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Em
foco: Gustavo Franco
Uma
nova "âncora" fiscal
"Podemos
viver felizes sem o acordo
com o FMI, mas é preciso substituí-lo
por alguma outra garantia institucional
de que os maus hábitos não vão retornar"
Hoje já está claro para o governo que, contrariamente
ao folclore, o FMI não nos impõe programas abusivamente
recessivos nem nos coloca de joelhos nem nada dessas coisas vexatórias
que se alegam na propaganda televisiva dos partidos de ultra-esquerda
nacionalista.
O programa com o FMI compõe-se de responsabilidade fiscal,
metas de inflação e taxas de câmbio flutuante.
Não há muito para ser contra, e não é
por outro motivo que estamos sob a disciplina desse acordo há
mais de quatro anos e ninguém, além do PC do B e congêneres
jurássicos, está reclamando.
O máximo que se consegue dizer do FMI é que pratica
a virtude macroeconômica com um viés conservador. Geralmente
os bancos centrais e governos do mundo inteiro se orgulham de agir
dessa forma, ou seja, até mesmo o proverbial conservadorismo
da instituição deixou de ser considerado um defeito.
Se isso é verdade, por que então ainda se assiste,
como na Argentina, a episódios em que se busca "endurecer
com o FMI" em evidente e descarada encenação, como
de mulher apaixonada que manda o marido embora, enciumada, mas ameaça
se jogar pela janela se ele for?
Nessas situações, a moça e a nação
ameaçam prejudicar os próprios interesses e, a menos
que o marido ou o FMI tenham motivos para se sentir feridos e impeçam
a besteira, a ameaça será consumada. Mas, diferentemente,
ao menos em tese, de maridos rejeitados, o FMI não deve questionar
decisões soberanas, ainda que tolas, de sua clientela.
O fato é que ninguém está obrigado a adotar
programas com o FMI, e quem o procura se obriga a um tanto de racionalidade
econômica que geralmente não é capaz de produzir
sozinho. Por isso precisa de ajuda.
Ilustração Ale Setti
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O leitor fará bem em perguntar por que exatamente precisamos
de um acordo com o FMI, já que se trata de fazer algo que,
além de correto, é de nosso próprio interesse.
Boa pergunta. E a resposta é simples: antes do acordo, não
fomos capazes de arrumar nossas contas fiscais. E, além disso,
a "ala ortodoxa" se via cada vez mais isolada e pressionada dentro
de um governo cheio de autodenominados "desenvolvimentistas" querendo
fazer "políticas alternativas".
Um governo que tem duas metades pensando de maneira oposta não
é capaz de funcionar senão de forma esquizofrênica.
O acordo com o FMI resolveu a parada em 1999, como nos anos que
se seguiram, assim como resolve hoje. E seria injusto não
reconhecer que a metade heterodoxa deste governo é muito
mais criativa, no mau sentido, que a do governo passado.
Como será a vida do ministro Palocci, em seus embates com
a outra banda do governo, se não houver a obrigação
de cumprir o acordo com o FMI?
É
claro que um dia vamos ter de enfrentar esse problema, posto que
o FMI não há de ter aqui uma missão permanente.
E para que o Brasil tenha credibilidade de verdade terá de
praticar a virtude macroeconômica sem que isso seja uma obrigação.
Mas será este o momento?
Livrar-se do FMI será tanto mais fácil quanto as metas
do acordo deixarem de pertencer a este e passarem à categoria
de exigências do bom senso. Tanto quanto possível deveríamos
aproximar a definição das metas fiscais de um debate
maduro e conceitualmente aperfeiçoado do orçamento
público, o qual há anos está a merecer um banho
de loja, que apenas teve início com a Lei de Responsabilidade
Fiscal. Afinal, nada mais legítimo, numa democracia adulta,
que o Parlamento ajustar desejos (despesa) conforme as possibilidades
(receita) de forma responsável e transparente no seio da
discussão do orçamento.
Mas em matéria fiscal, infelizmente, não se vislumbra
nenhuma novidade, antes pelo contrário: a reforma tributária
desandou, o realismo orçamentário continua uma miragem
e retorna revigorada a traquinagem de fazer com que os gastos de
investimento não entrem na contabilidade do déficit
relevante para acordo ou para os fins macroeconômicos do governo.
Enfim, podemos perfeitamente viver felizes sem o FMI, mas é
preciso substituí-lo por alguma outra garantia institucional,
ainda inexistente, de que os maus hábitos não vão
retornar.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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