Quando um astro
retoma uma série abandonada há
tempos, a suspeita é de falta de opção
ou dívidas a pagar. Duro de Matar 4.0,
com Bruce Willis, é uma exceção à
regra
Isabela Boscov
Divulgação
Willis, como McClane: em forma,
mas sem tirar a camisa
Às
3 da manhã, o policial John McClane (Bruce Willis)
é tirado de seu "bico" favorito patrulhar as
atividades amorosas da filha adolescente para se mandar
para o outro lado de Nova York, deter um hacker chamado Matthew
Farrell (Justin Long) e escoltá-lo até o FBI,
em Washington. Lá vai McClane, então, cinqüentão
e mal-humorado, em mais uma missão que parece ser trivial,
mas logo se revela, como é de praxe em sua carreira,
um pequeno apocalipse. No qual, como é também
de praxe, ele faz o trabalho de dois ou três dos cavaleiros,
destruindo quase tanta coisa quanto pretende salvar. Um grupo
de terroristas digitais derruba, em seqüência,
os sistemas americanos de controle de trânsito, de finanças,
de comunicações e de serviços básicos.
É a tão temida volta à Idade da Pedra,
que o FBI, apesar dos esforços galantes, representados
na figura do bom ator Cliff Curtis (os idiotas aqui pertencem
à Homeland Security, o departamento de segurança
interna criado após o 11 de Setembro), se mostra incapaz
de impedir. Ou seja: é também o cenário
perfeito para o sumamente analógico McClane, que vai
aqui recebendo pequenas pílulas de sabedoria, conforme
a necessidade, de seu relutante, medroso mas perfeitamente
informatizado prisioneiro. Um ataque às redes de informação
não é algo assim tão fantasioso. Mas
Duro de Matar 4.0 (Live Free or Die Hard,
Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira
no país, é aquele tipo de filme que faz o possível
parecer completamente inverossímil. Só que o
faz com um je ne sais quoi que o torna muito mais divertido
do que se esperaria quase tão divertido, na
verdade, quanto o episódio inicial, de 1988, que assinalou,
no cinema de ação, a transição
que logo se daria na política, da patriotada da era
Reagan para o clima mais leve e solto da era Clinton.
Duro de Matar
foi uma das experiências pioneiras de Hollywood com
franquias, e uma das únicas daqueles primeiros tempos
que se revelaram mais populares a cada novo capítulo.
Mas fora encerrada em 1995, e a idéia de ver Bruce
Willis, aos 52 anos, retornar a uma série tão
musculosa naturalmente desperta as suspeitas habituais nesses
casos de dívidas pendentes de jogo, hipoteca
ou pensão alimentícia. Desta vez, porém,
aplicou-se de fato algum critério à ressurreição
do personagem. John McClane, um triunfo do espírito
proletário americano, está ainda mais blasé
do que na juventude, e tão desprovido quanto sempre
foi de qualquer escrúpulo politicamente correto. Mas
perdeu com o perdão do trocadilho muito
do topete, o que ajuda a ressaltar a simpatia natural de que
Willis é capaz. Não fosse essa qualidade, além
da decisão do astro de não tirar a camisa para
exibir desnecessariamente a boa forma que preserva, e Duro
de Matar 4.0 seria até meio chocante no seu nível
de destruição.
O dano colateral,
digamos, sempre foi uma marca registrada da série.
No primeiro filme, McClane punha abaixo quase sozinho um edifício
de trinta andares para, veja só, salvá-lo e
aos seus ocupantes, entre os quais sua mulher. No segundo,
despachava não só um número não
computado de militares renegados como também os 230
passageiros de um jato, para, acredite-se, evitar uma catástrofe
num aeroporto e, novamente, resgatar sua mulher. No terceiro,
mais modesto, as baixas computavam apenas um megalomaníaco,
seus seguidores e uns tantos transeuntes e policiais. Agora,
não apenas os terroristas fazem sua parte com vontade
como também McClane (que a certa altura terá
de resgatar a filha, a muito graciosa e ainda bastante topetuda
Mary Elizabeth Winstead) deixa atrás de si um rastro
de danos à propriedade, à pessoa e ao bem público
os quais, é verdade, servem de pretexto para
as cenas de ação mais elaboradas, deliciosamente
exageradas e, frise-se, também elas analógicas,
que alguém pensou fazer desde que a computação
gráfica virou o recurso de preferência do cinema.
Alguns dos truques são digitais, já que seria
impossível obter permissão, por exemplo, para
colocar um caça voando sob um viaduto em Washington
e disparando contra um caminhão gigante e também,
ops, contra os pilares de concreto. Mas, na maioria, os efeitos
são executados à antiga, incluindo-se o carro
que abate um helicóptero no ar e a surra copiosa
que Willis toma de Maggie Q à qual ele revida
com uma das melhores tiradas do filme. Retomar um personagem
depois de tanto tempo é quase que um convite a desnaturá-lo
na tentativa de adaptá-lo aos "novos tempos". Mas Willis
e o diretor Len Wiseman (este conhecido por outra série,
a bem mais modesta mas eficiente Underworld Anjos
da Noite) souberam refrear sua sanha destrutiva. Washington,
Baltimore e Nova York terminam quase arrasadas. John McClane
e Duro de Matar ficam de pé.