, a arrecadação do imposto de
circulação de mercadorias e serviços no Estado
aumentou cerca de 5.000%, chegando a 2 bilhões
de reais. Metade desse dinheiro tem origem nos negócios ligados
à soja. Um relatório da ONU já mostrou que
as cidades que brotaram com a soja possuem mais qualidade de vida,
melhores indicadores sociais e renda per capita mais alta que no
restante de Mato Grosso. A lavoura e a industrialização
do grão geram 265.000 empregos. Para
melhorar ainda mais a vida do Estado, que também é
o primeiro na produção de algodão e o segundo
na de arroz, a soja, na entressafra, permite a cultura de milho,
aumentando o ganho dos agricultores. "A soja fixa o nitrogênio
e deixa vários nutrientes no solo", explica o pesquisador
Amélio Dall'Agnol, da Embrapa.
Milhares
de empreendedores têm encontrado uma chance de testar a sorte
nos negócios na região. Na cidade mato-grossense de
Lucas do Rio Verde, o goiano Orcival Guimarães, hoje com
46 anos, escreveu uma biografia de progresso espantoso. Há
pouco mais de duas décadas, ganhava dois salários
mínimos vendendo peças para trator. Agora é
proprietário de seis revendedoras de máquinas e equipamentos
agrícolas, mais 10.000 hectares de terra
e 5.000 cabeças de gado. No ano passado,
seus negócios renderam mais de 80 milhões de reais.
A tecnologia desenvolvida nas últimas décadas fez
a Orcival e seus colegas desbravadores um milagre semelhante ao
produzido pela soja. Antes de se mudar para Mato Grosso, ele cultivava
com o pai e oito irmãos uma roça de milho e feijão
no interior de Goiás, à base da enxada e do arado
com tração animal. Só uma colheitadeira de
algodão das que utiliza atualmente é capaz de fazer,
num único dia, o trabalho de mais de 500 homens, pilotada
por empregado que desfruta ar-condicionado a bordo, câmbio
automático e equipamento de GPS o sistema de posicionamento
global que orienta o trabalhador num lugar em que todo o horizonte
é um manto verde e uniforme.
Ernesto Rodrigues/AE
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O
PESO-PESADO
Depois de fazer fortuna com o agronegócio e arrebatar
o título de rei da soja do empresário Olacyr de
Moraes, o paranaense Blairo Maggi, de 47 anos, elegeu-se governador
de Mato Grosso. Na última safra, suas fazendas produziram
300 000 toneladas de soja |
Muitas localidades já vivem a fase posterior ao sucesso na
agricultura, aquela em que a primeira onda de prosperidade atrai
indústrias que multiplicam ainda mais a riqueza. No eixo
de um conglomerado de dezoito cidades nas quais a soja injetou 1
bilhão de reais na última safra, o município
goiano de Rio Verde tornou-se um pólo de atração
para as fábricas. Ali, nos últimos quatro anos, empresas
como a Perdigão criaram mais de 6.000
empregos diretos. Há cinco edifícios de apartamentos
em construção na cidade, com preço médio
de 250.000 reais. Todas as unidades foram vendidas
na planta. O americano Douglas Ferrel, de 48 anos, sente-se como
um pioneiro do Oeste de seu país reeditado nos trópicos.
Nascido em Maryland, numa família de agricultores, ele desembarcou
no Brasil em 1974, com 30.000 dólares
no bolso. Comprou uma caminhonete e uma colheitadeira e passou a
prestar serviços para produtores da região de Ponta
Grossa, no Paraná. Em menos de uma década, já
possuía uma fazenda de 3.200 hectares
em Rio Verde, onde passou a plantar soja. O preço do hectare
na região decuplicou desde então. Os negócios
de Ferrel com soja, milho e bois, também. Seu patrimônio
já alcança os 15 milhões de dólares.
A extensão de suas terras multiplicou-se por dez. "Nos Estados
Unidos quase não há mais oportunidades para fazer
fortuna nessa velocidade", ele compara.
Os
desbravadores da soja já avançam para além
do Brasil central, na direção do Norte e Nordeste.
No chamado corredor de exportação norte integrado
por Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará
começam a brotar as plantações e seus primeiros
resultados. Em Uruçuí, no sudoeste do Piauí,
a multinacional Bunge Alimentos está investindo 420 milhões
de reais na implantação de um complexo agroindustrial.
