"Morreram e vão
continuar morrendo
desnecessariamente pessoas que
amamos tanto"
Não foi
por fatalidade, não foi pela mão de um só
culpado, mas porque a estrutura administrativa brasileira
está confusa e precária, sem gestão forte
e eficiente, que em alguns meses se perderam centenas de vidas
preciosas e viajar neste país se tornou um risco suicida.
Porque se quebraram os velhos parâmetros de seriedade
e responsabilidade, estamos embarcados num avião desgovernado.
Porque aqui a vida humana não vale grande coisa, porque
ninguém cuida da nossa segurança nem se importa
com a manutenção de estradas, aeroportos e aviões,
porque desmando e ganância imperam disfarçados
por uma cortina de acusações mútuas e
inverdades por tudo isso, morreram e vão continuar
morrendo desnecessariamente pessoas que amamos.
Ilustração
Atômica Studio
Porque depois de um primeiro acidente que desgraçou
centenas de vidas não se tomaram providências
radicais. Porque só bem mais tarde o chefe da nação
veio a público pedir soluções "com data
e hora marcada" (mas ninguém lhe deu atenção
e alguns brincaram que ele tinha esquecido de marcar o ano).
Porque órgãos diretamente ligados à segurança
nos aeroportos não exercem sua função
e o dinheiro destinado à segurança se desvia
ou fica nos bolsos da União. Porque temos no governo
tantas figuras desastradas, há quartos vazios onde
entrar e chorar, nomes a chamar em vão, caixões
quase vazios a enterrar, crianças a quem anunciar o
indizível, que é a morte de seus pais
pois morreram e vão continuar morrendo desnecessariamente
pessoas que amamos.
Como me escreveu
um piloto experiente, "construímos aeroportos imponentes,
com mármore, granito polido, escadas rolantes e boas
lojas, mas não se dão nem assistência
nem apoio aos pilotos, os sistemas estão obsoletos
e não há seriedade na administração",
e, como diz um de meus filhos que diariamente percorre grandes
distâncias em estradas federais abandonadas, "a cada
tantas semanas perdemos nessas rodovias vergonhosas dezenas
de pais de família ou famílias inteiras, vítimas
do descaso, da corrupção e da incompetência".
Aviões, automóveis, ônibus e caminhões
se tornaram instrumentos de mortes que poderiam ser evitadas.
O que nos oferecem, a nós que somos atingidos dessa
maneira miserável e tantas vezes anunciada? Discursos
sentimentais, atitudes arrogantes, falas professorais, teorias
falhadas, posturas entediadas ou ofendidas, projetos insensatos
e desconhecimento do complicadíssimo assunto. Prometem-nos
quem ainda acredita em promessas do governo?) "investigações
sérias", desde os tempos do mensalão. Não
haverá medidas reais e eficazes de segurança
e, se houver, faltará quem as fiscalize, pois os órgãos
que deveriam administrar e fiscalizar a aviação
brasileira entregam aos heróicos pilotos e seus pobres
passageiros aeroportos inadequados, aparelhagem defeituosa,
pistas precárias. Por isso morreram e vão continuar
morrendo desnecessariamente pessoas que amamos.
Quem devia agir
com autoridade, demitir os incompetentes e reordenar esse
escandaloso caos (há quem tenha coragem de dizer que
não existe caos nos ares do Brasil) hesita e adia:
os péssimos são mantidos em seus cargos, os
corruptos são recompensados, os mais incompetentes
recebem medalhas, insultando os mortos e os que por eles choram.
Como os desinformados são também crédulos
e os que sabem (com raras exceções) não
querem se incomodar, não há esperança
de melhora. Nada vai mudar: vamos continuar prevendo e vivendo
tragédias que poderiam ser evitadas, por terra e pelos
ares do Brasil. Imaginaremos os segundos de horror antes da
morte e homenagearemos os restos calcinados dos que um dia
foram a luz da nossa vida. Continuaremos ameaçados,
sem proteção. Não podemos aceitar. Não
devemos esquecer. Não há como perdoar. Talvez,
enquanto não houver uma resposta verdadeira aos nossos
reclamos, ninguém mais deva viajar sem grande urgência:
quem sabe um prejuízo econômico provoque a reação
que a perda de tantas vidas não causa. Ou já
está tudo tão desorganizado que não há
mais remédio: levados ao sacrifício como pobres
carneiros, vão continuar morrendo desnecessariamente
pessoas que amamos tanto.