A economia mundial
avança para o seu quinto ano consecutivo de forte crescimento.
O planeta é hoje 30% mais rico do que era em 2002,
quando se iniciou o atual período dourado. Em todos
os cantos do globo, há dinheiro saindo pelo ladrão.
Tal fenômeno só foi possível graças
à integração econômica e financeira
dos países. Não fossem os investidores estrangeiros,
por exemplo, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa)
não teria batido recordes sucessivos de valorização
– as ações das empresas brasileiras subiram
300% desde o início de 2003. Mas essa interdependência
funciona para os dois lados. Soluços em algumas dessas
engrenagens também levam a reações globais
e instantâneas. Foi o que se viu na semana passada.
Na última quinta-feira, os mercados tiveram o pior
dia desde fevereiro (veja
o quadro). Desta vez, a reação em cadeia
teve como epicentro os Estados Unidos. Os seguidos anos de
elevado crescimento e baixo risco ampliaram rapidamente as
linhas de crédito na economia americana, sobretudo
no setor imobiliário. Os bancos baixaram a guarda e
reduziram as exigências para liberar financiamentos.
Enquanto os juros estavam em níveis extremamente baixos,
tudo corria bem. Mas o ambiente mudou. Como a taxa de inadimplência
extrapolou os limites previstos, os juros subiram. Temendo
novas perdas, as instituições financeiras reduziram
sua tolerância em relação a aplicações
arriscadas e, por isso, algumas empresas não conseguiram
obter financiamento. Entre os inadimplentes, havia companhias
nas quais os fundos de investimento puseram dinheiro. Acendeu-se
um sinal de alerta em Wall Street e nas principais praças
financeiras do planeta, o que levou a uma semana de grandes
perdas no mercado acionário.
Entre as instituições
financeiras que mais sentiram o impacto estão os fundos
de private equity. Esses fundos, extremamente agressivos
e especulativos, são especializados em levantar o dinheiro
de grandes investidores e utilizar os recursos para comprar
companhias em dificuldade, saneá-las e depois passá-las
adiante por um valor bem mais elevado. Isso tem ocorrido com
freqüência no Brasil. A Varig, por exemplo, foi
comprada pelo fundo americano Matlin Patterson, que desembolsou
24 milhões de dólares. Oito meses depois, a
empresa foi vendida para a Gol por 320 milhões de dólares
– treze vezes o valor inicial. No capitalismo, os fundos de
private equity têm a virtude de captar e alocar
recursos com grande eficiência, estimulando negócios
que muitas vezes parecem fadados ao fracasso.
Richard Drew/AP
Trader desconsolado em Nova
York: a bolsa teve o segundo pior dia do ano
Os principais investidores dos private equity são
milionários anônimos, atraídos pela possibilidade
de rentabilidade elevada – em torno de 20% ao ano, contra
menos de 5% dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Por isso eles cresceram tão rapidamente (veja quadro
abaixo). O fundo americano Blackstone, criado em 1985,
foi um dos pioneiros nesse ramo. Seu nome faz referência
ao de seus dois fundadores, Stephen Schwarzman e Peter Peterson
– schwarz é "negro" em alemão, enquanto
Peter deriva do nome grego Petrus, que significa
pedra. Daí Blackstone. O controverso Schwarzman, que
leva uma doce vida entre a cobertura no Upper East Side de
Manhattan e a mansão na Flórida, é um
ícone dessa nova classe de magos das finanças.
É agressivo nos negócios (diz gostar de "infligir
dor" a seus competidores) e hábil em convencer investidores
a lhes entregar dinheiro por prazos longos, não raro
acima de cinco anos. A mais recente transação
comandada pelo Blackstone foi a compra da rede de hotéis
Hilton, por 26 bilhões de dólares. A turbulência
da semana passada afetou diretamente o mercado de private
equity e mostrou que tais fundos podem ter ocasionado
uma bolha financeira. Isso porque seus negócios
dependem de dinheiro farto, o que deixou de ser uma certeza.
As ações do Blackstone, que começaram
a ser negociadas no mês passado, já caíram
21%. Estima-se que, com o susto dos últimos dias, os
maiores fundos tenham deixado de captar 20 bilhões
de dólares com os quais contavam para quitar negócios
já anunciados.
O tremor nesses
fundos contaminou o Brasil. Foi esse tipo de movimento financeiro
que levou a Bovespa a amargar perda de 7,87% na semana passada,
apesar de não ter havido nenhum fato local que justificasse
o tombo das ações. A instabilidade deve perdurar
ainda por algum tempo. De acordo com estimativas do Federal
Reserve (o banco central dos EUA), os americanos deixarão
de pagar um total de 100 bilhões de dólares
em créditos imobiliários que tomaram nos últimos
anos. Haverá mortos e feridos pelo caminho, até
que os excessos do passado sejam purgados. Faz parte da dinâmica
regeneradora do capitalismo.