A planta estará inteiramente pronta em 2007, mas muitas ruas
foram asfaltadas nos últimos cinco anos, o comércio
tem ritmo frenético e as casinhas modestas convivem com as
instalações de uma unidade da Universidade Estadual
do Piauí, com cinco cursos superiores. "Já temos até
celular e internet", entusiasma-se a prefeita, Maria do Espírito
Santo.
Num
outro ponto, no oeste da Bahia, a 900 quilômetros de Salvador,
as lavouras de soja já ocupam quase 1 milhão de hectares.
Uma parte é do paranaense Walter Horita, de 40 anos, que
migrou para lá em 1984. Formado em engenharia mecânica
e atento aos riscos da monocultura, ele tem também 6.500
hectares de algodão. "Há grande demanda no exterior
pelo algodão brasileiro, mas sem a soja não teríamos
nenhum progresso por aqui", diz Horita. A cidade de Luís
Eduardo Magalhães, naquela região, é uma surpresa
para quem a viu ainda como um distrito de Barreiras, alguns anos
atrás. O melhor comércio do lugar era um posto de
gasolina. Agora, com 35.000 habitantes, o município
abriga, entre outros, vários grupos americanos que cultivam
soja, catorze agroindústrias e concessionárias das
principais indústrias de máquinas e implementos agrícolas.
Cerca de 15% dos moradores têm renda superior a vinte salários
mínimos e mais de duas centenas freqüentam uma faculdade
particular que oferece cursos de filosofia e administração
do agronegócio entre os estudantes está o prefeito
Oziel Oliveira. "Tenho de me atualizar para acompanhar o progresso",
ele justifica.
A
Região Sul do país é precursora do novo capítulo
relativo à soja, o dos transgênicos. A legislação
regular ainda não permite o uso de sementes geneticamente
modificadas, mas estima-se que mais da metade das lavouras gaúchas
já as adotem. Foi necessária uma medida provisória,
em março, para permitir a venda do resultado dessas culturas.
Em Brasília há uma queda-de-braço entre o ministro
da Agricultura, Roberto Rodrigues, favorável à liberação
dos transgênicos, e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva,
contrária (veja
o quadro). A solução dessa confusão
pode fazer muita diferença num país que está
de olho no crescimento de 4% da demanda mundial de soja a cada ano.
Só a importação da China cresceu 27% na última
safra. Rica em proteína, barata e fácil de misturar
a dezenas de outros alimentos, ela é uma das melhores alternativas
para alimentar animais, produzir óleo e dar origem a subprodutos.
O país da soja, que deve exportar mais de 8 bilhões
de dólares do grão neste ano, está aí
para fazer negócios com quem precisar.
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Com
reportagem de Leonardo Coutinho,
de Lucas do Rio Verde
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A
polêmica dos transgênicos
Ficou
demonstrado na semana passada que a questão dos
transgênicos é séria demais para
ser entregue a gestores com o discernimento do vice-presidente
José Alencar. Mesmo havendo um amplo acordo para
a assinatura de uma medida provisória liberando
o plantio de soja transgênica em pelo menos mais
uma safra, com sementes já compradas pelos produtores,
o presidente em exercício refugou, montou comissão
de última hora e procrastinou o que pôde
diante da responsabilidade.
Do ponto de vista da ciência, passada quase uma
década do advento das culturas de transgênicos
em vários países, entre eles a Argentina
e os Estados Unidos, essa incerteza de Alencar é
quase uma superstição. "Não há
estudo que tenha descoberto um mal para o consumidor
ou um dano ao meio ambiente decorrente dos transgênicos",
diz o pesquisador Elíbio Rech, do departamento
de recursos genéticos e biotecnologia da Embrapa.
No desenvolvimento de um produto desses, os especialistas
induzem a planta, por engenharia genética, a
tornar-se mais nutritiva, produtiva ou resistente a
algum inimigo. No caso da soja Roundup Ready, criada
pela multinacional Monsanto, o que se fez foi dar à
variedade a capacidade de resistir ao herbicida Roundup,
que a própria empresa fabrica. Assim, o produto
pode ser aplicado sobre a plantação para
matar ervas daninhas. Mais limpa, a lavoura torna-se
também mais produtiva e rentável.
O outro argumento contra os transgênicos é
econômico e parte do temor de que as empresas
que desenvolvem sementes venham a controlar e explorar
os países produtores quando eles estiverem totalmente
dependentes das variedades modificadas. Essa é
uma das questões a resolver com uma proposta
de legislação definitiva sobre o assunto,
coisa que o governo vem prometendo fazer desde a edição
da medida provisória que permitiu a comercialização
dos transgênicos da última safra de soja.
Mas não fez ainda.
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