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Diplomacia
Meu caro amigo Fidel
Lula faz boa figura na ONU
mas tropeça no fim da viagem,
cortejando uma ditadura
AFP
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AP
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| Lula,
à esquerda, com Bush e Annan, e na chegada a Cuba, com
Fidel: para quê? |
Com
sua charmosa biografia de operário de esquerda que chegou
lá, Luiz Inácio Lula da Silva tem feito sucesso nas
viagens ao exterior. Desperta um misto de interesse e curiosidade,
captura a atenção dos interlocutores e quase sempre
cativa as platéias com sua espontaneidade e simpatia. Tanto
que se especula até sobre sua indicação para
concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Como presidente da República,
porém, Lula não é apenas Lula quando está
lá fora: ele é a personificação da política
externa brasileira e aí é que o andor começa
a balançar. Na semana passada, em sua 13ª viagem internacional,
o presidente Lula disparou um ataque bem calibrado à política
de combate ao terrorismo do presidente George W. Bush e pronunciou
um discurso correto na tribuna das Nações Unidas,
em Nova York. No caminho de volta ao Brasil, fez uma estratégica
escala no México para encontrar-se com o colega Vicente Fox
e, na sexta-feira, cumpriu a última e desconcertante etapa
da agenda: desembarcou em Cuba, onde três oposicionistas foram
recentemente executados e outros 75 acabaram encarcerados. O crime:
discordar do ditador Fidel Castro, há 44 anos no poder.
A idéia de agendar uma visita de Lula a Cuba revelou-se inteiramente
descabida. Desde o início, estava fadada a não produzir
resultado algum do ponto de vista econômico, já que
Cuba é uma ilha falida que nem os soviéticos conseguiram
tirar do vermelho na época da Guerra Fria. E, no plano político
e diplomático, só produz dor de cabeça, por
sinalizar apoio brasileiro a um regime que fuzila oposicionistas.
Assim sendo, o que Lula foi fazer em Cuba? Afinal, sob o regime
de Fidel Castro, se Lula fosse cubano e cumprisse por lá
o mesmo papel oposicionista que cumpriu no Brasil, faria uns vinte
anos que ele estaria na cadeia, na melhor das hipóteses.
Em busca de uma justificativa para a viagem, os assessores de Lula
criaram um pretexto comercial. A visita, disseram, pretendia abrir
as portas de Cuba a empresários brasileiros, em especial
aos produtores de álcool e suco de laranja, tendo em vista
que, quando a ditadura de Fidel acabar, o país será
um pólo de exportação para os EUA e
o Brasil já estará acomodado na primeira fileira.
Como ocorre com as explicações de última hora,
faltou dizer por que um futuro governo democrático em Cuba
tratará a pão-de-ló um governo estrangeiro
que afagou a ditadura...
Concebida pelo Itamaraty, um dos núcleos de excelência
da burocracia estatal, a política externa brasileira tem
uma agenda que muda pouco em função do governante
do momento. Altera-se o tom aqui e ali, mas a essência continua
a mesma. A reivindicação de uma cadeira permanente
no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, é sistematicamente
apresentada pelos presidentes desde o governo José Sarney
(1985-1990) e foi repisada por Lula na semana passada. No
governo petista, porém, a diplomacia tem promovido algumas
mudanças um pouco mais acentuadas às vezes
para o bem, às vezes nem tanto. A despropositada visita a
Cuba insere-se no mesmo contexto que levou o Itamaraty a quase meter-se
no vespeiro da Venezuela de Hugo Chávez e a tratar as Farc
colombianas como um filhote extemporâneo da guerrilha romântica
dos anos 60, e não como um bando de facínoras que
se sustentam com o narcotráfico, a extorsão a agricultores
e a matança de civis. "São momentos de um ativismo
um tanto exagerado e sem correspondência com a realidade",
admite um diplomata brasileiro com trânsito na cúpula
do governo.
Milton Michida/AE
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| O
chanceler Celso Amorim, que liderou a atuação do G-22 |
Há duas semanas, na reunião da Organização
Mundial do Comércio, realizada no balneário mexicano
de Cancún, a diplomacia brasileira, sob o comando do chanceler
Celso Amorim, também mostrou uma nova postura e, nesse
caso, ganhou aplausos. Com uma delegação mais qualificada
que as anteriores, o Brasil liderou, ao lado de representantes da
Índia e da China, a formação de um bloco de
países em desenvolvimento, o chamado G-22, que conseguiu,
pela primeira vez, barrar imposições dos países
ricos. No passado, já existiram grupos semelhantes, mas eles
se limitavam a apresentar seus pleitos e demandas, sem poder de
bloquear quaisquer interesses das nações abastadas.
