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Restaurantes
Próxima
parada,
Beverly Hills
As
lições empresariais de uma rede
brasileira de churrascarias que faz
sucesso nos Estados Unidos

Leandra
Peres
Claudio Rossi
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| Arri
Coser (no centro à esq.) e Aleixo Ongaratto: empréstimo
a 6% ao ano |
São
muitas as histórias de empresários que montaram um
negócio saindo do nada e acabaram se tornando pessoas bem-sucedidas.
Observada pelo ângulo estrito da ascensão social, a
trajetória dos sócios da churrascaria Fogo de Chão,
que agora se preparam para abrir o quinto restaurante nos Estados
Unidos, apenas engrossaria as estatísticas sobre os empreendedores
de origem humilde que chegaram lá. Os quatro fundadores da
empresa que hoje fatura 120 milhões de reais por ano são
filhos de pequenos agricultores gaúchos que antes de fazer
fortuna trabalharam como garçom. Mas o caso dessa rede de
churrascarias comporta uma análise em separado, pois a Fogo
de Chão trilhou um caminho que deixa ensinamentos significativos
acerca das decisões que empresas por menores que sejam precisam
tomar para deixar de ser um número no caso, mais uma
churrascaria gaúcha no estilo rodízio e se
tornar uma referência em seu campo de atuação.
Álbum de família
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| George
Bush, em Houston: fă do churrasco e da caipirinha |
Os irmãos Arri e Jair Coser moravam em Aparecida, no interior
de São Paulo, em 1976. Arri, o mais novo, lavava pratos e
ganhava 600 reais por mês numa churrascaria de estrada. Ao
se mudar para o Rio de Janeiro, onde viveram algum tempo, conheceram
os outros dois sócios, Aleixo e Jorge Ongaratto. A primeira
Fogo de Chão foi aberta em 1980, em Porto Alegre, já
com uma característica que a distinguia das demais casas
do ramo. Desde o começo, os sócios do restaurante
intuíram que a estratégia vencedora passava por apostar
num público de alto poder aquisitivo. No tempo em que rodízio
era sinônimo de restaurante barato de beira de estrada, a
Fogo de Chão investiu na compra de carnes mais caras e macias
em troca de um almoço ou jantar mais caro para o consumidor.
Na chegada a São Paulo, ainda na década de 1980, os
sócios repetiram a fórmula, dando atenção
aos interesses do freguês de classe média alta. No
começo dos anos 1990, foram um dos primeiros a entender a
capacidade de atração que uma carta de vinhos exerce
sobre a clientela de maior poder aquisitivo.
Além
de se diferenciarem ao definir os mais ricos como público-alvo,
os sócios tomaram algumas decisões administrativas
pioneiras para empresas pequenas, ainda mais quando são churrascarias.
A primeira medida ousada dos sócios foi afastar os parentes
da administração. "Nossas mulheres até pagam
a conta quando comem em nossos restaurantes", diz um dos sócios
da empresa, Arri Coser. "Precisamos separar a empresa dos acionistas
como forma de preservar a companhia." A decisão partiu de
outra percepção igualmente intuitiva de que a presença
de parentes entre os funcionários acaba desmotivando a equipe.
"Quando um parente é promovido, fica sempre a impressão
de que seu aumento de salário se deveu a razões sanguíneas",
afirma Arri. Trata-se de decisão que grandes companhias hesitam
em adotar. E em muitos casos essa hesitação acaba
levando a empresa à morte. Um levantamento feito nos Estados
Unidos alguns anos atrás mostra que apenas 15% das maiores
companhias americanas de controle familiar dos anos 1920 permaneciam
nas mãos da família nos anos 1980.
O
maior desafio empresarial do grupo, no entanto, foi expandir os
negócios para os EUA. Existem várias churrascarias
brasileiras no exterior, muitas localizadas nos Estados Unidos.
Uma delas, a Porcão, funciona em Miami há muitos anos
e faz sucesso na colônia brasileira. A Fogo de Chão
não seguiu o mesmo caminho e abriu restaurantes voltados
para o público americano. A primeira loja está localizada
em Dallas, no Estado do Texas. A cidade, famosa pelo grande número
de steak houses (restaurantes que servem carne), absorveu o rodízio
com gosto. Na imprensa local, os críticos gastronômicos
descrevem a Fogo de Chão como uma casa exótica onde
os garçons se vestem como caubóis brasileiros. Em
Dallas, a empresa disputa a clientela com outra churrascaria rodízio
brasileira, a Boi na Braza (com "z" mesmo). O Texas acabou ganhando
uma segunda Fogo de Chão, em Houston, onde tem entre seus
fregueses mais famosos o ex-presidente e pai do atual presidente
americano George Bush, que adora picanha e caipirinha. A terceira
casa foi aberta em Atlanta, a quarta em Chicago. De acordo com os
últimos números, a rede já atende mais americanos
do que brasileiros. São 960.000
refeições vendidas anualmente nos Estados Unidos contra
420.000 no Brasil. A participação
americana deve aumentar no ano que vem com a abertura da quinta
loja, localizada num charmoso endereço em Beverly Hills,
na Califórnia.
O
acesso ao mercado americano deu aos irmãos Coser e Ongaratto
a percepção exata sobre o custo do dinheiro, noção
que grandes empresas com operação no exterior possuem
há muito tempo. A rede até poderia se expandir com
maior velocidade no Brasil, mas a taxa de juros cobrada pelos bancos
inviabiliza as tentativas. Para evitar o risco, as novas lojas no
Brasil são financiadas com o reinvestimento do lucro obtido
na operação. Já nos EUA, os sócios conseguem
pegar dinheiro a 6% ao ano, com mais de dez anos de prazo para pagar.
"Quem pega dinheiro emprestado no Brasil acaba quebrando, não
tem jeito", diz Arri Coser.
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