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Ambiente
Os
segredos da geleira
Aquecimento
global derrete o gelo no alto
dos Alpes e expõe relíquias arqueológicas

Daniel
Hessel Teich
O aquecimento
global é motivo de preocupação para a maioria
dos cientistas a exceção são os arqueólogos
e os historiadores. Para eles, o derretimento das neves eternas
no alto das montanhas representa uma oportunidade para descobertas
sensacionais. O degelo excepcional neste verão transformou
os Alpes europeus num enorme sítio arqueológico. No
alto dessa cadeia de montanhas que se estende por 1 200 quilômetros,
da França até a Iugoslávia, foram encontrados
nos últimos meses dez corpos mumificados, um deles vestido
com roupas típicas do século XIX. "Os Alpes são
uma espécie de cofre aberto pelo aquecimento global", disse
a VEJA o pesquisador austríaco Harald Stadler, da Universidade
de Innsbruck. "No gelo há vestígios de todas as épocas
e civilizações que passaram por essa parte da Europa."
Stadler descobriu nos Alpes austríacos os destroços
de um avião da Luftwaffe, a Força Aérea nazista,
que fez um pouso forçado em 1941 e desde então esteve
coberto pela neve. "Dentro do avião encontramos jornais do
dia do acidente, gel para cabelos, latas de queijo, bombas incendiárias
e um frasco de loção após barba cujo perfume
se manteve inalterado", conta.
Com
o aumento médio da temperatura, o degelo tem ocorrido em
áreas a mais de 4.000 metros de
altitude, onde a neve era considerada eterna. Em meio século,
o volume de gelo nas montanhas reduziu-se à metade. Na Suíça,
as grandes geleiras encolhem ao ritmo de 20 metros por ano. Em verões
de maior calor, a retração chega a atingir 100 metros.
As áreas mais pesquisadas pelos arqueólogos são
as bordas dos Alpes na França, na Itália, na Áustria
e na Suíça. Para facilitar o trabalho, eles concentram
as buscas nas proximidades das rotas de passagem nas montanhas,
muitas delas usadas desde o período paleolítico, há
30.000 anos. A descoberta mais sensacional
ocorreu doze anos atrás, na fronteira entre a Áustria
e a Itália: o corpo mumificado de um homem que viveu há
5.000 anos. Graças a esse achado
foram vistos pela primeira vez, em perfeito estado de conservação,
armas, roupas e outros utensílios usados pelos europeus da
Idade do Bronze.
Entre
as descobertas mais recentes nessa região estão um
acampamento militar do Império Austro-Húngaro, do
fim do século XIX, e calças masculinas com idade estimada
de 2.800 anos. A grande ambição
dos arqueólogos das neves é encontrar vestígios
da expedição do general cartaginês Aníbal.
Em 218 a.C., ele atravessou os Alpes com um Exército de 60.000
homens, 12.000 cavalos e 37 elefantes.
O objetivo era invadir a Itália e atacar Roma. Milhares de
homens e metade dos cavalos morreram na epopéia. Apenas um
dos elefantes chegou do outro lado. "Quando alguém finalmente
achar um osso de elefante, terá feito a grande descoberta
nas geleiras dos Alpes", avalia Stadler.
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