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Justiça
Todos atropelaram a lei
Gugu errou ao exibir a falsa entrevista
com o PCC. E a Justiça errou ao ressuscitar
a
censura prévia

Ricardo Valladares
Divulgação
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| Gugu:
ele só não foi indiciado por causa de um habeas-corpus preventivo
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No domingo passado, o programa Domingo Legal, apresentado
por Gugu Liberato no SBT, não pôde ir ao ar por decisão
judicial. Uma liminar foi pedida por uma procuradora, concedida
por uma juíza e mantida por uma desembargadora. O motivo:
a exibição, duas semanas antes, de uma entrevista
com dois encapuzados que se diziam integrantes da organização
criminosa paulistana Primeiro Comando da Capital (PCC). Na entrevista,
a dupla ameaçou de morte o padre Marcelo Rossi, o vice-prefeito
de São Paulo, Hélio Bicudo, e os apresentadores Marcelo
Rezende, da Rede TV!, José Luiz Datena, da Rede Bandeirantes,
e Oscar Roberto Godoy, da Rede Record. Era uma farsa. Os bandidos
não eram bandidos, mas desocupados contratados pela produção
do Domingo Legal. Dois produtores do programa, Wagner Mafezoli
e Rogério Casagrande, foram indiciados pela polícia
por divulgação de notícia falsa. Amilton Tadeu
dos Santos, o Barney, contratado para arranjar os desocupados, é
acusado de apologia do crime. Gugu Liberato só não
foi indiciado porque seu advogado pediu um habeas-corpus preventivo.
No depoimento que teve de prestar, ele negou que soubesse da armação
e disse que era "apenas um apresentador e que a exibição
do programa está sob a responsabilidade da emissora". Se
isso é verdade, é curioso que o dono do SBT, Silvio
Santos, não tenha sido informado de que o Domingo Legal
mostraria uma entrevista tão explosiva. Ele só assistiu
ao quadro dias depois, quando a farsa já havia sido desmascarada
(veja entrevista
abaixo). Não se sabe exatamente a razão,
Gugu também aproveitou para dizer à polícia
que era amigo do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.
Vidal Cavalcante/AE
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| Santos,
o Barney, que contratou os encapuzados: ninguém quer ficar com
a responsabilidade pela farsa |
De
todo esse imbróglio, sobram duas constatações.
A primeira é que o nível da televisão brasileira
continua tão abissal quanto na época em que Gugu enganava
os telespectadores com aquele quadro fajuto do táxi, desmascarado
por VEJA em 1996. Salvo exceções que confirmam a regra,
a programação é uma porcaria. Sensacionalismo,
exploração da miséria, mentiras, baixarias
em maior ou menor grau, o cardápio é quase
sempre o mesmo. Reconheça-se, porém, que não
se trata de uma especialidade nacional. A televisão é
um lixo no mundo todo. A única maneira eficiente de controlá-la
é mexendo no bolso de quem comanda as emissoras ou apresenta
os programas. Gugu, provavelmente, vai puxar o freio, porque o escândalo
que se seguiu à falsa entrevista fez com que ele perdesse
contratos publicitários e anunciantes. Faustão, da
Rede Globo, recuperou prestígio e audiência depois
que seu programa aboliu as baixarias mais gritantes que manchavam
a reputação de seus patrocinadores. Vive-se, hoje,
um momento em que o público brasileiro parece mais voltado
para as atrações familiares. O que não quer
dizer que amanhã não voltará a privilegiar
as torpezas. O nível da televisão melhora ou piora
um pouco conforme o gosto do público e o público,
seja no Brasil, na Itália ou no Sri Lanka, é de uma
volubilidade impressionante.
Claudio Rossi
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| O
apresentador no quadro Táxi: desmascarado por VEJA em 1996 |
Dado este fato da vida, há quem defenda a censura, pura e
simples, muitas vezes apresentada sob o eufemismo de "controle social
dos meios de comunicação". Trata-se de um perigo,
como demonstra a outra constatação a ser tirada do
imbróglio de Gugu. Sem poder de censurar, a Justiça,
por meio da procuradora Eugênia Fávero, da juíza
Leila Paiva e da desembargadora Anna Maria Pimentel, atropelou clamorosamente
a Constituição ao tirar do ar o programa do apresentador.
Até o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos,
considerou a punição abusiva. "O sistema condicional
(legal) brasileiro prevê o controle a posteriori, e
não a censura prévia", disse o ministro. A ele fazem
coro juristas eminentes, como Miguel Reale Júnior. "O SBT
pode ter eventualmente infringido o artigo 16 da Lei de Imprensa,
por divulgar fatos distorcidos, mas não está dentro
da legislação a punição prévia
porque um programa anterior violou a lei", explica ele. Se a Justiça
errou sem dispor de instrumentos de censura prévia, é
de imaginar o estrago que faria se dispusesse deles. Nesse terreno,
todo cuidado é pouco, porque podem falar mais alto antipatias
pessoais, ideológicas ou moralismos exacerbados. Gugu deveria
ser punido estritamente de acordo com a lei e só depois de
cumpridos todos os passos de uma investigação rigorosa.
Censurar o seu programa o transforma em vítima de uma pegadinha
da Justiça.
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"Logo
percebi que era uma
bobagem para dar Ibope"
Claudio Rossi
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Veja O senhor assistiu à farsa
exibida no programa de Gugu Liberato?
Silvio
Não assisti ao programa. Vi o quadro só
uns dois dias depois, no vídeo do meu camarim,
quando a confusão já estava nos jornais.
Dois diretores do SBT levaram a fita para mim.
Veja O senhor acreditou que os encapuzados
fossem integrantes de uma organização
criminosa?
Silvio Pela minha experiência,
logo percebi que aquilo tudo era uma bobagem feita para
dar ibope. Mas não foi malfeita.
Veja
Depois de desconfiar que tudo não passasse
de uma armação, o senhor fez alguma recomendação
aos diretores do programa de Gugu?
Silvio
Disse que, se o quadro era verdadeiro, como eles afirmavam,
o programa deveria exibir uma outra entrevista com essas
mesmas pessoas no domingo seguinte.
Veja E o que eles disseram?
Silvio Que não era necessário,
que o programa estava coberto pela Lei de Imprensa,
que não tinha de provar nada.
Veja
O senhor não acha que há
um excesso de armação nos programas de
auditório?
Silvio Acho. Eu, por exemplo, não
deixo armações irem ao ar no meu programa.
O telespectador não é bobo.
Veja
Gugu disse que não assistiu ao
quadro antes de ele ir ao ar. É uma falha, não?
Silvio Sim, mas o Gugu está
com sérios problemas familiares. Anda abatido.
Eu conversei com ele e tenho certeza de que Gugu não
sabia que era uma armação.
Veja O senhor acha que o fato de a
Justiça ter proibido a exibição
do programa Domingo Legal, na semana passada,
foi um ato de censura condenável?
Silvio Realmente não sei. Já
ouvi no rádio que sim. Mas também li nos
jornais que não. Ainda não consegui tirar
uma opinião sobre o assunto.
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