O Brasil nunca teve
tantos ouros. Mas poucos
atletas podem repetir o feito nas Olimpíadas
Marcelo Bortoloti
Carlos Barria/Reuters
CÉSAR CIELO Esporte:natação Feito:superou o recorde olímpiconos 50 metros livres O que falta:apenas 20 centésimos para alcançar o recordista mundial, Alexander Popov
André Mourão/AGIF/AE
DIEGO HYPÓLITO Esporte:ginástica artística Feito:é o segundo melhor do mundo na ginástica de solo O que falta:aumentar em
2 décimos sua nota de partida, para tentar superar
o romeno Marian Dragulescu,
atual campeão mundial
O Brasil obteve o melhor desempenho de sua história
nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Até sexta-feira
havia conquistado 129 medalhas, sendo 40 de ouro. Para um
desavisado, até parece que o país é uma
potência esportiva. Longe disso. O fato nu e cru é
que o Brasil só foi bem no Pan porque se tratou de
uma competição em que os rotos e esfarrapados
latino-americanos competiram contra equipes juvenis dos Estados
Unidos e do Canadá – aliás, uma constante desde
que os Jogos foram criados, lá se vão mais de
cinqüenta anos. Os resultados obtidos pelos brasileiros,
portanto, não justificam nenhuma euforia em relação
às chances do país nas Olimpíadas de
Pequim, no ano que vem. Para 2008, afora esportes coletivos
como vôlei masculino e feminino, a delegação
brasileira só tem chances concretas de chegar ao pódio
máximo em seis modalidades individuais. Para se ter
uma idéia da distância que separa o Brasil de
gigantes como os Estados Unidos, basta fazer as contas: em
competições pan-americanas, os brasileiros costumam
ganhar quase a metade do número de medalhas dos americanos.
Nas Olimpíadas, não conseguem alcançar
sequer um décimo. As principais chances do Brasil em
Pequim estão na natação (que neste Pan
conseguiu doze medalhas de ouro, contra três no passado),
na ginástica artística masculina (que obteve
seus primeiros ouros), no judô e em poucas provas de
atletismo.
Mauricio Lima /AFP
JOÃO DERLY Esporte:judô Feito:é o campeão mundial na categoria meio-leve O que falta: manter-se em forma
para vencer seu maior adversário,
o japonês Masato Uchishiba,
atual
campeão olímpico
Carlos Silva/Imapress/AE
JADEL GREGÓRIO Esporte:salto triplo Feito:é o recordista sul-americano
na categoria O que falta:19 centímetros para alcançar o recorde olímpico e 39 centímetros para bater o recorde mundial, de Jonathan Edwards
Ninguém chega ao pódio olímpico por sorte. O caminho até uma medalha leva pelo menos quatro anos e inúmeros campeonatos menores, em que os atletas tentam superar suas marcas. No atual estágio, pode-se dizer que o paulista César Cielo tem tudo para brilhar na natação. Ele é um dos favoritos nos 50 metros livres. Sua evolução a caminho de uma medalha em Pequim é notável. Em 2000, Cielo demorava 27 segundos para terminar a prova. Em 2003 conseguiu baixar o tempo para 23 segundos. No Pan, fez em 21 segundos e 84 centésimos, a segunda melhor marca do mundo. Agora está a meros 20 centésimos de distância do recordista mundial, Alexander Popov. Os atletas da natação vivem uma rotina de treinamento espartano para ganhar frações de segundo em velocidade. Thiago Pereira, outra esperança de medalha nos 200 metros medley, foi muito além das frações: conseguiu baixar 16 segundos em seu tempo nessa prova, de 2001 para cá. Um prodígio. Outro exemplo é Jadel Gregório, do salto triplo. Ele melhorou seu desempenho, nos últimos três anos, em 18 centímetros. Não é mais que um palmo. Mas, antes do Pan, atingiu a marca de 17 metros e 90 centímetros, a melhor deste ano no mundo.
Orlando Kissner/AFP
THIAGO PEREIRA Esporte:natação Feito:bateu o recorde pan-americano nos 200
e 400 metros medley O que falta:nos 200 medley, melhorar seu tempo em 65 centésimos para bater o recorde olímpico
e em 2 segundos e 81 centésimos para bater o recorde mundial, ambos de Michael Phelps
Marcelo Ferrellia/Gazeta Press/AE
FABIANA MURER Esporte:salto
com vara Feito:é a recordista sul-americana
na categoria O que falta:25 centímetros para
bater o recorde olímpico e 35 centímetros para alcançar a recordista mundial,
Yelena Isinbayeva
Jadel treina na Inglaterra e Cielo, nos Estados Unidos. Mas são exceções. O resto treina no Brasil mesmo. Apesar de ainda estarmos longe do pelotão de frente olímpico, houve avanços. Patrocínios privados e investimentos do governo estão permitindo que o país comece a ter algum planejamento esportivo, uma espécie de saneamento básico para competições. A Confederação de Atletismo tinha um orçamento de 1,5 milhão de reais em 2001. Atualmente, recebe 10,5 milhões, conta com um centro de treinamento em São Paulo, considerado o melhor da América do Sul, e mantém 120 atletas e setenta treinadores. A Confederação de Ginástica, que há cinco anos recebia apenas ajudas esporádicas, hoje tem um orçamento fixo de aproximadamente 4 milhões de reais. Na natação, a receita subiu de 4 milhões, em 2000, para 12 milhões neste ano. Ainda falta, no entanto, dar a devida atenção a muitas modalidades. Um exemplo é o tae kwon do, em que o técnico precisa tirar dinheiro do bolso, e outro é o futebol feminino, que desde as Olimpíadas de 2004 aguarda uma verba prometida e nunca liberada pela CBF. Só com dinheiro e planejamento, o Brasil deixará a companhia dos rotos e esfarrapados que têm a sua única festa de verdade nos Jogos Pan-Americanos.