Derrotado na II
Guerra, o Japão renunciou a um dos direitos de soberania,
o de declarar guerra. Só nos anos 50 o que era então
sua força policial ganhou dimensões militares.
Ainda assim, com a reveladora denominação de
Forças de Autodefesa. O mundo mudou bastante de lá
para cá, e os novos desafios também estão
mudando o Japão. Os japoneses abandonaram discretamente
as restrições que nortearam sua postura militar
por décadas e começaram a treinar e se armar
para enfrentar uma guerra de verdade. Na ilha americana de
Guam, no Oceano Pacífico, pilotos japoneses estão
treinando o lançamento de bombas contra objetivos no
solo, algo que não acontecia desde a rendição
aos Estados Unidos, em 1945. Em janeiro passado, a agência
de defesa do Japão foi elevada à condição
de ministério. Em maio, o Parlamento aprovou a realização
de um referendo daqui a três anos em que os japoneses
vão decidir se querem ou não mudar o artigo
9 da Constituição, feita pelos Estados Unidos,
que proíbe o uso ofensivo das Forças Armadas.
Soldados japoneses já participam de uma primeira missão
militar no exterior: desde 2003, o Japão auxilia na
logística da ocupação americana no Iraque
com aviões, destróieres e navios de combustível.
O Japão
é um país atormentado por controvérsias
a respeito de seu passado militarista. Na primeira metade
do século passado, o exército imperial nipônico
foi responsável na China e na Coréia por crimes
de guerra cujas dimensões e cujo grau de crueldade
só têm equivalência com os da Alemanha
nazista. Ao contrário dos alemães, que não
perderam oportunidade para pedir desculpas ou tentar reparar
os crimes de Adolf Hitler, os japoneses consideram esse assunto
tabu e recusam-se a assumir responsabilidades, como exigem
a China e a Coréia do Sul. Devido às lembranças
ruins, há forte resistência entre os japoneses
a iniciativas que pareçam um retorno ao nacionalismo
militarista do passado. "O problema é que, ao se equipar
com armas de ataque, o país que se apresenta como o
paladino do pacifismo entra em contradição com
sua própria política externa", disse a VEJA
Philip Coyle, que já foi subsecretário de Defesa
dos Estados Unidos no governo Bill Clinton.
Vários motivos
levam o Japão a se armar. As guerras no Afeganistão
e no Iraque deixaram as tropas americanas no limite e suscitaram
uma intensa resistência interna a novos conflitos. Desde
1954, os americanos prometeram ajudar a defesa japonesa em
troca da autorização para instalar tropas no
arquipélago. Mais de 50.000 soldados americanos vivem
no Japão. Entre a população nipônica,
no entanto, há uma percepção de que os
Estados Unidos podem não estar lá quando houver
uma emergência. Acrescente-se a isso a insistência
com que Washington pede aos japoneses para assumirem papel
mais ativo na própria defesa. A relação
de forças na Ásia também está
mais complexa. Vinte anos atrás, o Japão temia
apenas a União Soviética. A China era somente
um vizinho miserável e irrelevante. Os soviéticos
sumiram do horizonte, mas a China tornou-se uma potência.
Os dois países estão estreitamente ligados por
laços econômicos, mas persiste a velha disputa
por influência na Ásia. Apesar de paupérrima,
a Coréia do Norte é uma dor de cabeça
real. Desde 1998, o excêntrico ditador Kim Jong-Il testa
mísseis cujo alcance é milimetricamente calculado
para atingir o arquipélago japonês. Kim Jong-Il
também faz alarde de seu programa nuclear, que usa
para chantagear os americanos, japoneses e sul-coreanos.
A mudança
de comportamento dos japoneses no quesito militarismo pretende
deixar uma mensagem clara aos vizinhos. O Japão não
quer ser visto como uma presa fácil na Ásia.
O aumento do orçamento militar da China também
incomoda os japoneses. Nos últimos dez anos, os gastos
com armamentos quadruplicaram e passaram os do Japão
em 1 bilhão de dólares. O contingente militar
japonês é pequeno se comparado ao dos rivais.
Seu arsenal não inclui armamentos ofensivos como submarinos
ou porta-aviões. Entre os itens da lista de intenção
de compra dos militares japoneses, no entanto, aparecem equipamentos
como o caça F-22 Raptor, cuja exportação
é proibida pelas leis americanas. O avião é
capaz de entrar e sair do espaço aéreo inimigo
sem ser detectado por radares. Enquanto não alteram
sua Carta Magna, os japoneses optam por criar fatos consumados.