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1º de agosto de 2007
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Cinema
Cinqüentão sarado

Quando um astro retoma uma série abandonada há
tempos, a suspeita é de falta de opção ou dívidas a pagar.
Duro de Matar 4.0, com Bruce Willis, é uma exceção à regra


Isabela Boscov

 
Divulgação
Willis, como McClane: em forma, mas sem tirar a camisa

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Trailer do filme

Às 3 da manhã, o policial John McClane (Bruce Willis) é tirado de seu "bico" favorito – patrulhar as atividades amorosas da filha adolescente – para se mandar para o outro lado de Nova York, deter um hacker chamado Matthew Farrell (Justin Long) e escoltá-lo até o FBI, em Washington. Lá vai McClane, então, cinqüentão e mal-humorado, em mais uma missão que parece ser trivial, mas logo se revela, como é de praxe em sua carreira, um pequeno apocalipse. No qual, como é também de praxe, ele faz o trabalho de dois ou três dos cavaleiros, destruindo quase tanta coisa quanto pretende salvar. Um grupo de terroristas digitais derruba, em seqüência, os sistemas americanos de controle de trânsito, de finanças, de comunicações e de serviços básicos. É a tão temida volta à Idade da Pedra, que o FBI, apesar dos esforços galantes, representados na figura do bom ator Cliff Curtis (os idiotas aqui pertencem à Homeland Security, o departamento de segurança interna criado após o 11 de Setembro), se mostra incapaz de impedir. Ou seja: é também o cenário perfeito para o sumamente analógico McClane, que vai aqui recebendo pequenas pílulas de sabedoria, conforme a necessidade, de seu relutante, medroso mas perfeitamente informatizado prisioneiro. Um ataque às redes de informação não é algo assim tão fantasioso. Mas Duro de Matar 4.0 (Live Free or Die Hard, Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país, é aquele tipo de filme que faz o possível parecer completamente inverossímil. Só que o faz com um je ne sais quoi que o torna muito mais divertido do que se esperaria – quase tão divertido, na verdade, quanto o episódio inicial, de 1988, que assinalou, no cinema de ação, a transição que logo se daria na política, da patriotada da era Reagan para o clima mais leve e solto da era Clinton.

Duro de Matar foi uma das experiências pioneiras de Hollywood com franquias, e uma das únicas daqueles primeiros tempos que se revelaram mais populares a cada novo capítulo. Mas fora encerrada em 1995, e a idéia de ver Bruce Willis, aos 52 anos, retornar a uma série tão musculosa naturalmente desperta as suspeitas habituais nesses casos – de dívidas pendentes de jogo, hipoteca ou pensão alimentícia. Desta vez, porém, aplicou-se de fato algum critério à ressurreição do personagem. John McClane, um triunfo do espírito proletário americano, está ainda mais blasé do que na juventude, e tão desprovido quanto sempre foi de qualquer escrúpulo politicamente correto. Mas perdeu – com o perdão do trocadilho – muito do topete, o que ajuda a ressaltar a simpatia natural de que Willis é capaz. Não fosse essa qualidade, além da decisão do astro de não tirar a camisa para exibir desnecessariamente a boa forma que preserva, e Duro de Matar 4.0 seria até meio chocante no seu nível de destruição.

O dano colateral, digamos, sempre foi uma marca registrada da série. No primeiro filme, McClane punha abaixo quase sozinho um edifício de trinta andares para, veja só, salvá-lo e aos seus ocupantes, entre os quais sua mulher. No segundo, despachava não só um número não computado de militares renegados como também os 230 passageiros de um jato, para, acredite-se, evitar uma catástrofe num aeroporto e, novamente, resgatar sua mulher. No terceiro, mais modesto, as baixas computavam apenas um megalomaníaco, seus seguidores e uns tantos transeuntes e policiais. Agora, não apenas os terroristas fazem sua parte com vontade como também McClane (que a certa altura terá de resgatar a filha, a muito graciosa e ainda bastante topetuda Mary Elizabeth Winstead) deixa atrás de si um rastro de danos à propriedade, à pessoa e ao bem público – os quais, é verdade, servem de pretexto para as cenas de ação mais elaboradas, deliciosamente exageradas e, frise-se, também elas analógicas, que alguém pensou fazer desde que a computação gráfica virou o recurso de preferência do cinema. Alguns dos truques são digitais, já que seria impossível obter permissão, por exemplo, para colocar um caça voando sob um viaduto em Washington e disparando contra um caminhão gigante e também, ops, contra os pilares de concreto. Mas, na maioria, os efeitos são executados à antiga, incluindo-se o carro que abate um helicóptero no ar e a surra copiosa que Willis toma de Maggie Q – à qual ele revida com uma das melhores tiradas do filme. Retomar um personagem depois de tanto tempo é quase que um convite a desnaturá-lo na tentativa de adaptá-lo aos "novos tempos". Mas Willis e o diretor Len Wiseman (este conhecido por outra série, a bem mais modesta mas eficiente Underworld – Anjos da Noite) souberam refrear sua sanha destrutiva. Washington, Baltimore e Nova York terminam quase arrasadas. John McClane e Duro de Matar ficam de pé.

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