Em
apenas 24 horas, 8,3 milhões de exemplares foram vendidos
nos Estados Unidos mais outros 2,7 milhões na
Inglaterra. Da China a Israel, houve fila e empurra-empurra.
Uma mulher inglesa, várias vezes campeã em torneios
de leitura dinâmica, foi a primeira a conhecer o desfecho,
pelo menos por meios honestos: chegou à última
página de Harry Potter and the Deathly Hallows
(cuja tradução será lançada
aqui em novembro, com o título Harry Potter e as
Relíquias da Morte) em exatos 47 minutos e 1 segundo.
Em 1997, quando a escritora J.K. Rowling lançou o primeiro
livro de sua série, o acontecimento foi mais que discreto.
Mas, desde que ela ampliou seu punhado de admiradores para
verdadeiras legiões, tudo o que se refere à
série vem em números acachapantes. As Relíquias
da Morte, por ser o sétimo e último livro
protagonizado por Harry Potter, e portanto o mais aguardado
deles, quebrou todos os recordes de velocidade do mercado
editorial. Que pertenciam, claro, à própria
Rowling. Embora as estatísticas referentes a livros
sejam um bocado imprecisas, pode-se afirmar com alguma segurança
que ninguém na história vendeu tantos, em tão
pouco tempo, quanto essa inglesa.
As Relíquias
da Morte justifica tamanha comoção? Para
as crianças que vêm seguindo Harry desde sua
primeira aventura e crescendo junto com ele, sim. Neste sétimo
volume, todos os mistérios levantados nos seis primeiros
livros ganham uma resposta. Harry, ameaçado de morte
pela cada vez mais poderosa coalizão chefiada por Lorde
Voldemort, exila-se da escola de Hogwarts e do mundo para
achar uma maneira de derrotar de uma vez por todas seu inimigo
e, a cada passo, descobre algum novo aspecto da estranha
ligação que tem com ele. Personagens dos dois
lados dessa guerra morrem. Harry se vê compelido a questionar
os motivos pelos quais seu mentor, Alvo Dumbledore, o deixou
tão mal preparado para uma tarefa tão imensa.
E, principalmente, é obrigado a medir o valor de sua
própria vida, que mal-e-mal começou, perante
uma ameaça tão definitiva quanto a representada
por Voldemort.
Eis, então,
aquela que sempre foi a maior qualidade de Rowling: a confiança
de que o público infanto-juvenil está à
altura de temas como traição, morte, abandono,
lealdade e responsabilidade. A questão é que,
como em todos os livros anteriores, as características
que tornam a série objeto de polêmica estão
também plenamente evidentes. A prosa de Rowling é
banal, seus personagens são unidimensionais e seu grande
dom, como escritora, é o de argumentista assim
que supera sua abertura um tanto lenta, As Relíquias
da Morte não tira o pé do acelerador. Têm-se
aí, enfim, as razões pelas quais seus detratores,
liderados pelo eminente crítico americano Harold Bloom,
desdenham dela. Harry Potter é, por assim dizer,
uma leitura de resultados; ela envolve por apelar, mesmo entre
os adultos, à necessidade primordial de acreditar em
um mundo mágico, e porque se quer saber o que vai acontecer.
Estão ausentes ali, em grande medida, os valores inerentes
à literatura a sedução por meio
da palavra, por exemplo, e a capacidade de excitar, e não
meramente de aplacar, a imaginação. O que esses
céticos se perguntam, então, é se Harry
Potter é uma iniciação a uma vida
de leitura ou a única leitura que muitas dessas crianças
se animarão a fazer na vida. Os 325 milhões
de exemplares vendidos por Rowling até As Relíquias
da Morte sugerem que algo de positivo, sim, há
de sobrar desse fenômeno. Nem que seja apenas a constatação
de que não pode ser responsabilidade de uma única
escritora resolver um problema o desinteresse de toda
uma geração pela palavra escrita para
o qual pais e professores não conseguem encontrar solução
adequada.
BALANÇO
(QUASE) FECHADO
JP Masclet/AP
Os números inacreditáveis da série
criada por J.K. Rowling
325
milhões é
o número de cópias dos seis primeiros
livros vendidas em
todo o mundo
8,3 milhões
é o número
de exemplares de Harry Potter e as Relíquias
da Morte vendidos nas primeiras 24 horas de sua
publicação, apenas nos Estados Unidos
1 bilhão
de dólares é
em quanto se estima a fortuna pessoal de J.K. Rowling