Há uma
novidade em gestação no ataque à gordura abdominal,
a mais perversa de todas: um exame de sangue
capaz de medi-la
Paula Neiva
Montagem sobre
foto Mauricio Lima/AFP
Orlando, do handebol
uruguaio: cuidado com
a silhueta de maçã, muchacho
É recente a descoberta de que a gordura abdominal é
a mais nociva à saúde está associada
a um aumento nos índices de infartos, derrames e alguns
tipos de câncer, como o de mama e o de intestino. Faltava,
no entanto, uma forma precisa de medir o acúmulo de
adiposidade no abdômen para, a partir desses dados,
dimensionar a extensão do risco de cada um. À
exceção de exames de imagem (e, convenhamos,
não é razoável submeter-se a uma tomografia
para comprovar que a barriga de chope está além
do saudável), a medicina dispõe unicamente da
fita métrica. Para os homens brasileiros, a circunferência
da cintura deve manter-se em 94 centímetros ou menos
e, para as mulheres, em até 80 centímetros.
"O problema é que os exames de imagem são muito
caros e a fita métrica, apesar de ideal para o acompanhamento
clínico, é imprecisa para uma avaliação
científica", diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz.
A grande novidade nesse quesito é a descoberta de um
marcador sanguíneo capaz de determinar exatamente quanto
alguém carrega de gordura na região abdominal.
O uso clínico desse marcador, acreditam seus descobridores,
começará em breve.
Médicos
das universidades Harvard, nos Estados Unidos, e Leipzig,
na Alemanha, verificaram que as taxas de uma determinada substância
no sangue, a proteína RBP4, são diretamente
proporcionais à quantidade de tecido adiposo estocado
na região visceral. Isso ocorre porque a RBP4, cuja
função é o transporte de vitamina A pelo
organismo, é produzida pelas células de gordura.
Apesar de não se saber a razão, os pesquisadores
observaram que as células de gordura do abdômen
produzem muito mais RBP4 do que as localizadas em quaisquer
outras partes do corpo. Por meio de um simples exame de sangue,
portanto, será possível estabelecer uma relação
direta entre a proteína e a gordura visceral. A nova
técnica poderá ser útil também
para avaliar a ação de medicamentos e outros
tratamentos contra a obesidade abdominal caso, por
exemplo, do rimonabanto, o comprimido antibarriga lançado
neste ano no Brasil.
O acúmulo
de gordura na barriga, que dá contornos de maçã
à silhueta, é extremamente deletério.
Pessoas com esse perfil, como o jogador Orlando Buquet, da
seleção uruguaia de handebol (1,68 metro de
altura e 109 quilos), sensação dos Jogos Pan-Americanos
do Rio, estão sob risco maior também de padecer
de doenças como diabetes e hipertensão. A ciência
da nutrição agora se dedica a descobrir quais
são os alimentos que mais favorecem o depósito
de gordura no abdômen. Foi somente no ano passado que
os pesquisadores constataram que, além de entupir artérias,
a banidíssima gordura trans favorece o acúmulo
da visceral. Há alguns meses, a revista científica
americana Diabetes Care trouxe finalmente uma boa notícia:
dietas ricas em gordura monoinsaturada, como o azeite de oliva
extravirgem, evitam o peso extra na região abdominal.
RISCO MEDIDO
A
proteína RBP4, responsável pelo transporte
de vitamina A no organismo, é a chave do novo
marcador
Por
ser a proteína produzida pelas células
de gordura, suas concentrações são
maiores em quem tem mais tecido adiposo na região
abdominal