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Justiça
A
parábola das duas armas
A
espantosa crônica de duas armas
que, juntas, passaram sete vezes
pelas mãos da polícia e dos bandidos

Alexandre
Oltramari
Uma submetralhadora
Halcon, de número 55373, e uma pistola Steyr, de número
40335, são armas de fabricação estrangeira, mas
são conhecidas pela polícia de São Paulo como
se fossem de casa. A argentina Halcon, que dispara 700 tiros por minuto,
anda no crime desde 1996. Essa mesma arma já foi usada em dois
assaltos, causou a morte de duas pessoas e deixou outras cinco gravemente
feridas. A austríaca Steyr, pistola de calibre 7.65, passeia
pela criminalidade há mais tempo, dez anos, mas seu currículo
é menos sangrento. Com procedências e prontuários
distintos, a submetralhadora e a pistola são um símbolo
assustador de uma das piores chagas de um país que não
cansa de reclamar da violência a inépcia do Estado
em cumprir seu dever de garantir a segurança dos cidadãos.
Juntas, as duas armas já foram apreendidas pela polícia
sete vezes. Repita-se: sete vezes. Pela lei, deveriam ter sido confiscadas
na primeira apreensão, guardadas pela Justiça durante
a instrução do processo criminal e, depois de periciadas,
devidamente destruídas. Em vez disso, num macabro bumerangue,
elas se livram do cerco da Justiça e voltam à praça
para cometer crimes.
Joedson Alves/AE
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| Greenhalgh,
do PT paulista: esperança de recompor a lei do desarmamento
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O inacreditável trajeto das duas armas, que saem das mãos
dos bandidos, aparecem nos cofres do Estado e ressurgem em posse
da bandidagem, é parte de uma investigação
sigilosa aberta pela corregedoria da polícia paulista. A
investigação tem onze volumes e procura reconstituir
o passeio de nada menos que 100 armas de fogo de todos os tipos
metralhadoras, pistolas, carabinas e revólveres. Trata-se
da maior investigação do gênero de que se tem
notícia no país. Em Minas Gerais, existem apenas duas
armas ambulantes sob investigação. No Rio de Janeiro,
a Secretaria de Segurança informa que não há
nenhuma arma nessa situação no Estado embora,
talvez, o mais acertado seja dizer que a polícia fluminense
jamais flagrou uma crônica semelhante. O que chama a atenção
no caso da submetralhadora Halcon e da pistola Steyr que perambulam
pelo Estado de São Paulo é o número de vezes
que entraram e saíram dos depósitos públicos.
Com quatro apreensões, a pistola Steyr é a campeã
nacional. A submetralhadora Halcon fica em segundo lugar, com três
apreensões.
Sua
história, no entanto, é alarmante. Há sete
anos, a Halcon foi usada por oito bandidos para assaltar uma fábrica
em Jacareí, no interior de São Paulo. Cercados pela
polícia, os assaltantes responderam com uma saraivada de
balas. Quatro policiais militares e um porteiro da fábrica
ficaram feridos. Um dos bandidos morreu. A arma foi então
encaminhada ao Fórum de Jacareí e, depois, ao Exército.
Dois anos depois, misteriosamente, a mesma Halcon voltou a ser apreendida.
Estava dentro de um Palio, na Rodovia Castello Branco, em poder
de duas mulheres que transportavam um arsenal. Além da submetralhadora,
elas portavam duas granadas, duas pistolas, um fuzil e um revólver.
Segundo a polícia, as armas foram enviadas, dessa vez, a
um depósito da Justiça em Sorocaba. Por fim, em fevereiro
de 2000, a Halcon foi usada novamente em um assalto. Dessa vez,
o alvo foi uma agência do Bradesco, na capital paulista. Cercado,
o assaltante Adriano Pereira dos Santos, 22 anos, abriu fogo e morreu
no tiroteio. Ninguém sabe a mágica que liberta as
armas, mas é certo que isso só acontece porque agentes
do Estado se deixam corromper ou extorquir.
"Contra
essas mágicas, não há lei que resolva", diz
o criminólogo Tulio Kahn, que dirigiu a filial brasileira
do Ilanud, órgão da ONU que trata da violência
na América Latina. Em Brasília, existe uma lei em
discussão no Congresso Nacional, batizada de "estatuto do
desarmamento", que até pode ajudar a combater o problema.
Em sua versão original, a lei, com trinta artigos, torna
o porte ilegal de arma um crime inafiançável. Ou seja:
quem for pego com arma ilegal tem de ficar preso até ser
julgado. Em novembro de 2000, por exemplo, a pistola Steyr foi apreendida
nas mãos de Adelmo da Silva Carvalho, 22 anos, 1º grau
incompleto. Ele pagou uma fiança, de apenas 100 reais, e
foi libertado. Com certeza, tornar inafiançável o
porte ilegal não impedirá que uma arma apreendida
pela polícia acabe voltando ao submundo da criminalidade,
mas contribui, pelo menos, para o combate à circulação
de armas clandestinas no país. E não se trata de pouca
coisa. Estima-se que haja 3 milhões de armas ilegais circulando
no Brasil e que elas cometam sete de cada dez homicídios
causados por arma de fogo no país.
O
"estatuto do desarmamento", no entanto, está sob ameaça.
A versão original, relatada pelo deputado Luiz Eduardo Greenhalgh,
do PT paulista, definia critérios rigorosos para autorizar
o porte de arma, suprimia a fiança para os casos de porte
ilegal e, por fim, previa a realização de referendo
em 2005, no qual a população decidiria se seria proibida
de vez a comercialização de armas no país
medida extrema de desarmamento geral adotada apenas no Japão,
onde a criminalidade, diga-se, é baixíssima. Na tramitação,
o projeto caiu nas mãos da deputada Laura Carneiro, do PFL
do Rio, e tudo isso critérios rigorosos, crime inafiançável
e referendo em 2005 acabou sendo suprimido. Greenhalgh alimenta
a esperança de que, ao passar pela Comissão de Constituição
e Justiça, esses pontos possam ser restituídos ao
projeto.
"É
preciso acabar com a farra de armas no Brasil", diz Greenhalgh.
"É ela que alimenta o mercado clandestino." A intenção
da lei é das melhores. Afinal, cerca de um terço das
armas clandestinas que hoje circulam no Brasil foi legalmente registrado
antes de cair nas mãos de criminosos. Se o porte legal for
restrito a casos especialíssimos, como previa o projeto original
antes da intervenção da deputada Laura Carneiro, o
Brasil estará caminhando pela mesma trilha de países
como Inglaterra, Austrália e Canadá. Com a restrição
da circulação de armas, esses países conseguiram
diminuir a incidência de crimes. Não custa lembrar,
no entanto, que em cada um deles o Estado tem sido capaz de fazer
cumprir as leis. Aqui, como mostra o exemplo das armas ambulantes
de São Paulo, os próprios agentes do Estado são
os primeiros a violá-las.
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