Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

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Dieta
Os milionários do Atkins

Quem investiu na dieta com menos
carboidratos e mais proteínas e
gorduras está rindo à toa: é um
mercado que fatura 10 bilhões de
dólares por ano nos Estados Unidos


Em Profundidade: Dietas

A dieta Atkins é mesmo de abrir o apetite: diferentemente dos regimes de emagrecimento tradicionais, que exigem refeições dignas de um faquir, sem gorduras nem proteínas, ela permite o consumo de ovos, carnes e torresmo (não necessariamente todos no mesmo prato). Em contrapartida, manda evitar os carboidratos (pães, batata e massas). Só nos Estados Unidos, mais de 25 milhões de pessoas, ou 12% da população adulta, adotaram algum tipo de dieta com restrição aos carboidratos nos últimos anos. O impacto da popularização não se faz sentir apenas no negócio de dietas, mas em toda a indústria de alimentos. A Federação Britânica de Padeiros reclama que Atkins fez baixar as vendas de pão na Inglaterra. O consumo de trigo, segundo a entidade, caiu 4 quilos por pessoa nos últimos seis anos. A Unilever, um dos cinco maiores fabricantes de alimentos do mundo, culpa a dieta pela queda de 23% em seus lucros nos Estados Unidos. O prejuízo ocorreu depois que a companhia comprou a Slim Fast, especializada em produtos light e diet. A associação americana da indústria da tortilla – uma espécie de pão de milho – promoveu um seminário para debater a crise nas vendas do produto e concluiu que a responsabilidade é da dieta rica em proteínas. "É raríssimo uma dieta ter algum impacto na economia americana. A do Atkins é a exceção", disse Harry Balzer, autor do anuário Eating Patterns in America, à revista americana Slate, publicada na internet pela Microsoft.

O que é mau negócio para uns significa oportunidade para outros. O volume de carne vendido nos Estados Unidos cresceu 40% nos últimos dois anos – criadores e açougueiros agradecem a Atkins. Os lucros da indústria de produtos suínos triplicaram no mesmo período. O negócio dos alimentos com pouco carboidrato já é estimado em 10 bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos. É cedo para saber se atingirá o tamanho da irmã mais velha, a indústria americana de low-fat, que fatura três vezes mais vendendo exatamente aqueles produtos sem gordura que a dieta de Atkins despreza. Mas a venda de produtos com baixa quantidade de carboidratos cresceu 60% no ano passado. A Anheuser-Busch, fabricante americana de bebidas, já produz uma cerveja com menor quantidade de carboidratos, a Michelob Ultra. São 2,6 gramas por garrafa, 10 gramas a menos que na cerveja comum. A canadense Keto Foods lançou mais de oitenta produtos com restrição de carboidratos. Há desde pacotes de macarrão, com 5 gramas de carboidratos cada um, até sorvete de chocolate, com apenas 1 grama de carboidrato por bola. O conceito foi criado pelo médico americano Robert Atkins, que vendeu mais de 10 milhões de livros com a dieta que leva seu nome desde a primeira edição, em 1972. Ele morreu em abril, aos 72 anos, em decorrência de uma queda no gelo. A Atkins Nutritionals, braço comercial do legado do médico, faturou 100 milhões de dólares no ano passado com a venda de noventa produtos com baixa quantidade de carboidratos.

Muito da popularidade da dieta decorre de estudos recentes que mostram que, pelo menos durante um período, ela funciona e até faz bem para a saúde. Outro fator é que pode ser seguida com facilidade. A teoria de Atkins é que os carboidratos ingeridos aumentam as taxas de açúcar no sangue e, conseqüentemente, a produção do hormônio insulina. Em excesso, a insulina faz com que o organismo retenha mais gordura e aumente o tamanho das células adiposas. Ou seja, resulta nos quilinhos a mais. Sem carboidratos para produzir energia, o organismo queima gorduras para realizar essa tarefa. Muitos médicos torcem o nariz. Acham que se alguém emagrece com a dieta de Atkins é porque inadvertidamente acaba consumindo menos calorias. Na verdade, o conceito já ganhou vida própria. A Dieta de South Beach, versão menos radical criada por um cardiologista americano, ultrapassou recentemente o livro de Atkins na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos.




Foto divulgação/Claudio Pinheiro

 
 
 
 
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