Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Juros
À espera da arrancada

Elogiada no exterior, a política econômica
de Lula ainda não encenou o "espetáculo
do crescimento"


AP
John Snow, secretário do Tesouro dos EUA, e James Wolfensohn, do Banco Mundial: aplausos ao Brasil


Notícias diárias sobre economia

A economia brasileira parou no primeiro semestre e a previsão é que volte a crescer em bom ritmo em 2004. Mas e até chegar lá? Os três últimos meses de 2003 parecem ter sido apagados do calendário das empresas no que diz respeito a investimentos e contratações. Segundo os analistas, o fenômeno tem raízes no clima recessivo dos seis primeiros meses do ano, quando as empresas amargaram prejuízos operacionais e depreciação forte do patrimônio provocados pela inflação alta. A ordem agora é melhorar os balanços com mais cortes de gastos. "Muitas companhias optaram por reduzir os investimentos mesmo sabendo que isso representa largar em uma posição menos favorável quando o consumo começar a reagir", diz Paulo Giovanni, presidente da Giovanni, FCB, uma das oito maiores agências de publicidade do Brasil. As sementes do crescimento estão lançadas. A inflação está sob controle, o remédio dos juros ministrado pelo Banco Central está menos amargo e o custo do dinheiro para pessoas físicas e empresas, ainda exorbitante, vem caindo dia a dia.

Um estudo do Banco Central mostra que as taxas de juro cobradas pelas instituições financeiras para o crédito pessoal caíram de 92% ao ano em julho para 84% neste mês. A queda é muito pequena e não tem poder de incentivar as pessoas a consumir, até porque o outro fator disparador das compras, a confiança, anda em baixa. No Brasil, esse fator é medido indiretamente pelo índice de desemprego, que, na semana passada, atingiu o recorde de 13%. Mas não se deve menosprezar o fator que está derrubando os juros ao consumidor: a competição entre os bancos. Quando se compara o ritmo de derrubada da taxa básica de juros do Banco Central, a Selic, que caiu para 20% há quinze dias, o que se nota é que o custo real do dinheiro está caindo em velocidade maior. "A competição entre os bancos e garantia aos contratos, o chamado marco regulatório, são os fatores que mais contribuem para a diminuição dos juros e a retomada do crescimento sem pressões inflacionárias", diz o brasileiro José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

Escapar do ciclo vicioso que gera crescimento mas cobra a conta em seguida na forma de inflação é vital para a economia brasileira. Nos últimos meses do ano passado, a indústria brasileira cresceu a espantosos 7% ao mês. Mas, como a inflação medida pelo IGP-M passou de 25% ao ano, a riqueza gerada pelo crescimento industrial foi anulada.

"Estamos saindo do fundo do poço, mas é preciso um pouco de cautela para não haver risco de repetir o problema de deflagrar a inflação que tivemos no ano passado", explica Dalton Gardimam, economista-chefe do Crédit Lyonnais. Vista de fora, a economia brasileira está nos eixos. A política de vigilância severa sobre a inflação, o compromisso com o crescimento e a aprovação das reformas estruturais arrancam elogios. O último foi do secretário do Tesouro dos EUA, John Snow, durante a reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial em Dubai, nos Emirados Árabes. No passado, Snow não escondia suas dúvidas e críticas à condução da equipe brasileira. Agora está convertido aos rumos empreendidos pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Na última vez que se encontraram, em Washington, os dois criaram um grupo de estudos que inclui técnicos brasileiros e americanos dedicados a entender os obstáculos ao crescimento no Brasil e na América Latina. Bom sinal.

 

 
 
 
 
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