A
mulher surpreendida na cama com o amante e o marido flagrado
na saída do motel barato contam agora com uma desculpa
amparada pela mais avançada pesquisa em biologia: trair
é natural. O argumento talvez não convença
e certamente não consola o consorte traído.
Mas esse é um fato incontestável à luz
fria da ciência: o desejo de variedade sexual foi incutido
no homem (e, em grau pouco menor, na mulher) pela evolução.
O ser humano até pode manter um só parceiro
sexual por toda a vida, mas esse é um comportamento
que custa quase tanto esforço quanto o celibato absoluto.
A conclusão já está anunciada no primeiro
capítulo de O Mito da Monogamia (tradução
de Ryta Vinagre; Record; 322 páginas; 42 reais), instigante
livro escrito pelo biólogo americano David Barash em
parceria com sua mulher, a psiquiatra Judith Eve Lipton. No
último capítulo, porém depois
de centenas de páginas revisando as práticas
sexuais de pássaros, macacos e aranhas, entre outros
bichos , o casal de autores conclui que, afinal, natureza
não é tudo. Há boas razões para
as sociedades ocidentais terem feito do par monogâmico
a base de sua estrutura familiar.
A monogamia de fato é
uma ocorrência excepcional, quase aberrante, na natureza
(veja quadros). Andorinhas, pardais e chapins até
formam casais fixos. Seus filhotes são insaciáveis
alguns precisam comer um inseto a cada quinze segundos
e por isso exigem os cuidados conjuntos de macho e
fêmea. Até muito recentemente, os naturalistas
acreditavam que essas aves eram exemplos de fidelidade matrimonial.
Os avanços da genética derrubaram o romantismo
aviário: análises de DNA mostram que um só
ninho pode abrigar filhotes de vários pais. As fêmeas,
está provado, gostam de dar seus pulinhos para os galhos
próximos. É preciso traçar, portanto,
uma distinção entre a monogamia social
o casal que cuida da prole em conjunto, comum entre aves e
pessoas e a monogamia sexual o par exclusivo
e fiel. Entre os mamíferos, a monogamia é rara
em qualquer forma. Predominam os mais variados arranjos polígamos.
Em várias espécies, os machos mais fortes impõem
sua dominância sobre o grupo e assim monopolizam
os favores das fêmeas. E até nesses haréns
vigora a infidelidade. As fêmeas dos babuínos
às vezes tentam escapar na direção dos
machos subordinados. Se o macho dominante nota esse movimento,
ele reprime a prevaricadora com vigorosas mordidas no pescoço.
A biologia tem uma explicação
econômica para a tendência dos machos à
variedade sexual: a produção de esperma é
barata, abundante. Do ponto de vista da evolução,
quanto mais fêmeas um macho fecundar, maior será
sua prole e maior sucesso ele terá na propagação
de seus genes. A motivação feminina para o "adultério"
é um tanto mais complexa: enquanto eles buscam quantidade,
elas querem qualidade. Muitas vezes, a fêmea de um casal
monogâmico "trai" na busca de um macho mais forte e
bonito, cujos genes aprimorados serão transferidos
para a prole. E isso vale tanto para uma andorinha quanto
para Emma Bovary, a personagem de Flaubert que, entediada
com seu marido sem graça, recorre ao adultério.
Na
corrida reprodutiva, valem as estratégias mais bizarras.
Há um tubarão cujo pênis é uma
espécie de espingarda de dois canos: há um canal
para a ejaculação e outro que injeta um jato
de água na fêmea, para expulsar o sêmen
dos rivais que tenham se acasalado antes. Aliás, há
quem proponha que também entre os humanos exista a
chamada "competição espermática". O formato
e o tamanho do pênis humano o tornariam apropriado para
funcionar como uma espécie de pistão de sucção,
retirando do útero o esperma de eventuais competidores.
Não é o que se esperaria de uma espécie
monógama: se as mulheres fossem sempre fiéis,
os homens não precisariam de um aparato de sucção
acoplado ao sexo. Comparações com outros primatas
sugerem que o ser humano, em seu estado primitivo ou "natural",
oscilaria entre a poligamia e alguma forma de monogamia relaxada,
com "escapadas" de ambos os sexos. Mas nem tudo o que é
"natural" é desejável. Da flatulência
à violência, as pessoas têm várias
tendências biológicas que fazem bem em reprimir.
No Ocidente, sob influência cristã, a monogamia
acabou se estabelecendo. Tem a vantagem de ser um modelo igualitário,
democrático, se comparado às sociedades polígamas,
onde os mais ricos têm também mais mulheres.
Nem todos terão tantos parceiros quanto desejariam.
Mas não há nenhuma razão para supor que
homens e mulheres seriam mais felizes sob outro regime sexual.