Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Arquitetura
Cartão de visita

A "loja-escultura" de Carlos Miele em
Nova York
ganha elogios e representa
a cidade em exposição


Bel Moherdaui

 
Paul Warchol
A obra: curvas assimétricas e manequins flutuantes

Ninguém espera encontrar numa loja moderninha coisas banais como balcões e prateleiras abarrotadas de roupas. A loja inaugurada pelo estilista Carlos Miele em Nova York, em junho deste ano, vai muito além da modernidade-padrão. Em um espaço claro, cheio de elementos esculturais projetados por computador, com curvas assimétricas que criam um efeito futurista, vestidos de até 8.000 dólares parecem levitar (na verdade estão presos ao teto por fios de náilon quase transparentes e são iluminados por um círculo de luz no chão). De tão original, o projeto coleciona elogios e foi um dos escolhidos para representar a cidade de Nova York na Bienal Internacional de Arquitetura e Design, em São Paulo, aberta no dia 15, alguns dias antes do terceiro desfile de Miele nas passarelas americanas. Na Bienal, a criação do escritório Asymptote, do egípcio Hani Rashid e de sua mulher, a canadense Lise Anne Couture, divide as atenções com fotos e desenhos da moderníssima loja da Prada, no Soho, e do hotel-butique Hudson, do francês Philippe Starck. "O projeto foi escolhido não por ser uma loja de brasileiro – eu só soube disso depois de selecioná-lo –, mas sim pela qualidade do design. Acho que a Asymptote representa uma tendência internacional de arquitetura interessada em usar novas tecnologias para criar espaços mais fluidos, mais sensuais", disse a VEJA o arquiteto Joel Sanders, curador do espaço reservado à cidade americana na Bienal.

Fotos Luiz C. Ribeiro/divulgação/Paul Warchol
O dono: investimento de 700 000 dólares

Esse é o primeiro grande trabalho com moda da Asymptote, que já projetou um novo andar da Bolsa de Valores de Nova York e é responsável pelo Guggenheim Virtual Museum, a filial on-line dos museus Guggenheim. "Uma das nossas preocupações era representar o Brasil sem cair no clichê, sem criar uma Floresta Amazônica, um clima de Carnaval", explica o arquiteto Rashid. "Pensamos numa pintura abstrata que evocasse a cultura, a natureza e a música do país. Também nos inspiramos nas roupas criadas pelo Carlos: os tecidos cortados a laser, as camadas. A loja também deveria se inserir no ambiente urbano de Nova York, como uma continuação da rua, e ao mesmo tempo ser uma paisagem de sonho", completa Rashid, que é fã da arquitetura modernista brasileira – outra referência evidente no projeto. Desse conjunto de informações resultou um espaço amplo (quase 400 metros quadrados), permeado pelas formas amebóides de madeira (foi tudo construído em Chicago e transportado de caminhão para Nova York). Miele diz que investiu 700.000 dólares – "Menos que o aluguel e ponto de uma loja em um bom shopping de São Paulo", ressalta – na construção, que levou seis meses para ficar pronta e se destaca na paisagem do Meatpacking District, próxima às lojas de Stella McCartney e Alexander McQueen. Dinheiro, que é bom, ainda não dá muito. "Por enquanto, é meu cartão de visita. Embora as vendas estejam acima da expectativa, retorno mesmo eu só espero para daqui a dois anos", diz o estilista.

 
 
 
 
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