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Governo
Casado. E agora empregado
O
Palácio do Planalto pediu e Duda Mendonça
contratou Luis Favre, o marido da prefeita
Marta, para trabalhar em sua agência
Montagem com fotos de Luciana Cavalcanti, Antonio
Milena e Monica Zarattini/AE
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| A
ilustração, mistura de ficção e realidade, mostra Favre batendo
cartão e Duda Mendonça observando a cena |
Em
apenas uma semana, o franco-argentino Luis Favre formalizou duas
relações a afetiva, ao se casar com a prefeita
Marta Suplicy, de São Paulo, e a profissional, ao ser contratado
pela agência de publicidade de Duda Mendonça, o marqueteiro
do PT. Favre vai ganhar o equivalente a 20.000 reais por mês
para trabalhar como publicitário. Falta definir exatamente
qual será sua missão na empresa de Duda Mendonça,
que tem duas agências de publicidade. Uma delas serve ao governo
petista. A outra trabalha para o PT. A busca de um emprego para
Favre é uma novela que se arrasta há meses. Desde
a posse de Lula, uma ala de petistas amigos tenta arranjar alguma
função para ele em Brasília. Entre os amigos
no poder que viam sua contratação com simpatia estavam
os ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Luiz Gushiken, da Secretaria
de Comunicação. Em abril, Favre recebeu uma boa notícia.
O ato de sua contratação seria publicado no Diário
Oficial, o que acabou acontecendo em maio. Ficaria registrado
como funcionário do Gabinete Civil, subordinando-se formalmente
a José Dirceu. Mas responderia a Gushiken. Por razões
legais, no entanto, cargos públicos só podem ser ocupados
por quem possua nacionalidade brasileira. Para isso, é preciso
residir no Brasil por quatro anos, e Favre só chegou por
aqui há pouco mais de um ano. O prazo poderia ser reduzido
se o estrangeiro se casasse com uma brasileira. O casamento saiu,
mas o emprego público de Favre não. O Palácio
do Planalto achou melhor repassar a tarefa da contratação
a Duda Mendonça.
Duda não contratou Favre por livre e espontânea vontade.
Ele recebeu instruções para fazer isso. Existem, portanto,
duas explicações a respeito do novo emprego do marido
de Marta. Uma delas é a oficial, espalhada por Duda Mendonça.
"Eu o contratei porque tivemos uma ótima relação
na campanha eleitoral do ano passado e acho que podemos repetir
essa experiência", disse Duda a VEJA. Existe outra versão,
obtida com um assessor da Presidência da República.
Há pelo menos três meses, Duda vem sendo cobrado para
contratar Favre. E tem evitado assinar os papéis. Sua atitude
passou a ser vista com reserva. "Ou Duda é do time, ou volta
para o Maluf", diz o assessor, referindo-se ao ex-prefeito de São
Paulo, Paulo Maluf, para quem Duda trabalhou no passado como marqueteiro.
Procurado por VEJA com a informação de que recebeu
a incumbência de contratar Favre, Duda se irritou. "Sempre
tive muito respeito pela imprensa, mas nesse caso vocês estão
querendo criar uma crise que não existe."
Nos últimos dias, o nome de Duda Mendonça voltou com
força ao noticiário e sempre de forma negativa.
Primeiro foi a contratação de Favre, interpretada
pela oposição como um gesto oportunista do publicitário.
Depois foi a entrevista do ministro Luiz Gushiken ao jornalista
Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo, que se referiu a
Duda como seu guru para assuntos de propaganda. "Eu quero o Duda
Mendonça como se fosse, na ausência de um termo mais
adequado, meu consultor especial. Quero discutir com ele toda a
estratégia de comunicação do governo", afirmou
Gushiken. O desdobramento das palavras do ministro foi avassalador.
Muitas foram as manifestações de reprovação
ao papel de Duda descrito por Gushiken. Da tribuna do Congresso
Nacional, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio,
chegou ao cúmulo de comparar Lula a Hitler. "O presidente
Lula segue implantando no país a promiscuidade entre marketing
e poder, à imagem e semelhança de Joseph Goebbels
(ministro da Propaganda de Hitler) ou do Estado Novo e seu
famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, de tão
triste memória", afirmou Virgílio. Outro tucano, José
Aníbal, já havia se referido a Duda como "vigarista".
O publicitário ainda não sabe como reagir no caso
de Virgílio, mas já decidiu que vai processar Aníbal.
O debate político em torno da propaganda é travado
em alta temperatura porque o que está em jogo é uma
fortuna incalculável. O governo gasta todo ano mais de 1,5
bilhão de reais em publicidade. E as agências de propaganda,
muitas delas apadrinhadas por políticos, temem que o grosso
do dinheiro seja drenado para os cofres da agência de Duda.
O governo é o melhor cliente das agências. Até
recentemente não discutia preço e era o único
a pagar 20% como comissão às agências. Na iniciativa
privada, em razão da crise, as comissões caíram
de 20% para 15%, depois para 12%. E há casos extremos em
que se paga 5%. Façam-se as contas. Com 20% de comissão,
as agências agraciadas com conta pública podem receber
do governo 320 milhões de reais num ano. Na iniciativa privada,
essa comissão cairia para apenas 80 milhões. A diferença
de 240 milhões de reais explica uma parte do problema.
Outro motivo para o debate é que Duda Mendonça se
tornou uma novidade na política brasileira. Pela primeira
vez, um publicitário faz a campanha eleitoral de um candidato
e é apontado abertamente por um ministro como o bruxo da
comunicação oficial. Durante o regime militar, os
governos não tinham gurus de comunicação, até
porque não precisavam, já que não se submetiam
ao voto. Após a redemocratização, José
Sarney teve alguns gurus de comunicação. Um deles
foi Augusto Marzagão, que, ao contrário de Duda, não
possuía agência de publicidade. Fernando Collor era
o comunicador de si mesmo e contava com a ajuda de alguns auxiliares
criativos, como o jornalista Cláudio Humberto. Itamar Franco
não tinha ninguém encarregado especificamente dessa
área. Fernando Henrique Cardoso usava os serviços
do publicitário Geraldo Walter, que morreu em 1998. Passou
a se aconselhar com Nizan Guanaes, que jamais foi apresentado formalmente
como bruxo tucano. Daí a novidade introduzida pelo PT e Duda
Mendonça. A vantagem do modelo atual sobre os anteriores
está ligada ao melhor uso do dinheiro público. Até
o governo Lula, cada ministério gastava suas verbas como
bem entendesse. Muitos se guiavam exclusivamente pelos interesses
do ocupante do cargo. O presidente e o Planalto que se estrepassem.
Com uma supervisão única, a imagem institucional do
governo pode ganhar coerência e direção. O modelo
atual tem, no entanto, o defeito apontado pelo senador Arthur Virgílio
deixando de lado os dispensáveis exageros verbais
a que ele costuma recorrer. Duda é a um só tempo conselheiro
do governo e dono de agência. Cliente e fornecedor.
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