Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Instituições em
frangalhos
Se Lula diz que ao voar entrega
sua
sorte a Deus é porque nem ele confia
nos controles de seu governo
O título acima é
de um histórico editorial do jornal O Estado de
S. Paulo, quando da edição do Ato Institucional
nº 5, em 1968, e do conseqüente apagão do
que restava de instituições democráticas
no país. O.k., não chegamos a tanto. O governo
foi legitimamente eleito, o Congresso está aberto,
a imprensa é livre e vigoram o habeas corpus e outras
garantias individuais. Mas, se não temos um apagão
no âmbito das liberdades, vivemos um outro, no campo
da eficiência, que a crise do setor aéreo, desdobrada
em tragédia, tornou mais claro do que nunca. Alguns
exemplos de instituições em frangalhos:
Ministério da Defesa.
Quando foi criado, no governo Fernando Henrique, representou
uma esperança de avanço civilizacional. Era,
enfim, a consagração da supremacia do poder
civil, e portanto político, sobre o militar. De quebra,
abria-se a possibilidade de as três Armas trabalharem
em conjunto, livres de diferenças de filosofia e mais
aptas a fazer o interesse geral prevalecer sobre os enclaves
corporativos. Tudo ótimo, não tivesse o próprio
governo Fernando Henrique se empenhado em desfazer a ilusão
ao nomear ministros fracos e decompor-se em melindres diante
de militares acuados pela ameaça de perda de poder
e status. No governo Lula, e em especial na gestão
Waldir Pires, quando a crise aérea despertou o ministério
do sono a que se auto-condenara, sua doentia inoperância
revelou-se por inteiro.
Na semana passada, a troca de
Waldir Pires pelo ex-deputado, ex-ministro da Justiça
e ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim ganhou
ares de relançamento da instituição.
Finalmente assumia o cargo um titular de perfil forte, de
quem se espera ação, e não desempenho
tão invisível e entorpecido quanto possível.
Jobim tem pela frente o desafio de pôr fim à
bagunça vigente no transporte aéreo. Façamos
votos para que tenha êxito, mas tenhamos em mente o
importante detalhe de que o melhor de suas qualidades e os
mais intensos de seus esforços estarão voltados
para uma questão que nada tem a ver com Defesa. Transporte
é atividade civil, e só por uma deformidade
institucional brasileira o transporte aéreo abriga-se
sob jurisdição fardada. Ainda não foi
desta vez que o Ministério da Defesa ganhou um titular
para enfrentar os assuntos centrais da pasta.
Anac. A Agência
Nacional de Aviação Civil, assim como outras
agências reguladoras, foi criada para representar o
papel de órgão do estado, e não do governo
de turno. Por isso mesmo, a seus diretores se atribuíram
mandatos fixos (de cinco anos) e não coincidentes com
os do Poder Executivo. Isso quer dizer que nem podem ser demitidos
nem têm sua atuação limitada a um único
mandato presidencial. Diante do despreparo da maioria dos
diretores da Anac, no entanto, cogitou-se na semana passada
de mudança na lei, de modo a torná-los demissíveis.
O próprio Nelson Jobim pronunciou-se nesse sentido.
Ora, tornar os responsáveis
pelas agências demissíveis por um ministro ou
pelo presidente equivale a subordiná-las ao governo,
o que lhes retira a própria razão de ser. O
problema está, numa ponta, na opção do
governo por indicar apaniguados, de preferência a pessoas
de "ilibada reputação" e "elevado conceito no
campo de especialidade dos cargos para os quais serão
nomeadas", como diz a lei, e, na outra, na omissão
do Senado, ao qual cabe examinar as indicações
do Executivo. Por conveniência, conivência ou
preguiça, o Senado não tem feito senão
carimbá-las, como sempre fez com as indicações
para os tribunais superiores ou as embaixadas.
O governo como um todo. "Toda
vez que o avião fecha a porta, entrego minha sorte
a Deus", disse o presidente Lula, na cerimônia de posse
do ministro Jobim. O discurso foi dos mais desastrados, na
longa série de discursos desastrados já proferidos
pelo mesmo orador. Houve até gracinhas, num momento
que aconselharia sobriedade. Reveladora como um ato falho
foi a afirmação da entrega da sorte a Deus quando
viaja de avião. O bom funcionamento dos motores, as
perfeitas condições dos aeroportos, a habilidade
dos controladores de vôo em nada disso o presidente
confia. Ou seja: não confia em nada daquilo que cabe
a seu governo controlar e fiscalizar.
No desdobramento do raciocínio,
Lula disse que ao viajar de avião está "na mão
de um comandante, que é um ser humano", e ao sabor
"das intempéries, que nem sempre o ser humano consegue
controlar". Esse tal de "ser humano" é uma das obsessões
do presidente. Freqüenta-lhe os discursos com a mesma
assiduidade que as imagens do futebol, as autolouvações
do "nunca antes neste país" e as histórias do
passado de retirante. Poucos dias antes, ele descrevera as
vaias recebidas no Maracanã como "reação
do ser humano". O "ser humano" é invocado para justificar
erros, fraquezas e limitações da espécie.
No caso do discurso da semana passada, não será
talvez demais imaginar que o avião que o presidente
tinha em mente era o avião Brasil e que o comandante,
tão sujeito a falhas que o melhor é confiar
em Deus, não seria senão ele próprio.