"Antes, nos fóruns internacionais, os EUA e a União
Européia tomavam as decisões e nos comunicavam", diz
Rubens Barbosa, embaixador brasileiro em Washington. "Agora, com
o G-22, surgiu um terceiro elemento, que pode trazer benefícios
concretos à economia brasileira." O Brasil espera que a atuação
do G-22 crie um constrangimento moral aos países ricos, forçando-os
a reduzir o protecionismo.
É
uma aposta, e uma aposta de alto risco, que pode simplesmente cair
no mesmo vazio que o antigo Movimento dos Países Não-Alinhados,
liderado pela ex-Iugoslávia, que fez um barulho tremendo
e não conseguiu nada. O que se sabe até agora é
que a postura mais agressiva do Brasil, elogiável quanto
à altivez, mas duvidosa quanto à eficácia,
não passou em branco na maior potência do planeta.
Na semana passada, num artigo publicado pelo jornal britânico
Financial Times, o representante comercial dos Estados Unidos,
Robert Zoellick, o mesmo que Lula desqualificou tempos atrás
chamando-o de "sub do sub do sub", fez virulentas acusações
ao Brasil. Responsabilizou a delegação brasileira
pelo impasse havido em Cancún, anunciou que o governo americano
vai incrementar acordos bilaterais, desprezando a instância
multilateral da Organização Mundial do Comércio,
e enveredou pelas estatísticas de colete. Para desqualificar
a denúncia brasileira do protecionismo agrícola dos
EUA, disse que a tarifa média que seu governo aplica aos
produtos agrícolas é de 12%, enquanto o Brasil usa
tarifa três vezes maior, de 37%.
Robert Zoellick não propalou propriamente uma mentira, mas
manipulou os números a favor de sua tese. Na verdade, ele
referiu-se à tarifa máxima, ao teto, portanto, que
cada país pode aplicar na agricultura, segundo o que foi
devidamente registrado junto à OMC. A tarifa máxima
dos Estados Unidos é 12%. A do Brasil, 37%. O que Zoellick
se esqueceu de mencionar foi a tarifa média que os dois países
habitualmente praticam nas negociações cotidianas.
Nesse caso, os EUA chegam perto de seu máximo. Ficam em 10%.
O Brasil, ao contrário, se mantém bem longe do teto,
aplicando tarifa média de 14%. É mais alta que a americana,
mas muito mais baixa do que Zoellick fez supor. Na guerra dos números,
os EUA costumam divulgar que 90% dos produtos brasileiros entram
no mercado americano com alíquota zero o que também
não é verdade. Na melhor das hipóteses, segundo
dados da OMC, esse número não passa de 40%. Os outros
60% dos produtos brasileiros sofrem algum tipo de taxação,
variável de caso a caso.
Um dia depois da publicação do artigo de Zoellick,
o presidente Lula, em seu discurso na ONU, voltou a reclamar das
barreiras comerciais dos países desenvolvidos. "O protecionismo
dos países ricos penaliza injustamente os produtores eficientes
das nações em desenvolvimento", disse. É uma
reclamação justa, justíssima, embora recorrente.
Todos os presidentes brasileiros que subiram à tribuna da
ONU para discursar na abertura da Assembléia-Geral tocaram
no assunto:
João Baptista Figueiredo, em 1982 Os esforços
dos países em desenvolvimento "são desbaratados por
barreiras protecionistas intransponíveis".
José Sarney, em 1985 "Para aumentar nossas
dificuldades, os mercados dos países desenvolvidos fecham-se
às nossas exportações."
Fernando Collor, em 1990 "As barreiras internacionais
retratam a dureza de uma política que virtualmente marginaliza
os países de industrialização tardia."
Fernando Henrique Cardoso, em 2001 "É indispensável
avançar com prioridade nos temas mais relevantes para a eliminação
das práticas e barreiras protecionistas nos países
desenvolvidos."
Há muito tempo, o desafio brasileiro deixou de ser a denúncia
das desigualdades do comércio internacional. O desafio é
reunir forças para dar conseqüência prática
às suas reclamações e escapar da armadilha
da retórica que tem lá seu impacto no mundo
político, mas é estéril no plano comercial.
No mundo globalizado e com tamanha assimetria do poderio econômico
das nações, não é uma tarefa fácil.
Na semana passada, Lula propôs, da tribuna da ONU, a criação
de um comitê mundial de combate à fome. É uma
bela proposta, que recebe aplausos em qualquer fórum mundial.
A questão é implementá-la. Em 1985, na assembléia
da ONU, Sarney também falou da fome, usando sua peculiar
grandiloqüência, mas seu discurso não teve nenhum
desdobramento prático. Lula, pelo menos, depois de seu pronunciamento,
reuniu-se com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e fez
uma doação pessoal de 55.000 dólares ao fundo
de combate à fome da entidade dinheiro que recebeu
de um prêmio espanhol. Não é uma fortuna, mas
ao menos ajuda a estreitar a distância entre intenção
e gesto.
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