Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Ambiente
Os segredos da geleira

Aquecimento global derrete o gelo no alto
dos Alpes e expõe relíquias arqueológicas


Daniel Hessel Teich

O aquecimento global é motivo de preocupação para a maioria dos cientistas – a exceção são os arqueólogos e os historiadores. Para eles, o derretimento das neves eternas no alto das montanhas representa uma oportunidade para descobertas sensacionais. O degelo excepcional neste verão transformou os Alpes europeus num enorme sítio arqueológico. No alto dessa cadeia de montanhas que se estende por 1 200 quilômetros, da França até a Iugoslávia, foram encontrados nos últimos meses dez corpos mumificados, um deles vestido com roupas típicas do século XIX. "Os Alpes são uma espécie de cofre aberto pelo aquecimento global", disse a VEJA o pesquisador austríaco Harald Stadler, da Universidade de Innsbruck. "No gelo há vestígios de todas as épocas e civilizações que passaram por essa parte da Europa." Stadler descobriu nos Alpes austríacos os destroços de um avião da Luftwaffe, a Força Aérea nazista, que fez um pouso forçado em 1941 e desde então esteve coberto pela neve. "Dentro do avião encontramos jornais do dia do acidente, gel para cabelos, latas de queijo, bombas incendiárias e um frasco de loção após barba cujo perfume se manteve inalterado", conta.

Com o aumento médio da temperatura, o degelo tem ocorrido em áreas a mais de 4.000 metros de altitude, onde a neve era considerada eterna. Em meio século, o volume de gelo nas montanhas reduziu-se à metade. Na Suíça, as grandes geleiras encolhem ao ritmo de 20 metros por ano. Em verões de maior calor, a retração chega a atingir 100 metros. As áreas mais pesquisadas pelos arqueólogos são as bordas dos Alpes na França, na Itália, na Áustria e na Suíça. Para facilitar o trabalho, eles concentram as buscas nas proximidades das rotas de passagem nas montanhas, muitas delas usadas desde o período paleolítico, há 30.000 anos. A descoberta mais sensacional ocorreu doze anos atrás, na fronteira entre a Áustria e a Itália: o corpo mumificado de um homem que viveu há 5.000 anos. Graças a esse achado foram vistos pela primeira vez, em perfeito estado de conservação, armas, roupas e outros utensílios usados pelos europeus da Idade do Bronze.

Entre as descobertas mais recentes nessa região estão um acampamento militar do Império Austro-Húngaro, do fim do século XIX, e calças masculinas com idade estimada de 2.800 anos. A grande ambição dos arqueólogos das neves é encontrar vestígios da expedição do general cartaginês Aníbal. Em 218 a.C., ele atravessou os Alpes com um Exército de 60.000 homens, 12.000 cavalos e 37 elefantes. O objetivo era invadir a Itália e atacar Roma. Milhares de homens e metade dos cavalos morreram na epopéia. Apenas um dos elefantes chegou do outro lado. "Quando alguém finalmente achar um osso de elefante, terá feito a grande descoberta nas geleiras dos Alpes", avalia Stadler.

 
 
 
 
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