Há um mês,
a Rede Globo realizou uma pesquisa com donas-de-casa para
avaliar por que a novela Paraíso Tropical deu
a volta por cima no ibope depois de um início trôpego.
Frases como "Todos os dias acontece algum fato novo" ou "É
uma novela que não tem enrolação" foram
as mais repetidas. A aceleração da narrativa
um dos ajustes determinados pouco depois da estréia
pelo diretor artístico da Globo, Mário Lúcio
Vaz mostrou-se crucial para tirar Paraíso
Tropical do limbo. Para além da correção
de rota, contudo, o caso expõe uma transformação
mais profunda. Ao longo das décadas, as tramas das
novelas foram se tornando mais velozes e movimentadas. E nunca
se levou isso tão longe como agora. Tome-se a farsa
montada pela vilã Taís (Alessandra Negrini)
para assumir a identidade de sua irmã gêmea.
O imbróglio chegará ao fim nesta semana, quando
o mocinho Daniel (Fábio Assunção) desvendará
o paradeiro de sua insossa amada, Paula. No passado, uma situação
como essa poderia dar mote a um melodrama inteiro. Em Paraíso
Tropical, não vai durar mais que três semanas.
"As novelas mudaram", diz o autor Gilberto Braga. Ele cita
um sucesso dos anos 60, O Direito de Nascer, como contraprova:
"Hoje, o público não suportaria ver o avô
do protagonista Albertinho Limonta deitado numa cama por meses,
sem dizer que o rapaz era seu neto".
O ritmo de uma
novela tem tudo a ver com o estilo de seu criador, é
claro. Pode-se esperar velocidade das tramas de Silvio de
Abreu e Gilberto Braga,pois ambos gostam de lidar
com a ação e o suspense. O mesmo não
se aplica às histórias rurais de Benedito Ruy
Barbosa, por exemplo. Mas não é da quantidade
de adrenalina que se está falando. O ponto é
que as tramas das novelas, de modo geral, se tornaram mais
ágeis. Todos os 174 capítulos de Dancin'
Days, que Braga escreveu em 1978 e exibia um andamento
acelerado para a época, não renderiam mais que
oitenta de Paraíso Tropical. A pedido de VEJA,
Mauro Alencar, doutor em telenovelas pela Universidade de
São Paulo, fez uma análise estatística
de quatro produções da Globo de épocas
diferentes. Um dos indicadores consistiu no tempo que uma
nova situação leva para ser resolvida dentro
da história. Em Selva de Pedra, escrita por
Janete Clair nos anos 70, isso podia demorar oitenta capítulos
ou até a novela inteira. Em Paraíso
Tropical, a maioria das armações dos vilões
Olavo e Taís se resolve em três capítulos.
Se o tempo de resolução
dos conflitos diminuiu, a quantidade deles numa mesma trama
cresceu. Antigamente, as novelas giravam quase que exclusivamente
em torno de seu enredo central. Aos poucos, os núcleos
secundários foram se tornando mais numerosos. Demorou,
no entanto, para ganharem o realce que têm hoje. Numa
novela dos anos 90 como Fera Ferida, cinco subtramas
distintas eram mostradas a cada capítulo média
pouco superior à de Selva de Pedra, de vinte
anos antes. Manoel Carlos representou uma espécie de
intermediário entre esse modelo antigo e as novelas
atuais. Em Laços de Família (2000), dramas
como o da prostituta Capitu obtiveram tanto destaque quanto
a trama principal. O noveleiro se valia de um truque para
não atordoar o espectador: jogava os holofotes sobre
determinada situação por cerca de dez capítulos,
enquanto outras histórias aguardavam sua vez de vir
à tona. Paraíso Tropical radicaliza esse
procedimento. O co-autor Ricardo Linhares revela que se adotou
um método: há sempre três situações
em destaque e outras duas sendo aquecidas em banho-maria para
se revezar com elas.
Vários fatores
explicam por que os folhetins se aceleraram. Um deles é
de ordem técnica. Com os equipamentos de hoje, ficou
mais fácil gravar e editar muitas cenas. Nos anos 60,
uma produção da Globo não tinha mais
que quinze atores. Agora, chega-se a empregar mais de 100.
O número de cenas por capítulo quadruplicou,
assim como o de cenários (para não falar na
possibilidade de tomadas externas, que antes eram raridade).
É fato também que o ritmo de vida das pessoas
mudou e sua relação com o vídeo
foi na mesma direção. Elas têm menos tempo
para ficar diante da TV e se exasperam com a sensação
de que estão perdendo minutos preciosos com um programa
em que nada acontece. As novelas precisam ainda atender ao
gosto dos jovens, acostumados à velocidade dos videogames
e da internet. "As pessoas vivem correndo", diz Silvio de
Abreu. "Quando se sentam na frente da televisão, exigem
essa mesma velocidade da história que estão
acompanhando."