Outro dia, outro
passo de Hugo Chávez em seu projeto de se converter
na versão século XXI do manjado ditador latino-americano.
Na semana passada, o presidente venezuelano já tinha
quase pronta a nova proposta de reforma constitucional a ser
votada ainda neste ano pelo Congresso venezuelano. A principal
novidade será a concessão do direito de se reeleger
quantas vezes quiser e puder. O privilégio só
vale para o presidente, pois seria mantido o veto à
reeleição de governadores e prefeitos. A aprovação
das mudanças na Constituição é
dada como certa, já que todos os deputados venezuelanos
são chavistas a estranha unanimidade na Assembléia
Nacional deve-se ao fato de a oposição ter boicotado
as eleições parlamentares de 2005, reclamando
de fraude. No poder há oito anos, o presidente venezuelano
busca agora se tornar governante vitalício, a exemplo
de seu mentor Fidel Castro.
AFP
Chávez posa
de Saddam: "el eterno"
Eleito pela primeira vez em 1998, Chávez tem usado
os instrumentos da democracia para impor sua ditadura. Manobrou
para colocar seus amigos no controle da Suprema Corte, da
Justiça Eleitoral e de todos os postos de fiscalização
e controle da República. Também eliminou qualquer
possibilidade de os canais de TV aberta criticarem seu governo.
Sua estratégia para se perpetuar no poder inclui a
retórica virulenta contra qualquer vestígio
de oposição organizada, a guerra verbal contra
os Estados Unidos, a formação de milícias
com armas modernas e um desavergonhado clientelismo que enriquece
os amigos e põe migalhas na mesa dos mais pobres. De
seu Congresso subserviente, ele recebeu superpoderes para
governar por decreto. Para completar, Chávez controla
pessoalmente o dinheiro arrecadado com a venda de petróleo,
a única riqueza da Venezuela. O resultado é
um país sem a possibilidade de alternância de
poder, com eleições manipuladas e um Poder Legislativo
cuja única missão é referendar decisões
do Executivo. A isso se dá o nome de ditadura.
Hugo Chávez
sempre teve o cuidado de legitimar sua permanência no
governo com a convocação de eleições
e plebiscitos. Não é uma estratégia original.
Na verdade, trata-se de um procedimento quase padrão
nos países atormentados por presidentes vitalícios.
Não é sem razão que Alexander Lukashenko,
melancolicamente conhecido como o "último ditador da
Europa", perfila agora entre os "muy amigos" de Chávez.
Proibido de entrar em qualquer um dos países da União
Européia, Lukashenko acaba de assinar com a Venezuela
a venda de 1 bilhão de dólares em armamento
moderno. Um levantamento feito pela cientista política
Jennifer Gandhi, da Universidade Emory, nos Estados Unidos,
mostra que os ditadores que mantêm fachadas institucionais
são aqueles que por mais tempo conseguem ficar no poder.
Perpetuar-se no cargo tornou-se também a ambição
do presidente boliviano Evo Morales, uma cria de Chávez.
Há duas semanas, deputados do partido de Morales propuseram
incluir na nova Constituição o direito à
reeleição sem limite na Bolívia. Chávez
é o mau exemplo.