Edição 1822 . 1° de outubro de 2003

Índice
Brasil
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Governo
Casado. E agora empregado

O Palácio do Planalto pediu e Duda Mendonça
contratou Luis Favre, o marido da prefeita
Marta, para trabalhar em sua agência

 
Montagem com fotos de Luciana Cavalcanti, Antonio Milena e Monica Zarattini/AE
A ilustração, mistura de ficção e realidade, mostra Favre batendo cartão e Duda Mendonça observando a cena

Em apenas uma semana, o franco-argentino Luis Favre formalizou duas relações – a afetiva, ao se casar com a prefeita Marta Suplicy, de São Paulo, e a profissional, ao ser contratado pela agência de publicidade de Duda Mendonça, o marqueteiro do PT. Favre vai ganhar o equivalente a 20.000 reais por mês para trabalhar como publicitário. Falta definir exatamente qual será sua missão na empresa de Duda Mendonça, que tem duas agências de publicidade. Uma delas serve ao governo petista. A outra trabalha para o PT. A busca de um emprego para Favre é uma novela que se arrasta há meses. Desde a posse de Lula, uma ala de petistas amigos tenta arranjar alguma função para ele em Brasília. Entre os amigos no poder que viam sua contratação com simpatia estavam os ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação. Em abril, Favre recebeu uma boa notícia. O ato de sua contratação seria publicado no Diário Oficial, o que acabou acontecendo em maio. Ficaria registrado como funcionário do Gabinete Civil, subordinando-se formalmente a José Dirceu. Mas responderia a Gushiken. Por razões legais, no entanto, cargos públicos só podem ser ocupados por quem possua nacionalidade brasileira. Para isso, é preciso residir no Brasil por quatro anos, e Favre só chegou por aqui há pouco mais de um ano. O prazo poderia ser reduzido se o estrangeiro se casasse com uma brasileira. O casamento saiu, mas o emprego público de Favre não. O Palácio do Planalto achou melhor repassar a tarefa da contratação a Duda Mendonça.

Duda não contratou Favre por livre e espontânea vontade. Ele recebeu instruções para fazer isso. Existem, portanto, duas explicações a respeito do novo emprego do marido de Marta. Uma delas é a oficial, espalhada por Duda Mendonça. "Eu o contratei porque tivemos uma ótima relação na campanha eleitoral do ano passado e acho que podemos repetir essa experiência", disse Duda a VEJA. Existe outra versão, obtida com um assessor da Presidência da República. Há pelo menos três meses, Duda vem sendo cobrado para contratar Favre. E tem evitado assinar os papéis. Sua atitude passou a ser vista com reserva. "Ou Duda é do time, ou volta para o Maluf", diz o assessor, referindo-se ao ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, para quem Duda trabalhou no passado como marqueteiro. Procurado por VEJA com a informação de que recebeu a incumbência de contratar Favre, Duda se irritou. "Sempre tive muito respeito pela imprensa, mas nesse caso vocês estão querendo criar uma crise que não existe."

Nos últimos dias, o nome de Duda Mendonça voltou com força ao noticiário – e sempre de forma negativa. Primeiro foi a contratação de Favre, interpretada pela oposição como um gesto oportunista do publicitário. Depois foi a entrevista do ministro Luiz Gushiken ao jornalista Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo, que se referiu a Duda como seu guru para assuntos de propaganda. "Eu quero o Duda Mendonça como se fosse, na ausência de um termo mais adequado, meu consultor especial. Quero discutir com ele toda a estratégia de comunicação do governo", afirmou Gushiken. O desdobramento das palavras do ministro foi avassalador. Muitas foram as manifestações de reprovação ao papel de Duda descrito por Gushiken. Da tribuna do Congresso Nacional, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, chegou ao cúmulo de comparar Lula a Hitler. "O presidente Lula segue implantando no país a promiscuidade entre marketing e poder, à imagem e semelhança de Joseph Goebbels (ministro da Propaganda de Hitler) ou do Estado Novo e seu famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda, o DIP, de tão triste memória", afirmou Virgílio. Outro tucano, José Aníbal, já havia se referido a Duda como "vigarista". O publicitário ainda não sabe como reagir no caso de Virgílio, mas já decidiu que vai processar Aníbal.

O debate político em torno da propaganda é travado em alta temperatura porque o que está em jogo é uma fortuna incalculável. O governo gasta todo ano mais de 1,5 bilhão de reais em publicidade. E as agências de propaganda, muitas delas apadrinhadas por políticos, temem que o grosso do dinheiro seja drenado para os cofres da agência de Duda. O governo é o melhor cliente das agências. Até recentemente não discutia preço e era o único a pagar 20% como comissão às agências. Na iniciativa privada, em razão da crise, as comissões caíram de 20% para 15%, depois para 12%. E há casos extremos em que se paga 5%. Façam-se as contas. Com 20% de comissão, as agências agraciadas com conta pública podem receber do governo 320 milhões de reais num ano. Na iniciativa privada, essa comissão cairia para apenas 80 milhões. A diferença de 240 milhões de reais explica uma parte do problema.

Outro motivo para o debate é que Duda Mendonça se tornou uma novidade na política brasileira. Pela primeira vez, um publicitário faz a campanha eleitoral de um candidato e é apontado abertamente por um ministro como o bruxo da comunicação oficial. Durante o regime militar, os governos não tinham gurus de comunicação, até porque não precisavam, já que não se submetiam ao voto. Após a redemocratização, José Sarney teve alguns gurus de comunicação. Um deles foi Augusto Marzagão, que, ao contrário de Duda, não possuía agência de publicidade. Fernando Collor era o comunicador de si mesmo e contava com a ajuda de alguns auxiliares criativos, como o jornalista Cláudio Humberto. Itamar Franco não tinha ninguém encarregado especificamente dessa área. Fernando Henrique Cardoso usava os serviços do publicitário Geraldo Walter, que morreu em 1998. Passou a se aconselhar com Nizan Guanaes, que jamais foi apresentado formalmente como bruxo tucano. Daí a novidade introduzida pelo PT e Duda Mendonça. A vantagem do modelo atual sobre os anteriores está ligada ao melhor uso do dinheiro público. Até o governo Lula, cada ministério gastava suas verbas como bem entendesse. Muitos se guiavam exclusivamente pelos interesses do ocupante do cargo. O presidente e o Planalto que se estrepassem. Com uma supervisão única, a imagem institucional do governo pode ganhar coerência e direção. O modelo atual tem, no entanto, o defeito apontado pelo senador Arthur Virgílio – deixando de lado os dispensáveis exageros verbais a que ele costuma recorrer. Duda é a um só tempo conselheiro do governo e dono de agência. Cliente e fornecedor.

 
 
 
 
topo voltar